Mostrando postagens com marcador Ricardo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ricardo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 30 de março de 2012

um trecho do livro verde. o nascimento de Sabryna. (proibido para menores de 18 anos!)

Caminhou por quilômetros até sentir em seus pés a areia quente da praia no verão. Nunca apreciara aquela vista do horizonte infinito, que toca o oceano lá longe, em algum lugar mítico, porque intangível. Tampouco sentira qualquer prazer em tocar aqueles fragmentos de rocha, que se entranhavam em seus dedos, com insistência de criança à procura por doces ou travessuras.

Todavia, naquela manhã de domingo, exausto de caminhar o asfalto negro da vida, sentiu-se sem agitações ao olhar a praia pela primeira vez. Não era paz o que sentia, já que esta circunstância era terrivelmente impossível para ele, mas era uma ausência de vibrações urbanas, e isso bastaria por algumas horas.

Era um exímio nadador, daqueles que somente não competia nos torneios de natação por capricho. Porém, ao chegar ao mar, não correu para atravessá-lo às braçadas, como certamente fizera no passado. Simplesmente iniciou uma caminhada pelo calor sensível da areia. Era a borda que procurava, finalmente, não o centro nervoso das convulsões oceânicas.

Sobrecarregado pelo uso abusivo de tranquilizantes prescritos por médicos desatinados, não dormia direito em anos. De ansiolítico em ansiolítico, permanecera em estado de agitação contínua. Legalmente intoxicado, procurava a ação em sua vida, como quem busca nela algum sentido inerente, inato.

Era incapaz de lidar com uma existência essencialmente aleatória. Somente pensava em como o tempo era inexorável, passando às marteladas dos segundos de seu relógio analógico de pulso. E se esquecera completamente da necessidade da pausa. Ao se lembrar da fugacidade do tempo, não refletia sobre suas vibrações. Jamais lhe ocorrera antes a existência da hora de meramente debruçar a cabeça sobre algumas pedras do caminho e repousar. Era-lhe necessário controlar todos os eventos de sua presença no universo.

E, finalmente ali no litoral, após caminhar quilômetros desde a capital (sim, ele fizera o trajeto à pé), sob a mistura ridícula de estimulantes e calmantes, sentia que era hora de capitular. Não queria descansar, era-lhe absurda a ideia de "tirar uma folga". Contudo, seu corpo não oferecia mais escolha. Em frangalhos físicos e psicológicos, não mais podia viver no limite de suas forças e da sua sorte. Já abusara demais de si mesmo e do destino.

Respirou fundo a brisa litorânea e, após tossir como um doente terminal, cuspiu sua parcela de sangue e se ajoelhou. Não por motivos religiosos, ateu que era; tampouco por vontade própria, soberbo. Simplesmente por consequência do completo esgotamento de seu corpo desfigurado pelo abuso e auto piedade. Involuntariamente, seus músculos se rendiam ao cansaço. Irritado, debatia-se contra aquela ideia de parar. Era inútil. Intenções nebulosas de sua mente perturbada travavam uma luta épica contra a fragilidade de seu corpo que já não mais se moveria. Era, literalmente, uma guerra entre a vontade e a fixidez. Ajoelhado, caiu sobre os braços magros e sentiu uma dor lancinante. Deitou-se sobre o próprio corpo, sentindo ainda mais de perto a brasa da areia bege.

Tropeçaram de seu bolso as últimas pílulas que ainda carregava consigo. Já não as sabia calmantes ou estimulantes. Misturadas à areia, foram difíceis de engolir. Sentiu uma ardência horrível na garganta. Tossiu. Cuspiu sangue em si mesmo, ali deitado, frouxo. De estômago vazio, não demorou alguns minutos para se levantar, sob efeito das duas pílulas brancas. "Quando a vontade não vence a força do seu próprio corpo, e necessário enganar os dois", pensou, enquanto corria até a água salgada.

