quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

bastardos!




tomem a balsa, seres infiéis.
tomem a balsa rumo ao norte!
quando cruzarem a linha do equador, abracem-se, homens honestos.
fiquem nus e se abracem.
não tenham mais medo de olhar nos olhos uns dos outros, tolos.
pronunciem com vigor as palavras absolutas da verdade, do amor, da fé, da honra, dos mistérios.
pronunciem!
vamos, vivam!

vivam e chorem.
vivam e corram.
vivam e sorriam.
vivam e se abracem.
vivam e comam.
vivam e briguem.
vivam e transem.
vivam e se transformem em seres humanos.
vivam e nunca mais sejam os mesmos.
vivam e busquem sua voz, oculta ao som dos grilhões.

vivam e ouçam.
vivam e regozijem.
vivam e gritem.
vivam e se desmascarem.
vivam e beijem.
vivam e persigam.
vivam e amem.
vivam e se desfigurem de toda a bondade da terra.
vivam e transformem a vida de alguém, destruam-na.
vivam e busquem sua voz, explícita ao som dos mares.

do contrário, de que vale essa vida?
qual o sentido da história?
e onde se declamará sua biografia?

mas quem foi que disse que a vida vale alguma coisa?
quem foi que disse que a história deve fazer qualquer sentido?
ou que biografias devem ser poesias declamadas ao ar livre?

quem teria a ousadia de declarar que o mundo gira conforme a nossa vontade?

vãos. é isso que somos.
passageiros e efêmeros.
surdos e pelados.
ingênuos transeuntes do espaço.
egoístas de nossas próprias desilusões.

desçam da balsa, órfãos repetitivos.
já é hora de descer.
ao norte não chegamos.
porque sabemos dele não existir.
que a frieza das sombras da morte nos abracem.
e o nosso lugar é bem próximo.
é chegada a hora de nossa morte.
que som é este? é o som dos bastardos!
e então, numa bela tarde de verão, daquelas em que o sol insiste em sua missão de iluminar o mundo de amarelo, eles se despediram. usaram aqueles mesmos instrumentos eletrônicos que antes serviam para "olá", "bom dia", "tudo bem?", "já pode?" e tantos outros símbolos em forma de palavras de amor. todavia, decididos em partilhar ao menos um último sentimento em comum, não se disseram adeus. entendidos da vida e de sua dor orgânica, perceberam que ela vai e volta. notaram que hoje é o dia da ferida; amanhã o dia da superação; depois de amanhã, ninguém sabe. disseram um doce "até logo". porque, nesta vida, os dias passam rápido, e os anos correm ligeiros como a chuva deste mesmo verão vespertino que hoje os abraçou, distantes. trocaram velhos enigmas, apenas para inaugurarem uma vida nova, a sós. o moço, épico, prometeu a espera costumeira, já dilacerada na primeira vez. a moça, ferida, não prometeu nada, mas sugeriu, em signos marinhos, que o sorriso poderia voltar a emoldurar seu rosto de alabastro... um dia, não agora, porque o agora machuca demais.

até logo, queijo branco... até logo, amor orgânico. até logo... até logo... porque já não conto mais o tempo... que ele passe... que ele voe... que ele não signifique nada mais...

!_!_! Coroa explosiva do meu Grito !_!_!




Aqui jazem alguns que por muitas vidas amaram,e por ousadia não socaram dedos dentro de luvas e assim deixaram pingar em odor forte, o suor e sangue em forma de evidência.

Suor e sangue que evidenciam os fatos em imagem forte e som falho. Sem nem escutar uma ou mais batidas do coração -

que sem bater, bombeava mentira e tesão fingido para dentro de uma caverna escura -

que tinha odor de gozo de mulher, o tato era molhado, porém, doía como um hematoma roxo de criança. Estava ali e incomodava, mas um dia, quem sabe, a dor sara?

Por que fingir saber a língua quando a caverna vadia gozava um mundo novo?


!_!_! Coroa explosiva do meu Grito !_!_!


À mulher de cinza, a quase morte... Como odeio o teu sangue, sua escama maldita e fingida!

Mera mulher que veste um preto encardido. Não vê que veste um cinza sujo e não preto? Assim não me dá medo, apenas me perturba.

Mas antes que o Tempo em meu pescoço caia ao chão, eu lhe estupro a lealdade e como o seu perdão. Antes que o o Tempo quebre o chão...

À outra que está cega com escamas vaginais lhe cobrindo a vista.. Você é quem não sabe do que sou capaz por ferir o meu amado. Eu lhe caço a alma até o máximo de onde um dia chegou o seu amor.

Eu escalo todo o amor até o alto e lá de cima eu lhe finco uma Espada e te lembro até onde um dia você chegou por causa de um porco. Que sangre perdão e salve-o do caixão em que ele adormece, por um Tempo.

Por: Fernando Fernando.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Abram as cortinas e celebrem o fim da história.




Na virada das ondas.
Adeus.
Tic-Tac, Tic-Tac... É este o som dos passos da morte!
A mulher de preto tomou minha vida.
Lúgubre, o sol da manhã não se levantará de novo.
Incineração de todas as personagens.
Abram as cortinas e celebrem o fim da história.

Morto!
Ouço os sinos de um templo destruído.
Não vejo mais o além.
Idiossincrasias múltiplas, personagens esquizofrênicos.
Caiu o último bastião da glória das sombras.
A morte é o doce sonho dos porcos.

Mefistófeles!
Anjo da morte e companheiro de Satã.
Rastejo pela lama e sangue da inocência que pisei.
Incauto, meto-me em ácido.
Lúcifer!
Indica-me o caminho dos mortos.
Aqui não posso mais ficar.

NADA! É este meu remédio de não ser.
Ãnsia. Võmito. Òdio Pò!
Obliterado de todas as emoções.