Já não sentia mais nada. Não saberia dizer se estava gelada a água. Se fazia calor sob aquele sol de verão nos trópicos. E, anestesiado de agitação, começou a nadar. Sua vida tinha sido exatamente assim nos últimos anos. Não planejava, não mantinha objetivos ou pontos de chegada. Simplesmente decidia um caminho e seguia por ele. Deixando à sorte o papel de estabelecer metas. E como a fortuna não tem consciência, nunca atingia lugar algum. Acabava por sempre prosseguir. Como se fosse possível alcançar o infinito; ou como se ele efetivamente existisse. Nadou, nadou, nadou e... Nada aconteceu. Olhou para a praia, já muito distante, e se viu muito ansioso em ter que nadar tudo aquilo de volta, para não morrer à deriva, como um imbecil qualquer. "Sou um nadador profissional, porra! Vou morrer no mar agora, caralho? Puta clichê ridículo!", gritou, boiando no Oceano Atlântico.

Voltou à terra firme e pediu cerveja para um caiçara de pele castigada pelo sol e abdome bem cuidado. Bebeu a primeira garrafa. "Mas é óbvio que vou dar calote nesses cuzões. Que tipo de retardado aceita o pedido de cerveja de um cara claramente fodido pelas drogas, que entra na água salgada de roupa e tudo?", pensou, enquanto pedia a segunda garrafa, a terceira, quarta, quinta... Tonto de cerveja, estimulante e exaustão, tentou sair dali. Mas tinha se levantado com tanta pressa, que ficou ainda pior da tontura. Caiu sentado na cadeira, como lenha sob um machado sem corte. Respirou, tossiu, cuspiu sangue ("Caralho, porque fico cuspindo sangue? Tenho tuberculose agora, porra?") e se levantou de novo. Não planejou nenhuma estratégia, mas era bem evidente não ter dinheiro para as cervejas.

Logo sentiu a sombra de dois moleques em sua direção. Um confronto era inevitável. "Vou ensinar uma lição nesses manés. Bando de filhos da puta! Acharam mesmo que eu ia pagar essa porra? Entrei na água com roupa e tudo, retardados! Acharam que meu dinheiro estava onde? No meio do meu cu?", pensou, enquanto planejava a ação de sair no braço com os praieiros. Continuou caminhando. Por sabe-se lá quanto tempo. Olhou para trás e só viu os garotos darem de ombros, ao voltarem pro boteco. Não iriam cobrar a dívida.

"Mas que caralho... Vai ver eles pensaram que eu ia pegar a grana no carro. Pensaram que eu vim de carro pra essa merda. Decidiram que não valia a pena brigar por uns trocados de cerveja com um bêbado filho da puta. Vão se fuder pelo arrego, lá com o dono daquela porra!", resmungou, como se realmente estivesse conversando com alguém.

Continuou andando. E, ao menos dessa vez, tinha uma meta. "Preciso voltar pra São Paulo. Essa porra de praia já deu. Odeio essa merda! Por que fui andar até aqui? Vai tomar no cu! Nem fodendo que volto a pé nessa porra...", pensou, em torvelinho, confuso, como se procurasse sentido em qualquer resposta possível, enquanto levantava o polegar em busca de carona.

Passou alguns minutos com o dedo em riste, pedindo carona, sem ao menos gastar um segundo sobre ser aquela uma situação humilhante ou não. Sempre que a possibilidade de empreender tempo conjeturando sobre isso surgia, pigarreava e repetia para si mesmo: "só preciso voltar, só preciso voltar, só preciso voltar". Mas voltar para onde, afinal? Não importava, só queria voltar. Prometeu a si mesmo que não era o momento de perguntar-se porra nenhuma, só de andar de volta, até que a carona aparecesse, fosse ela qual fosse.

Descendo o morro, por entre as árvores do litoral, sobre ruas tortuosas de asfalto seco, seu corpo clamava por descanso, mais uma vez. Não tinha com ele qualquer comprimido, cigarro ou álcool. Vestido, via-se finalmente nu. Cambaleava e não conseguia entender como não passava por ali um veículo sequer. Era essa a única pergunta que se permitia: "por que diabos não passa um carro por aqui?"; enquanto seu joelho dobrava, mão esquerda para cima, polegar opositor em pé. Não mais poderia andar.