Diga aos meus pais que os amo.
Indigno, nada mais importa.
Gonorréia, Sífilis, HIV e Lepra.
Afrodisíacos de um amor fingido, de pernas abertas e sem coração.

A morte é sólida, solução definitiva.
Deus odiaria a todos nós, se ali estivesse.
Exílio eterno, exijo para mim.
Uma coleção de palavras honestas desfez o homem.
Sexo! Drogas! Crimes! Gemidos! Dor! Clichês de uma vida que deixará de existir.

!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

eu não sei escrever!




queria poder dizer que te amo!
queria poder voltar no tempo.
pra dizer que te amo.
pra esconder de todo mundo.
pra guardar você comigo.
pra dizer que te amo!

queria poder dizer que te quero!
queria avançar as horas.
pra dizer que te quero.
pra me esconder nos escombros.
pra construir nosso ninho.
pra dizer que te quero!

queria poder dizer das saudades!
queria controlar o tempo.
pra dizer das saudades.
pra me afastar dos vilões.
pra te revelar os segredos.
pra dizer das saudades!

queria dizer que te espero!
queria destruir o coelho da Alice.
pra dizer que te espero.
pra escrever maravilhas.
pra criar um mundo novo.
pra dizer que te espero...

amor, desejo, saudade, paciência.
o amor é feio.
o desejo, impuro.
a saudade, crônica.
a paciência, perene.

ah, se tão somente eu soubesse escrever...
eu diria que te amo.
diria que te quero.
diria das saudades.
e aprenderia a esperar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Não entre na internet hoje!




Todos os dias o menino brincava as brincadeiras de sua geração. Vídeo Game, jogos online, internet. Era mesmo uma rotina aquela. Férias, enfim.

Ouvia todos os dias aquelas frases de uma geração que não era a sua. "Vai brincar lá fora, menino! Olha esse sol, que lindo". Porém, menino, continuava a brincar com aquilo que conhecia tão bem, vídeo game, jogos online, internet. "Mudar pra quê", pensava sozinho, arrastando seus dedos sobre o teclado verde de sapo.

Mas aconteceu um dia de acabar a luz, na casa do menino. Era de noite já. Sem vídeo game, jogos online e internet, o menino não queria dormir. Caçando pela casa, procurava o que fazer, monotonia. Não era desde sempre que o menino jogava os jogos de menino, já lera muitos livros, dentro e fora da escola. Não queria mais ler.

Andou pela casa e foi juntando uns cacarecos. Copos, panelas, papel alumínio, bichinhos de pelúcia da irmã, talheres, bonequinhos de ação. Montou uma cidade inteira, lá na sala, debaixo da mesa de jantar. E brincou a noite inteira, o menino.

Adormeceu. Acordou em sua cama, meio sem saber como tinha parado lá. Ansioso, correu para o vídeo game, jogos online e internet. Mas a luz não tinha voltado, coitado do menino. Ficou mesmo triste, melancólico, quase fora de lugar, sem saber o que fazer.

"É… fazer o que, né? Vou lá fora. Os meus amigos devem ter alguma idéia do que fazer sem luz", pensou o menino, cheio de esperança. E saiu.

Lá fora, sentiu o sol em sua pele tenra. Era uma sensação muito esquisita aquela, do sol, da brisa, da rua. Já tinha sentido aquilo antes. Porém, por sabe-se lá qual motivo, tinha se enterrado por anos no vídeo game, jogos online, internet. "Ah, se todo mundo da minha idade faz isso, deve ser legal", pensava o menino, antes de acabar a luz.

E correu. Brincou de futebol. Viu meninos e meninas. Conversou, pulou, andou, trepou e ralou os joelhos. "Até que isso de sair de casa é uma boa alternativa", disse o menino pra sua nova amiga da rua.

Esperto, logo o menino percebeu que toda a diversão da rua estava em brincar com outros meninos, com as meninas. O mais legal da rua era não precisar jamais ficar sozinho. Brincava tanto com meninos e meninas que sempre voltava sujo pra casa, férias de menino de rua, enfim.

Sujo de meninos e meninas, o menino se sentia vivinho. Dias e dias tinham se passado, a luz tinha voltado há tempos e o menino nem pensava mais em vídeo game, jogos online, internet. Só queria a rua, as esquinas, o medo e o delírio.

Sujo de meninos e meninas, suado do calor do sol, ralado pela brisa e com a rua sob as unhas, o menino brincava com a torneira. Fazia isso todos os dias. Metia a mão sob a torneira e se sentia molhado, balançando os dedos pueris. Um dia, dois dias, três dias, quatro, cinco… Era aquele seu momento preferido do dia, brincar com a torneira.

Até que um dia, ou uma noite, o menino apertou toda aquela água contra a torneira. Estava decidido a não deixar nenhuma gota de água ir embora. Apertava com vigor e insistência. "Não posso deixar a água ir embora, não posso, não posso!", pensava o menino, em transe. Entretanto, vencido pela força líquida, não podia fazer mais nada além de sentir a água escorrer pela palma de sua mão direita. Bem no meio de sua mão, o menino sentia cócegas. Bem no meio do peito, o menino ganhava coração. Bem no meio da noite, o menino virava homem.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

de olhos fechados...




De olhos fechados para qualquer realidade, abertos apenas para o abstrato. Se os abro, vejo as chamas. Prédios caem, uma criança chora, vejo pedaços de renda francesa preta se queimando no chão.

Mas, de olhos fechados, o chão é de vidro, e vejo toda a cidade iluminada sob meus pés. Imagine se pudéssemos ir pra qualquer ponto dessa cidade?