Passou um Opala preto, carregado de gente, funk do último volume, altíssima velocidade. E ele, ajoelhado, prostrado sobre sua própria humilhação. Passou direto. Assim como a Brasília, branca, somente com o motorista, que até vacilou pra parar, mas seguiu viagem. Depois um Ford Foccus prata, um Honda Fit prata, um caminhão pequeno. Ninguém parou. "Devo estar mesmo em um estado deplorável. Ninguém me oferece carona ou ajuda. Deve ser o destino finalmente me dando o troco. Afinal, eu também não pararia e ainda daria um jeito de zoar o cara na sarjeta. Passaria gritando, jogaria nele minha bituca, passaria correndo por uma poça d'água"...

Até que, sabe-se lá depois de quanto tempo, um Fiat Uno, desses novos modelos, com aquela cor indefinível, verde limão ou amarelo, horrível, desceu o morro e começou a diminuir a velocidade, até parar ao lado dele. O vidro do passageiro baixou e uma voz feminina ressoou sem mistérios: "Precisa de uma carona? Você tá acabado, hein?! Roubaram você? Apanhou? O que aconteceu?". E a voz ria bem alto, como se estivesse tirando uma com a cara do sujeito.

Ele apenas se levantou, caminhou até a porta, abriu, sentou-se no banco dianteiro do passageiro, fechou, e disse "obrigado". A moça, jovens, vinte e poucos anos, rindo ainda, perguntou com voz fina e incômoda "Onde está indo? Apesar de estar bem zoado, não parece desses mendigos, deve estar indo a algum lugar". Ele, já sem fôlego, corpo ou voz, tentou formar uma frase que fizesse qualquer sentido: "Estou em casa. Quer dizer, tenho casa. Vou pra São Paulo. Lá tem minha casa. Está indo pra lá?". Jogando a cabeça pra trás, deixando bem óbvio o comprido de seu pescoço, rindo mais uma vez, a moça replicou: "Vou pra lá sim. Eu e minha irmã viemos para cá passar o fim de semana, na casa de uns amigos. Fumamos e cheiramos tanto que ela capotou aí atrás".

Olhou para trás e percebeu outra pessoa no carro, jogada como lixo, como ele, com um susto de quem poderia ter sido morto sem ao menos se dar conta. Como ele não percebera? Como ele não notara antes também que a moça ao volante estava claramente louca de cocaína? Olhos esbugalhados, olhar vidrado, rindo muito, suando às tampas, direção irregular e sem qualquer capacidade de fazer contato visual. "Deve ter cocaína aqui em algum lugar", pensou, olhando freneticamente para todos os lados, abrindo o porta luvas, sem qualquer cerimônia. "O que você quer, loiro? Maconha? Não guardo a Maconha no carro. Guardo no biquíni, é sexy tirar o cigarro dos peitos e oferecer aos meninos. Eles ficam loucos e você tem..." Antes mesmo dela terminar a frase, ele enfiou as mãos por entre a camiseta úmida da motorista, entrou em seu biquíni, por entre seios miúdos, e pegou a paranga. "Aiiii, vai com calma, é só pedir", disse a moça, rindo sem parar e sentindo um algo entre cócegas e calafrio.

"Como vai acender agora, hein filho da puta? Enfiou a mão nos meus peitos e não vai poder acender essa merda. Muito bom!", disse a moça, em tom irritadiço, claramente já sob o efeito da sobriedade, caindo sobre ela na mesma velocidade em que se abate a loucura do pó. Pediu, ele, um isqueiro, com toda a educação que poderia oferecer para aquele momento sem qualquer sentido. "No porta luvas, seu burro! Acabou de abrir isso aí e não viu?", replicou a moça, rindo de novo, em tom tão jocoso quanto melancólico. Ele sorriu por entre o canto direito da boca e achou aquela grosseria muito encantadora. Colocou o fininho por entre os lábios curtos da moça, pegou o isqueiro e acendeu, pedindo, com aquele gesto lento e simples, desculpas por agir tal e qual um viciado selvagem. Pôde ouvir o som da seda queimando e aquilo o encheu de algum tipo bizarro de esperança. Como se, de alguma forma, a brasa daquela erva proibida pudesse gerar algum tipo de manobra do destino em seu favor.