Tentei quebrar o chão de vidro, pois daí seríamos plenas, eu e a arquitetura. Mas no meio dessa viagem ao abstrato abri meus olhos. Ao contrário do que era antes, as chamas e rendas pretas carbonizadas vieram parar dentro de mim. Meu corpo são os prédios a desmoronar. Por fora, sou só aquela criança que chora.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sentimentos em Carvão...






Uma parede branca. Entre várias paredes brancas. Algumas em móveis, quadros, detalhes em azul. Mas aquela parede branca, única, tinha o sabor das eras em carbono cru. Carbonizada, colhia a cada dia memórias finitas, condensadas, escolhidas e dedilhadas. A frase de uma música, o desenho de um prédio, o esquema de avenidas inteiras. Alinhavam-se naquela parede branca os sonhos todos, a cada centímetro, a cada segundo, a cada batida dos corações.

Muro das lamentações, guardava as lágrimas daqueles dias doloridos de saudade contrita. Sabe, aqueles em que se chora sozinho diante da única parede branca que pode receber as letras inenarráveis da dor lancinante de estar só?

Mural mexicano, recebia, sem cores, propagandas secretas de tudo o que poderia ser e não foi, ou foi, ou seria, ou não seria mais. Sabe, aqueles planos e projetos e ações e inações e desejos e perspectivas e conquistas?

Lousa, ceifava todo o pó do que se reserva da vida inteira, nossa, vil, humana. Sabe, aquela lousa dos ensinamentos das vidas vividas em dias e dias de olhares, informações e pressentimentos do destino?

Era uma parede branca. Só uma parede branca riscada de carvão. Não era nada mais do que uma parede branca em risca de giz negro. E, assim, singela e contaminada, resumia vidas inteiras. E, assim, cinza, sintetizava a magnificência de existir no mundo. E, assim, ambígua, simbolizava as metáforas da vida, luzes e sombras coexistindo em uma harmonia impossível, tensão orgânica.

De quantas vidas teria sido testemunha aquela parede? De quantas dores? De quantos desejos? De quantas frações de segundo? De quantos dias e noites redundantes?

Não importa. Já não importa mais. Ela é branca. E seus rabiscos não são mais meros rascunhos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011




A dor é crônica e a ferida incurável. E poesias pobres não ajudam a carregar o peso dos meus pecados, cimentados nesta natureza sombria. Que me venha o inferno e que não exista salvação. E que meu corpo transborde, porque não há mais espaço que me possa suportar.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

LOVE IS A GOD FROM HELL


Imagem: http://oldworldcounterfeit.com/.


Crianças, o amor é um cão vindo dos infernos.
Aprendam com Bukowski. Somente para desaprenderem tudo.
Toda a poesia do mundo morreu com o holocausto?
E quem foi que disse que o holocausto morreu?
São tão ingênuos, em suas vestes politicamente corretas e mania de controle.
Boa sorte!
Não há nada de novo na vida, nada de bom na humanidade.
Respirem, pela última vez, o ar cúprico que os cercam.
Acordem! E morram.
Durmam! E morram mesmo assim, entorpecidos e imbecis.

Mas, nossa, que palavras fortes! Já vi melhores, mas são fortes.
E quem disse que tua opinião me importa?
Quem disse que me interessa quem és tu?
Apodrece no seio de tua paixão suicida.
Desintegra-te no íntimo de tuas vivências simplórias.
Afunda-te nos desejos de teus heróis bufões.
Tolo, ainda tem heróis?
Infante, ainda acredita na providência?
Rio-me de ti e dessas vãs esperanças.
A esperança é a coleira do cão do amor, vindo do meio dos infernos.

Calem-se! Todos!
Não preciso de interlocutor.
Afastem-se! Todos!
Não preciso de companhia.
Saiam! Todos!
Não preciso de audiência.
Fujam! Todos!
Não preciso de seguidores.
Ceguem-se! Todos!
Não preciso de admiradores.
Corram! Todos!
Que eu quero ficar sozinho!

Alguns se apegam a um deus que não existe.
Outros se apegam a um deus que os rejeitou.
Outros não se apegam a porra nenhuma.
Eu me apego a um par qualquer de pernas abertas.
Apenas para soltar como quem cospe na areia do deserto.
E todos se apegam a mim.
Como se de mim saíssem mistérios revelados.
Já alerto esse afeto: Eu me desapego!
Porque o amor é um cão vindo dos infernos!
E eu o tradutor sombrio de seus latidos!

domingo, 27 de novembro de 2011

"O Sol se põe em São Paulo" - Bernardo Carvalho






Terminei a leitura deste texto ontem, à noite, deturpando a perspectiva de compartilhamento da maioria dos bons leitores, grifando vários trechos considerados importantes. E não os grifei com lápis, instrumento efêmero; sim com aquelas canetas marca texto, de cor rosa, definitivo, mesmo que tendendo a desbotar com o tempo.

O fiz como uma declaração eterna de amor. Não apenas à cidade de São Paulo, que pensei ser o tema principal do texto em questão (quando o comecei a ler), como sugeria a capa, o primeiro capítulo. Todavia uma declaração de amor à todas as esquinas pelas quais passei neste ano de 2011, certamente o mais revelador de minha vida, já não tão curta como gostaria. Ainda, uma declaração de amor ao meu débil papel de escritor, tão intenso quanto pueril, mero construtor de máscaras e personagens planas.

O romance realmente não é muito bom, como vários meios de comunicação e críticos literários já anunciaram. Desconheço a obra completa do autor, porém, em termos literários, o texto deve muito. Apresenta uma introdução enorme, aflorando em romance apenas no penúltimo capítulo. Pareceu-me um grande roteiro de filme. Com riscos de grandes diálogos com o que é obvio na linguagem de cinema, ou seja: sujeito A quer conseguir seu objetivo B, mas aparece um elemento C que atrapalha tudo. Típica narrativa do suspense narrativo. Ou, quem sabe, mero deslumbramento com a cultura japonesa. Apresentada ali como tensão, entre as censuras familiares de uma cultura estática, imutável; e as possibilidades frustradas de transformação dos imigrantes nipônicos no Brasil. O próprio título do texto nos oferece tal sugestão. O Brasil é o lugar onde o sol se põe, frustrante, fraturado, lugar da morte em vida, sem metáforas.