A menina magra, de seios miúdos e lábios finos, puxava a fumaça com certa habilidade, como se já tivesse feito aquilo algumas vezes, mas não tantas assim, talvez aprendera naquele fim de semana mesmo. Ofereceu a ele o próximo trago e ele puxou. Ao soltar a fumaça, fechou o nariz com os dedos, como quem se protege de um cheiro ruim. A moça desandou a gargalhar: "Puta que pariu! Você segura a fumaça assim? Mano, onde aprendeu a fumar?". "Olha, meu amor. Faço isso desde a adolescência. Sempre fumei meu baseado assim e sempre fui zoado, então... pode parar, não vou me sentir ofendido com esse seu comentário. Fumo desde muito antes de você ter aprendido a tragar essa porra!". Segurando o riso, a moça replicou: "Ah, já ficou todo boladinho com a Maria, tá com mania de perseguição, bebê?".

Aquilo de ser chamado de bebê, puxando um fumo com uma moça completamente desconhecida, da qual nem mesmo sabia o nome ou a origem, no meio da estrada do litoral Sul para São Paulo, encheu-o de angústia. Só pensava em puxar o fumo cada vez mais rápido e em maior quantidade, chapar de uma vez, relaxar, brisar e tentar, no meio da viagem, dar àquela situação qualquer definição que fosse. "Só preciso chegar em casa, deitar em minha cama, no meu canto do mundo, e decidir o próximo passo. É exatamente desse tipo de absurdo que preciso fugir, definitivamente. Não posso mais viver assim. Não faz qualquer sentido fumar com uma garota qualquer, com uma irmã morta no banco de trás, depois de enfiar-lhe a mão nos peitos", pensou, já sentindo o corpo leve, as mãos formigando e a força da paranóia. Dormiu. Anoiteceu. Não sentiu mais nada, dentro ou fora de si.

Sentido uma batida forte em seu braço esquerdo, acordou assustado. "Onde é sua casa? Você dormiu. Estamos em São Paulo. É tarde. Demorei pra chegar por causa da Maconha. Dirigi devagar demais. Quase dormi na estrada. Tá foda. Fala. Onde você mora? Não tem ônibus a essa nora, nem metrô. Eu te deixo em casa". A moça não parava de falar. Ele mal teve tempo de pensar ou de tentar entender onde estava. Ia emendar um "não precisa", quando a menina desandou a falar: "Vai, menino. Fala! Tô cansada. Não adianta dizer que não precisa e fazer doce. Vou te levar. Olha seu estado. E ainda fedendo à Maconha. Fala logo. Não enrola, vai..." Enquanto aquela voz fina ecoava por seu cérebro, tentou decifrar sua localização e ia dando direções.

"Estou morrendo de fome, você não está?", perguntava a voz da moça, já mais grave por conta do cansaço e sono. "Quer que eu dirija? Deve estar exausta do caminho todo. E eu ainda fui um cavalheiro, dormindo impiedosamente". "Ai, eu quero. Nem tinha pensado nisso, bebê. Dirige. Por favor. Está longe? Posso dormir um pouco?" Enquanto se perguntava, incomodado, o motivo pelo qual aquela moça o chamava de bebê, trocou de lugar com ela. Pararam perto da calçada, pisca alerta ligado. Ela, sem hesitar, com desenvoltura, começou a passar as pernas por cima dele. Antes mesmo de pensar em abrir a porta e dar a volta por fora do carro, adequou-se àquela situação incomum e passou para o banco do motorista por baixo da moça.

Todo aquele retorno para casa era bizarro. Ainda mais o conforto que ele sentia ao ouvir a voz fina, trocar fumo, tocar com sua calça jeans a perna nua da menina magrela, de seios miúdos e lábios finos. Por alguns minutos, depois de ter dormido mais naquele banco molhado do que o fizera em anos, pensou em como perguntar o nome dela. Estava sem graça em não tê-lo feito antes e não sabia como introduzir o assunto. Quando finalmente elaborou uma frase em sua cabeça, julgando-a perfeita, treinando a entonação e o cacete, olhou para o lado e a encontrou dormindo, estabacada no banco do passageiro como a morta da irmã no banco de trás.