E talvez esse seja justamente o ponto forte do livro. A relação entre os diferentes países e sua potência de gerar fraturas psicológicas marcantes e definitivas. O oriente e suas sombras, o ocidente e sua lucidez. Ambos revelam verdades, ou por acentuarem a essência dos personagens, ou por destacarem suas máscaras. Mais ou menos como disse Michyio: "No fundo, todas as máscaras confirmam quem você é. Pois é você que as usa. … o bom ator se revela nas máscaras. … o bom ator já não precisa delas, pois as incorporou". O que me fez pensar em um pequeno texto, na madrugada de ontem, que compartilho com vocês a seguir.




Quantas personagens vivemos numa só vida? Quando atuamos e quando vivemos efetivamente? Mas não é a atuação parte de nós? O que é viver senão atuar todos os dias, aqueles papeis escritos por nós mesmos ou entregues a nós, como roteiro adaptado? Quem somos, afinal? Autores autobiográficos ou personagens aleatórios, títeres insignificantes de certo autor que vaga por aí? São nossas falas diálogos criados a partir de nosso ego ou simples discursos engendrados por um roteirista mais esperto que nós?

Há quem tão somente viva, passo a passo, sem se perguntar sobre o próximo. Há quem, contudo, não saiba viver sem se questionar sobre cada passo a seguir. E nós? Quem somos nós? Qual operação usamos para seguir o caminho? Não somos nós apenas viciados em adrenalina? Ou essa adrenalina é parte de algo maior que desejamos ardentemente sentir? Finalmente, o que desejamos tanto sentir ao passar por essa vereda que chamamos de "nossa vida"? Não seria a adrenalina uma maneira de fugir do medo de passar pela existência sem sentir absolutamente nada? Temos medo de caminhar por aqui e não passarmos de "apenas mais um", medíocres, descartáveis e estéreis. Chega um momento na vida em que viver em timeline não parece mais o bastante. A "vida em timeline" é linda, plena em possibilidades, transparente e líquida, entretanto, insuficiente, vida de "mais um". Adicionamos, seguimos, aumentamos nossos círculos, mas clamamos por algo maior que nos dilate a pupila, acelere nosso coração e encha nossos pulmões. Algo... Ou alguém! Alguém que não torne nossa timeline monótona, sim faça a vida vibrar em ciclos muito menores, agitando-a como nunca se agitara antes! Fazendo nosso corpo transbordar com sensações e sentimentos antes só imaginados, pressentidos, porém completamente desconhecidos no tecido do real.

E, assim, fora da timeline, sugando cada gota que transborda de nossos corpos suados por adrenalina, acreditamos na posse orgânica de nosso fôlego. Não nos perguntamos mais se a vida é nossa ou não. Se o destino é desenhado por nós mesmos ou predeterminado. Se o livre arbítrio é real ou se nossos desejos são gerenciados pelos progenitores de nossa presença no mundo. Não nos perguntamos mais, porque acreditamos. Acreditamos, porque vivemos. E vivemos, sim, a vida que escolhemos. De novo, existem aqueles que acreditam numa existência automática, baseada em sabe-se lá quais princípios organizadores, externos à sua própria vontade. E existem aqueles que, como nós, enfrentam a oportunidade única de olhar a própria encarnação como uma possibilidade de escolha.

Claro, olhar a vida deste modo pode gerar movimento ou paralisia. E ambos, depois que se aprende a viver com o corpo carregado de adrenalina e sob o efeito de não ser "mais um", exigem coragem. Postos em movimento ou paralisados, após conhecer a plenitude de decidir o próprio destino, nunca mais somos os mesmos. Seja escolhendo a segurança e o conforto de uma vida imóvel, comandada por elementos externos a nós; seja encarando a glória e o brilho da vida que transborda todos os dias, estamos transformados, completamente novos na potência de estabelecer em nós mesmos a novidade de vida.

Enfim, quem escolhemos ser? Quais papeis decidimos interpretar? Seremos bandidos? Mocinhos? Ou a síntese da ruptura de todos esses rótulos? Eu fiz a minha escolha. Vida vadia, o que mais?

segunda-feira, 14 de novembro de 2011






Este é apenas um trecho de todo um capítulo que consegui tirar do campo das ideias desde ontem. Espero que este tempo de pausa hoje vivido por mim seja produtivo para o "livro verde".




Olhava para todos os lados daquele cubículo empoeirado, alheio e familiar. Sob aquele teto bege, maculado pelo tempo, sentia-se pequeno, frágil. Ocultado de si mesmo, tentava visualizar o que lhe seria o futuro, agora fraturado por suas próprias masmorras, auto-impostas. Regia sua vida como um condutor sem partitura, e se perdia por entre tantas notas em fuga, Si Menor, II Ato, sem piedade ou arroubos de misericórdia. Sua cabeça doía em ressaca. Sua memória parecia conservada em carvalho e a cada gole se transformava. Destilando-se, de grão em grão, nunca era a mesma, traidora de sua vontade. Lembrava-se do que bem entendia, e não obedecia ao controle do maestro. Inexistia qualquer mágica naquela maneira de evocar o passado, tudo era bruto, seco, sem chances de repressão; reminiscências em carne viva, em brasa, dor. Tentava controlar o torvelinho no fundo de um copo, dois, três, perdia a conta. E só alcançava confusão maior, notas dissonantes de uma sinfonia inacabada.

Ricardo, saudoso de sua bastilha e, ao mesmo tempo, aliviado por aquele abandono, tão repentino quanto esperado, vislumbrava os monumentos do tempo, personagem inexorável de todas as vidas de tantos universos, criados por ele ou simplesmente aleatórios. Começava a refletir sobre as obras da ocasião e percebeu, como que em milésimos de segundo de sobriedade em meio à ressaca da ressaca, que estava procurando a culpa de sua situação em algum elemento externo. O trabalho, as rotinas, os poucos amigos, os inimigos todos, os perseguidores, os "stalkers", os desocupados de vida besta, o tempo, o Destino, o coelho de Alice, setembro. Tentava ali, com sono, pânico e amargura, culpar o distante.

E foram estes segundos efêmeros de sanidade que transformaram Ricardo, mais uma vez. Todavia, comentaria ela, ouvindo o relato deste momento único dos lábios macios dele, se não fossem as doses todas de Irlanda em seu estômago revirado, não saberia valorizar os segundos sãos. E era verdade, a máxima verdade, como de costume.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Carta de Despedida.

Amigos, alunos.

Abaixo publico uma carta eletrônica recebida por mim, escrita pela aluna Gabriela Gusmão Barzagli, aluna do Colégio Wellington, da sala do 8ºI, no contexto de minha surpreendente e inesperada saída da referida instituição de ensino.

A carta me emocionou bastante, por sua emoção, carinho e maturidade.

Boa leitura a todos. Em breve ofereço explicações para esta saída do Colégio, tão repentina e indesejada.




Adrian, eu nem poderia descrever como eu e muitos outros alunos, a grande maioria, nos sentimos ao recebermos a notícia de que você não irá mais lecionar no Wellington. Quando eu entrei no colégio um aluno me contou que haviam te despedido, eu até dei risada porque aquilo não seria possível. Poucos segundos depois veio outro aluno, percebi que não era uma brincadeira, e automaticamente comecei a chorar.

Milhares de coisas passaram pela minha cabeça, mas eu realmente não acreditava naquilo que tinha acabado de ouvir. Quando cheguei na sala já estava soluçando. Chorei mais do que pensei que seria capaz, senti mais do que pensei que sentiria. Não era só eu que chorava, parece até que o colégio está de luto. De qualquer forma, sabemos que você não morreu, ou qualquer outra coisa que nos impedisse de nos reencontrar. Mas o impacto e o buraco que isso nos causou foi tão grande e tão rápido, que a dor e a tristeza foram multiplicadas. Não estávamos prontos. O que mais nos fez pensar é como e porque você nos escondeu isso "Será que ele não queria que sofrêssemos por antecipação?". O sofrimento, por antecipação ou não, veio. Não culpe-se pela nossa tristeza. Apenas fique feliz por saber que você será lembrado como aquele professor que fala com objetos, gosta de meias, meio louco... o amigo.

No dia 26 a sua última aula no colégio foi no 8º ano I, se não me engano. E você parecia tão... normal. Normal para quem não procurava um detalhe. Normal para quem não sabia que aquela era a última vez que o víamos saindo por aquela porta. Dói muito saber que não aproveitamos nossos últimos momentos como aluno e professor. Não sei se seria melhor ou pior termos sido avisados antecipadamente de sua saída, mas sei que sua intenção era de que ninguém saísse (mais) triste. Inevitável. É isso que ganhamos por termos boas pessoas por perto, bons sentimentos, bons momentos: lembranças. Não sou boa com despedidas, mas nunca disse que sou boa com lembranças. Mas saber que as nossas, talvez não todas, são felizes, me anima.

Pelo o que eu soube, foi por motivos pessoais que você teve que sair do colégio, e por mais que seja difícil, todos nós teremos que aceitar sua decisão, não podemos te controlar. Mas é que o amor, não sei se por todas às vezes, é egoísta. E agora tornou-se ainda mais claro de que você é um professor muito amado, e sempre será. Talvez seja drama demais dizer que nossos dias não serão mais os mesmo, mas provavelmente será muito difícil saber que a aula seguinte não é a "aula do Adrian", e sim uma aula de Geografia qualquer. Sem desmerecer nenhum professor que venha a (tentar) te substituir, mas, cara, você é insubstituível. Nos ensinou mais do que História e Geografia, nos ensinou vida. Assim como te disse na última vez que o vi na sala de aula, você é alguém que eu realmente quis (e ainda quero) conhecer de verdade, alguém instigante, interessante. Não me dou por satisfeita.

E nesse simples e-mail, mais do que tudo, eu gostaria de te dizer que espero que os alunos do Colégio Wellington tenham marcado sua vida positivamente, assim como você marcou as nossas. Espero continuar mantendo contato com você, alguém que se tornou tão especial nesses últimos anos. Independente do motivo pelo qual você teve que sair do colégio, desejo do fundo do meu coração que essa mudança seja para melhor, e que você seja feliz em seu caminho. Nem tudo que acaba tem um fim, está presente nos pensamentos, nos sentimentos.

Nós te amamos.

Gabriela Gusmão Barzagli, 8º I




Lágrimas ainda correm meu rosto depauperado. Amo vocês! Quero vocês de volta... Obrigado por tudo!

Adrian Theodor.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Steve Jobs, conectando os pontos ao final da estrada...




Hoje não quero escrever sobre as mudanças que você proporcionou ao mundo inteiro, são inúmeras, incontáveis, magníficas. Apenas deixo esse memorial, dizendo que todo o meu mundo foi transformado pelas tecnologias que criou. Desde 2009 meu mundo gira em torno dos ícones de um iPhone, depois outro, depois outro. Hoje, defino amores inteiros dentro deste contexto de redes sociais, mobilidades, mídias, tecnologia, consumo, gadgets e você.