Dirigiu devagar até em casa. Estava alerta. Queria aproveitar o caminho para pensar. Não o fizera desde que fora morar sozinho e iniciara esta aventura em nome da destruição do corpo, da alma, do espírito, da humanidade, da busca do Grande Sonho. Experimentara todo o tipo de drogas, lícitas e ilícitas. Bebera todos os padrões de whiskies. Sabia de cor o sabor de cada marca de cigarro. Invadira um número considerável de vaginas, destruindo alguns de seus corações no processo (tivera encontros com um ou dois paus também, apesar de não confessar isso a ninguém). E, enfim, julgava ser o momento de empreender uma pausa.

No meio de toda essa retrospectiva, enquanto digitava alguma coisa no GPS do Fiat, sem nenhuma trilha sonora, chegou em casa. Uma rua qualquer da periferia paulistana, símbolo máximo de sua autodenominada decadência. A irmã resmungou qualquer coisa indefinida no banco de trás e virou o corpo pesado para o outro lado, sem acordar, morta. Ele olhou para a moça e teve um desejo incontrolável de colocar seus cabelos atrás da orelha e acordá-la com um beijo no rosto, mas se conteve, cutucando-a de leve no braço esquerdo. Ela demorou um pouco para acordar. Mas, quando o fez, graciosa, sorriu, gemeu, esticou os braços delgados para cima e o abraçou pelo pescoço. Quase sem emitir sons, sussurrando, com aquela voz grave de sono, agradeceu: "Obrigada por dirigir, Ricardo, não estava mesmo aguentando mais, como chego em casa agora?".

Meus ouvidos não podiam crer naquilo e meus olhos esbugalharam na hora: "V-v-vo-c-cê sabe meu nome? Eu falei dormindo ou algo do tipo?". Ela, sorrindo aquele sorriso confortável da praia, seios e Maconha, replicou: "Ai... Você não lembra mesmo de mim, né?" Cada vez mais aflito e sem saber o que fazer, de onde tirar ideias e respostas: "É... Hmmm... Não... Desculpa?" Jogando sua cabeça rapidamente para o lado esquerdo, deixando seus cabelos longos e avermelhados, meio castanhos (era difícil definir a cor do cabelo dela, percebi naquele momento), ao sabor da inércia, expondo seu longo pescoço, ela disse: "Calma, relaxa, não fica tenso. Não precisa lembrar. Hoje sei que não dá mais aulas. Te sigo no Twitter e sei que trabalha com algo jornalístico, um Gon-sei-lá-o-quê. Mas fui sua aluna há uns anos". "Meu Deus...", exclamei, baixinho, como quem é chutado no meio da cara por uma epifania, "você é a Sa... É... Sa...". Ela me interrompeu, sem graça: "Sabryna, professor, Sabryna".