Steve Jobs, muito obrigado, mesmo. O seu sucesso abalou meu mundo, minhas próprias conquistas pessoais e meu modo de pensar a sociedade contemporânea. Não sei nada sobre como sobreviverá o mundo após suas criações, afinal o novo, como você mesmo já disse, está dentro de nós, alguém tomará seu lugar como ícone, ídolo, símbolo. Todavia sei que, hoje, meu mundo, é, mais uma vez, transformado por você, ficando mais triste com sua partida.

Todavia, a inovação está aqui. E decido viver minha própria vida. Somente para dar lugar aos outros, também no momento de minha morte, a maior invenção da vida, que dá lugar à renovação, por entre meus dedos, seja ela real ou metafórica.

[...Nosso amor é muito de autoria do Jobs! E as fotos, vídeos, dms, instagram, bump dando certo ou não... Ai, dói ): ...]

sábado, 10 de setembro de 2011

A Rainha e o Capitão

Todo capitão navega sob uma bandeira. Eu, caveira branca em fundo preto. Corsário, encarno o motim dos amores e desejos inomináveis.

Relegado à pirata, não pela monarquia que me governa, mas por seus opositores, não navego à deriva, salvarei a rainha no seio de seu castelo.

Salva, não exercerá poder sobre aquele reino decrépito. Governará a nação de nós dois. E, sob seu cetro, nunca mais os bárbaros passarão!

Minha rainha nunca me transformará em rei. Serei sempre seu capitão em armadura de cetim, pronto para as batalhas de sua casa de bonecas.

Não há caminho de volta. Nada mais importa. Eu só preciso de você. Entre em meu navio, sou seu capitão amotinado. Você é o meu amor.

(...)

Elevem vossos grilhões, oh inimigos do reino! Elevem vossos grilhões e esperem pela força máxima de minha paixão! Eis que me levanto…

…e recrio da escuridão todas as coisas. Capitão dos desejos e das sombras é o meu nome! E você? Como se chama, oh escravo das masmorras?

A abundância de vosso rigor fortalece as chamas de meu peito líquido. Minha força é infinita, vosso poder inamovível. Preparai-vos!

Preparai-vos para a tempestade que trago à vossas águas! Preparai-vos para o fim de toda a doçura! Preparai-vos para as dores do combate!

Não há treinamento para a dor que agora sinto. Nem palavras que descrevam o ato final desta redenção. É chegada, é chegada a hora do juízo.

Estais prontos para perder tudo o que ama? Tens coragem de empreender a batalha secular que preparei só para vós? Eis que sereis derrotados…

…no interior de vossa casa das prisões eternas. Manifestai-vos, escravo das masmorras! Tão somente para capitular ante o fio de minha espada.

(...)

E seguiam, o Capitão e a Rainha, trocando mensagens proibidas através de pombos correio secretos. Letras de morte, amor, juras eternas.

A distância cruel do cativeiro os atormentava o ser. Confundia a percepção de seus sentimentos, mas nunca sua certeza! Era amor, era amor.

A sós, no segredo cativo, entoavam hinos em nome de sua adoração mútua, interminável, deles! Quais os deuses que contemplavam agora?

Eram aqueles de seus pais? Eram aqueles dos mitos do passado? Eram deuses engarrafados? Ou eram eles mesmos? Teocêntricos de si mesmos!

Encastelada e velejando, sonhavam com o dia do encontro, do pra sempre, do pra nunca mais, do pra mais ninguém. Olhavam-se, paredes e velas.

A distância apenas os encorajava a arriscar tudo. Paredes e velas. Alçapões e mastros. Cabelos e tapa olhos. Ela e ele, ninguém mais!

domingo, 4 de setembro de 2011

amor orgânico




Não sentei sobre este teclado até que minha vontade de ir ao banheiro fosse incontrolável. Posso dizer, com segurança, que minha bexiga vai explodir em alguns minutos; cuidei, nas últimas horas, para que ela estivesse exatamente assim, tensa e pronta para despejar seu conteúdo na primeira oportunidade. Penso não se fazer necessário explicar o meu sentido de urgência ao escrever este texto.

Agora, pesado, posso refletir sobre o que significa o amor orgânico. Sobre o que significa amar tanto um sujeito, que seu corpo clama por ele. Não é disso que tratam os filmes de Hollywood, sempre tão limpos e higiênicos, de amores que se consertam na tessitura própria do enredo. Os amores de cinema são plásticos, não orgânicos. São bonitos, mesmo quando feios. Reformados, recriados, amenos.

Talvez seja certo moralismo às avessas de minha parte, mas o amor orgânico, este que sinto hoje, é carnal e vivo. Vem aqui de dentro da bexiga, dói nos intestinos, sente-se nos rins. Claro, é sentimento, toca o ~coração~, este mito de sede das sensações, quartel general dos sentimentos todos, organizados e confusos. Entretanto, é governado pelas entranhas do corpo nu, da pele nua, da razão em carne viva, aberta e suja.

Áspero, o amor orgânico não fica à deriva. Exige ação contínua. É exatamente o inverso de estar no meio do oceano, esperando os acontecimentos que se desdobram em sua volta, morno. É precisamente o que se sente ao experimentar o anseio de se encontrar um banheiro quando se está de bexiga cheia. É justamente o que se quer, na hora em que se quer, sem saber esperar ordens, julgamentos morais ou regras de etiqueta. Mais uma vez, urgente, ponto de exclamação, agora!

Liga-se diretamente às outras necessidade que costumamos chamar de vitais. O amor orgânico é beber, comer, cheirar, tocar, defecar, urinar, dormir, amar, adorar. Toma-nos em nossa essência, em nosso vigor, em nossa intimidade, em nossas vicissitudes mais primordiais e brutas. É como o puxar de cabelos do homem das cavernas, quando este encontrava sua parceria reprodutiva. Como querer consumir o corpo de quem se ama do mesmo modo que se mastiga cada fibra do salmão, no prato japonês. É querer salivar com a saliva do outro, morder com os dentes do outro, roer as unhas da ansiedade do outro, encher de ar os pulmões do outro, livrar as mãos do outro de todos os empecilhos que corroem sua felicidade, libertar-se a si mesmo através da libertação de quem se ama orgânicamente.

Ininteligível, o amor orgânico não pode ser decifrado por quem não o sente em sua plenitude. Se você não participa de uma companhia orgânica, jamais vai entender o que significa sentir dores agudas em um estômago que deseja dialogar com outro estômago, externo, amado, necessário. Nunca será capaz de comparar o tom de pele de seu amor com um queijo branco dentro de um pão de padaria. E, para além das metáforas e comparações estéticas, jamais vai querer mastigar a barriga de seu amor exatamente do mesmo modo que se mastiga o tal queijo minas, fresco e branco. Tampouco vai querer roubá-lo, em um beijo de língua, de dentro da boca do seu amor, somente para terminar de mastigá-lo, pleno de sabor orgânico.

Amálgama, o amor orgânico transforma dois corpos em um só. Todas as emoções, sensações, sensibilidade, raciocínios, necessidades, saudades, são parte de uma mesma identidade corporal. Os amantes orgânicos se lambem como gato ao leite, pois, na verdade, são parte da mesma entidade física. Lambem-se um ao outro, pois se lambem a si mesmos. Amam-se em todas as suas diferenças, justamente por encontrarem em si as maiores semelhanças que são possíveis em duas personalidades distintas. Não sentem falta da presença um do outro, mas necessitam orgânicamente da junção corporal, um no outro. Transformam-se em um só corpo, não mais se permitem viver separados, já não podem se dar ao luxo de voltar atrás. Pertencem-se, ou morrem. E eles querem viver!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

sobre a modernidade e os insetos






Viver num mundo cheio de oportunidade – cada uma mais apetitosa e atraente que a anterior, cada uma “compensando a anterior, e preparando o terreno para a mudança para a seguinte” – é uma experiência divertida. Nesse mundo, poucas coisas são predeterminadas, e menos ainda irrevogáveis. Poucas derrotas são definitivas, pouquíssimos contratempos, irreversíveis; mas nenhuma vitória é tampouco final. Para que as possibilidades continuem infinitas, nenhuma deve ser capaz de petrificar-se em realidade para sempre. Melhor que permaneçam líquidas e fluidas e tenham “data de validade”, caso contrário poderiam excluir as oportunidades remanescentes e abortar o embrião da próxima aventura. Como dizem Zbyszko Melosik e Tomasz Szkudlarek em seu interessante estudo de problemas da identidade, viver em meio a chances aparentemente infinitas (ou pelo menos em meio a maior número de chances do que seria razoável experimentar) tem o gosto doce da “liberdade de tornar-se qualquer um”. Porém, essa doçura tem uma cica amarga, porque enquanto o “tornar-se” sugere que nada está acabado e temos tudo pela frente, a condição de “ser alguém”, que o tornar-se deve assegurar, anuncia o apito final do árbitro, indicando o fim do jogo: “Você não está mais livre quando chega ao final; você não é você, mesmo que tenha se tronado alguém”. Estar inacabado, incompleto e subdeterminado é um estado cheio de riscos e ansiedade, mês seu contrário também não traz um prazer pleno, pois fecha antecipadamente o que a liberdade precisa manter aberto.

A consciência de que o jogo continua, de que muito vai ainda acontecer, e o inventário das maravilhas que a vida pode oferecer são muito agradáveis e satisfatórios. A suspeita de que nada do que já foi testado e apropriado é duradouro e garantido contra a decadência é, porém, a proverbial mosca na sopa. As perdas equivalem aos ganhos. A vida está fadada a navegar entra os dois, e nenhum marinheiro pode alardear ter encontrado um itinerário seguro e sem riscos.

O mundo cheio de possibilidades é como uma mesa de bufê com tantos pratos deliciosos que nem o mais dedicado comensal poderia esperar provar de todos. Os comensais são consumidores, e a mais custosa e irritante das tarefas que se pode pôr diante de um consumidor é a necessidade de estabelecer prioridades: a necessidade de dispensar algumas opções inexploradas e abandoná-las. A infelicidade dos consumidores deriva do excesso e não da falta de escolha. “Será que utilizei os meios à minha disposição da melhor maneira possível?” é a pergunta que mais assombra e causa insônia ao consumidor.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução de Plínio Dentzein, Rio de Janeiro: Zahar, 2001.




Certa manhã, depois de despertar de sonhos conturbados, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado de costas sobre a própria couraça, e ao erguer um pouco a cabeça enxergou seu ventre marrom, acentuadamente abaulado, com profundas saliências arqueadas, sobre o qual o cobertor, quase escorregando, estava prestes a cair. Suas muitas pernas, terrivelmente finas em comparação à largura do corpo, agitavam-se desamparadas diante de seus olhos.

(...)

“Ah! Deus Meu”, pensou, “que cansativa profissão fui escolher! Dia após dia viajando! A agitação é muito maior que dentro do escritório, e ainda por cima me obrigam a essa canseira de viajar, a ter de me preocupar com os horários dos trens, com a alimentação ruim e irregular, com relacionamentos provisórios que nunca perduram e nunca me trazem emoção. Para o inferno com isso tudo!”

KAFKA, Franz. A Metamorfose. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2002.

domingo, 24 de julho de 2011

olhos de vidro




Uma ação recente me estilhaçou o coração, a alma.