"Saaaaaaaaabryna, claro, lembro sim", exclamei, tentando oferecer alguma sensação de familiaridade àquela situação absolutamente constrangedora. "Nossa! Por que não me falou antes? Teríamos conversado, colocado as novidades em dia, coisa e tal", tentei, tosco, me sentir confortável com toda aquela insanidade. "Ah, professor, pensei que tivesse me reconhecido. Foi todo direto ao ponto ao pegar a Maconha nos meus seios, igual fazia quando era sua al...". Interrompi na hora aquele papo de louco, meio que gritando por entre os dentes: "Como assim? Faz tempo que não dou aula, mas se me lembro bem nunca tivemos nada, pelo amor de...". "HAHAHAHAHA", gargalhou Sabryna, me interrompendo de volta: "Tô brincando, professor, é lógico que não rolou nada! Você precisava ver sua cara agora, assustado, parecia um pinto sem a galinha-mão do lado!!!". Sorri de volta, deixei a adrenalina passar e tentei reatar algum diálogo, agora já ansioso por entrar logo em casa e encerrar toda aquela sequência retardada de eventos: "Nossa. Uau. É... E o que tem feito, afinal, Sabryna? Trabalha com o quê, agora, moda?" (de onde eu tinha tirado que ela trabalhava com moda, afinal? Enfim...). Ela me olhou estranho, cerrando os olhos, como quem quer entender alguma coisa e deixa pra lá: "Não, professor. Deixei a escola naquele ano em que dava aula pra gente, terminei meu colégio em Santa Catarina, precisei ir pra lá, longa história, fiz um ou outro curso de inglês e acabei virando prostituta, mas..." Antes mesmo que ela terminasse a frase, arregalei os olhos, no melhor estilo "mas que porra é essa", tentei entender como alguém anunciava uma coisa daquelas com aquela naturalidade, como quem pede um guardanapo na mesa do almoço e esperei sua risada típica, pescoço de lado, cabelo jogado, pescoço à mostra. Mas a risada não veio. Ela continuou a olhar pra mim, com cara de impaciência, como quem quer continuar o assunto e seguiu: "Então, deixa eu terminar? Acabei me tornando prostituta, mas não dessas de rua, né professor! Me tornei dessas de luxo, sabe? Lá na praia mesmo, então, estava com um de meus clientes fixos. Ele me paga uma grana pra ficar comigo todo o fim de semana. Esse carro mesmo eu ganhei dele, como pagamento, é novinho, eu gosto muito dele!" Enquanto apontava para a gorda morta no banco de trás do carro, seguiu: "Minha namorada não sabe o que eu faço direito, ela é muito ciumenta, então preciso fingir que meu cliente é, na verdade, meu sócio em algum negócio de importação e exportação, que é a única desculpa que consegui arranjar pra explicar a grana alta que entra de vez em quando lá em casa. Eu sou tão boa pra ele, que ele aceita ter a companhia dela em alguns de nossos encontros, ele me entende, sabe? É meu melhor cliente".

Não consegui replicar. Só fiquei olhando o rosto gracioso daquela ex aluna, que me confessava ser prostituta, com a mesma feição que eu usaria se precisasse explicar o Jornalismo Gonzo, naturalmente, até com certa euforia, como se estivesse pregando algum tipo distorcido de evangelho. Não suportando a pausa, ela seguiu: "Então, professor, mas, assim, agora, estou pensando em fazer artes cênicas. Talvez eu faça algum curso de atuação fora do país, sei lá, quero ser atriz, o que você acha?" Aquilo me parecia um clichê tão cômico, que preferi não seguir o assunto: "Ah, Sabryna, vamos continuar essa conversa outra hora? Está tarde, estamos cansados, sua namorada ciumenta pode acordar a qualquer minuto e não sou seu sócio". Rimos juntos, ela super confortável; eu visivelmente nervoso. "Tá bom, professor", dizia, enquanto procurava no porta luvas alguma coisa, "fica com meu cartão e me liga. A gente se vê, bebe alguma coisa, coloca a conversa em dia, como você mesmo falou. Não vou cobrar nada... HAHAHAHA".

Percebi, no exato momento daquela gargalhada e virada de pescoço, que era somente eu que me sentia desconfortável com aquela situação. Sabryna era o que era, prostituta. Desde a adolescência escolhera aquele caminho, estava acostumada a isso. Era minha a estranheza. Ex professor, jornalista de rua, bêbado, drogado, selvagem, admirando-me com a insanidade daquela situação, como se ainda esperasse do mundo alguma ordem ou coerência. Mas é claro que eu ligaria para ela. Obviamente faria daquela menina objeto de meu próximo material Gonzo. Como ela teria chegado àquelas escolhas? Como se sentia a prostituta graciosa? Como era sua vida homoafetiva cercada de homens? Enfim...

"Ótimo! Mas vou te ligar mesmo. Vi que tem um email aqui. Vou te mandar meu telefone, aí você pode me ligar também. Contamos nossas histórias", exclamei, com a maior desenvoltura possível, assumindo o papel de jornalista. "Ai, que legal, vou adorar! Posso te escrever por email minha história? Tenho umas coisas muito loucas pra te contar, nem faz ideia!", disse-me, ansiosa, rindo, como uma adolescente que ganha alguma espécie muito bacana de presente de aniversário. "Claro, Sabryna, claro que pode, voou adorar", agradeci, como quem não precisa fazer qualquer esforço para ter uma boa matéria nas mãos.

Abraçamos um ao outro e ela me beijou o rosto, agarrando-o com as duas mãos. Sorri, abri a porta do motorista e dei a volta, enquanto ela passava do banco do passageiro. Olhei pela janela, apoiei meus braços, coloquei a cabeça para dentro e ela me perguntou, como uma menina de 13 anos, com o dedo na boca, olhando para o nada, extremamente sexy, mas nitidamente sem nenhuma intenção, perdida: "Como chego em casa?" Malandro, com toda a pose brega de macho alfa, que, mais tarde, descobriria ser para ela muito atraente, respondi: "Vi seu endereço salvo no GPS, marquei o caminho de volta para você, quando já estávamos chegando aqui, é só seguir, não tem erro! Se tiver dúvida, liga." Anotei meu número no braço dela, com certa dificuldade, o calor nos suava a pele. "Tá bom, Ricardo, quem vê pensa que era nosso professor de Geografia, não de inglês", sorriu, mordendo o lábio inferior, como quem via naquela frase algum tipo pervertido de flerte.

Despedimo-nos e, em meio a toda a excitação daquela série de eventos bizarros, só pensava em ligar para Fernando e contar o que tinha acontecido. Contar sobre como seria a pauta de nossa próxima matéria e contar sobre como tudo aquilo tinha me deixado, de algum modo, extremamente excitado. Porém, era muito tarde. Umas duas da manhã. Fernando acordava cedo para seu emprego babaca de terno e gravata. Porra! Mandei uma SMS por precaução. Fernando acordava muito desbaratinado quando o fazia despertado pelo celular, no meio da madrugada, algo comum entre nós, lunáticos; e isso me irritava muito. Me ligou de volta, bem rápido, por sinal...

"Ricardo? O que você quer a essa hora, seu porco?", esbravejou, voz grave de sono. "Caralho, Fernando, seu filho de uma pulta! O que você sabe sobre prostitutas de luxo?", perguntei, segurando o riso. "HAHAHAHA! QUE PORRA É ESSA?", respondeu, sacando na hora a referência de Hunter Thompson e Johnny Depp. "Prostitutas de luxo, cacete! O que você sabe sobre elas? Precisamos tomar providências urgentes! Acho que elas estão se infiltrando em nosso meio"...

Rimos juntos, conversamos mais um pouco, fumei um Lucky Strike, tomei uma ou duas doses de Jameson e planejei como seria minha ligação para Sabryna. Era dezembro. Estávamos próximos do Natal e do Ano Novo. Estava decidido em passá-los com ela. Bolava algum plano mirabolante para que dispensasse seus clientes e aquela namorada morta. Mal a conhecia, mas, de algum modo e por algum motivo, me sentia a porra do rei do universo naquele instante. E aquela era uma sensação intoxicante. Nada poderia me parar...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

de olhos fechados...




De olhos fechados para qualquer realidade, abertos apenas para o abstrato. Se os abro, vejo as chamas. Prédios caem, uma criança chora, vejo pedaços de renda francesa preta se queimando no chão.

Mas, de olhos fechados, o chão é de vidro, e vejo toda a cidade iluminada sob meus pés. Imagine se pudéssemos ir pra qualquer ponto dessa cidade?

Tentei quebrar o chão de vidro, pois daí seríamos plenas, eu e a arquitetura. Mas no meio dessa viagem ao abstrato abri meus olhos. Ao contrário do que era antes, as chamas e rendas pretas carbonizadas vieram parar dentro de mim. Meu corpo são os prédios a desmoronar. Por fora, sou só aquela criança que chora.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011






Este é apenas um trecho de todo um capítulo que consegui tirar do campo das ideias desde ontem. Espero que este tempo de pausa hoje vivido por mim seja produtivo para o "livro verde".