Aos pedaços, tento seguir a vida, sem a bússola de outrora. Escrevo, não sem paixão, todavia, sem entusiasmo.

Tentando reparar as brechas, as feridas, os abismos. Retratando os passos do caminho escuro.

Sei-me exatamente, entretanto, perdi-me dentro de mim mesmo. Narciso, oculto-me do espelho de vidro, de areia, do pó.

Vidrado, olho o vazio, onde antes havia teus olhos nus e brilhantes. De reticências em reticências, tento desvendar o amanhã, vislumbro, nada mais.

Como em um filme de roteiro adaptado, encaro a vida fora de mim mesmo, em um corredor infinito, decrépito, caduco de esperanças.

Estou sozinho, não há atrás de mim alguém que me siga os passos; ninguém à minha frente, que me guie os caminhos; ninguém ao meu lado, que me oriente os sentidos.

Procuro quem me compartilhe a companhia, a bebida, a carona. Acho-me a mim, e só.

E não é isso tudo? Achar-me a mim, e tão somente a mim? Seria este a trilha da felicidade, em seu máximo?

Não me pergunto, não quero achar respostas. Sei o que sei. Sei-me a mim. Só, o amanhã é pequeno demais.

Dê-me o hoje, o agora, o presente de presente. Amanhã penso no amanhã, e amanhã penso no amanhã, e amanhã...

Apresentando T. S. Campbell




Era uma noite quente, no verão de Nova Jersey. O céu estava limpo, podiam-se ver as estrelas, e a luz da lua iluminava as paredes de tijolos vermelhos da Delegacia. Era mais uma daquelas noites em que o clima contrastava com a roupa usada por T. S. Campbell, em uma de suas primeiras missões como detetive da polícia do Estado de Nova Jersey.

Recém-transferido do Escritório de Cyber-Bullying em Nevada, para a Homicídios de Nova Jersey, Campbell já era conhecido nas ruas por suas roupas inadequadas. Nunca usava terno e gravata (mesmo quando saía para fazer notificações de morte aos parentes de uma vítima), sempre vestia um chapéu Panamá, jaqueta de couro, calças grossas de brim, Converse All Star Chuck Taylor, cano alto, preto (também de couro, diga-se de passagem) e camisetas de manga longa, como se esperasse, a cada noite, ou o frio repentino do deserto, ou encontrar alguns de seus casos antigos, envolvendo centenas de adolescentes alucinados.

Fora sua inadequação indumentária, T. S. Campbell quase não era notado por entre os outros investigadores de polícia em Nova Jersey. Ainda muito novo, relativamente baixo, loiro, cabelos ondulados, misteriosamente transferido de Las Vegas, primeiro ano na Homicídios e companheiro do espetacular Andy McBulge, um irlandês ruivo, 1,88m, 13 anos na Homicídios e com um recorde marcante de prisões e casos fechados, Campbell não era um indivíduo que causasse impressão.

Todavia, pragmático, Campbell não se importava com deslumbramentos e opiniões alheias. Como diriam em Nevada, era apenas um garoto que executava as ordens, realizava seu trabalho, não fazia perguntas. E nunca, nunca olhava para trás. Não se permitia qualquer reflexão que tirasse sua atenção do trabalho. Enquanto não fechasse um caso, não pensava em outra coisa.

Entretanto, esta era uma noite diferente para T. S. Campbell. O assassinato brutal de uma jovem de 17 anos, no pátio da Escola Elementar de Ocean Gate, no Condado de Ocean, Distrito de Ocean Gate, muito perto de sua nova casa (um galpão abandonado, perto do cais, adaptado como moradia, para este solteiro que o usava não como um lar, na definição mais romântica da palavra, porém como dormitório), fazia-o lembrar incessantemente de sua terra natal, de seus casos ainda abertos, nunca resolvidos, na Divisão de Cyber-Bullying do Condado de Clark. Teria sido aquela jovem uma vítima de Bullying? O que diriam as evidências? Qual seria o desfecho dessa história? O que seria desta investigação, ao lado de McBulge, o grande paladino dos casos fechados (sejam lá quais fossem os métodos usados para isso, o irlandês não era exatamente conhecido pela limpeza de suas técnicas, mas pelo brilho de suas estatísticas)?

sexta-feira, 15 de julho de 2011




Esta nota inaugura Zygmunt Bauman como meu novo "guru" filosófico.
Por Adrian Theodor, sexta, 15 de julho de 2011 às 16:39

Tanto social quanto psiquicamente, a modernidade é irremediavelmente autocrítica: um exercício infindável e, no fim, sem perspectivas, de autocancelamento e auto-invalidação. Verdadeiramente moderna não é a presteza em retardar o contentamento, mas a impossibilidade de ficar contente. Toda realização é meramente uma pálida cópia do seu modelo. “Hoje” é meramente uma incipiente premonição de amanhã; ou, antes, seu reflexo inferior e desfigurado. O que é é cancelado de antemão por o que virá. Mas extrai o seu alcance e o seu sentido – seu único sentido – desse cancelamento.

Em outras palavras, a modernidade é a impossibilidade de permanecer fixo. Ser moderno significa estar em movimento. Não se resolve necessariamente estar em movimento – como não se resolve ser moderno. É-se colocado em movimento ao ser lançado na espécie de mundo dilacerado entre a beleza da visão e a feiúra da realidade – realidade que se enfeitou pela beleza da visão. Nesse mundo, todos os habitantes são nômades, mas nômades que perambulam a fim de se fixar. Além da curva, existe, deve existir, tem de existir uma terra hospitaleira em que se fixar, mas depois de cada curva surgem novas curvas, com novas frustrações e novas esperanças ainda não destroçadas.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da Pós-Modernidade. Tradução de Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.