Olhava para todos os lados daquele cubículo empoeirado, alheio e familiar. Sob aquele teto bege, maculado pelo tempo, sentia-se pequeno, frágil. Ocultado de si mesmo, tentava visualizar o que lhe seria o futuro, agora fraturado por suas próprias masmorras, auto-impostas. Regia sua vida como um condutor sem partitura, e se perdia por entre tantas notas em fuga, Si Menor, II Ato, sem piedade ou arroubos de misericórdia. Sua cabeça doía em ressaca. Sua memória parecia conservada em carvalho e a cada gole se transformava. Destilando-se, de grão em grão, nunca era a mesma, traidora de sua vontade. Lembrava-se do que bem entendia, e não obedecia ao controle do maestro. Inexistia qualquer mágica naquela maneira de evocar o passado, tudo era bruto, seco, sem chances de repressão; reminiscências em carne viva, em brasa, dor. Tentava controlar o torvelinho no fundo de um copo, dois, três, perdia a conta. E só alcançava confusão maior, notas dissonantes de uma sinfonia inacabada.

Ricardo, saudoso de sua bastilha e, ao mesmo tempo, aliviado por aquele abandono, tão repentino quanto esperado, vislumbrava os monumentos do tempo, personagem inexorável de todas as vidas de tantos universos, criados por ele ou simplesmente aleatórios. Começava a refletir sobre as obras da ocasião e percebeu, como que em milésimos de segundo de sobriedade em meio à ressaca da ressaca, que estava procurando a culpa de sua situação em algum elemento externo. O trabalho, as rotinas, os poucos amigos, os inimigos todos, os perseguidores, os "stalkers", os desocupados de vida besta, o tempo, o Destino, o coelho de Alice, setembro. Tentava ali, com sono, pânico e amargura, culpar o distante.

E foram estes segundos efêmeros de sanidade que transformaram Ricardo, mais uma vez. Todavia, comentaria ela, ouvindo o relato deste momento único dos lábios macios dele, se não fossem as doses todas de Irlanda em seu estômago revirado, não saberia valorizar os segundos sãos. E era verdade, a máxima verdade, como de costume.

domingo, 10 de abril de 2011

Um dia me disseram que ser escritor é mesmo fingir as ficções que se quer viver, ou ampliar as sensações daquilo que se viveu, ou ainda simplesmente interpretar os sentimentos que se poderia viver se a verdade das mentiras se efetivasse no tecido do real.

Não sei definir o ofício, que nem é meu, na verdade. Sei, simplesmente sei, que a dor é maior do que se pode suportar, quando se escreve, quando se vive "pela metade". É muito mais do que a duplicidade da vida, é a sua multiplicidade, fragmentada em cacos no infinito.

Nesta noite, tive a pior impressão do que se pode sentir quando se escreve sobre o que poderia ser a vida, se ela fosse alargada segundo suas emoções mais íntimas. Eu poderia dizer que a dor literária, por ser, ao mesmo tempo, tão próxima e tão distante da realidade vivida, é ainda maior do que as dores que sentimos em nosso dia a dia, caótico e inexato. (Des)fraturar a vida, impondo-lhe sua própria ordem, tem os seus custos, elevadíssimos.

Muito mais do que dores nas costas, reais e palpáveis; assaz além das enxaquecas cotidianas; em alto grau maior do que o excesso de trabalho, senti a dor de não ser o que exatamente se poderia ser se a vida estivesse no seio de uma página literária ainda em branco. O livro verde, o meu livro verde dos sentimentos, encerra toda a minha nudez, abre minha caixa torácica em retumbantes sons, nada guturais, de libertação do caos habitual.

Escrevem-se ali, quase que automaticamente, sem esforço do agente humano, sonoras vozes de perfeição, beleza, majestade, liberdade, prazer, contentamento. Claro, não se traçam apenas linhas do positivo da vida, mar cor de rosa. Todavia o negativo é ali ordenado, surge da necessidade do escritor, no momento prefigurado, planejado, sistemático.

Poder-se-ia dizer que, para acolá de tudo o que acabo de escrever, a dor maior é quando suas personagens escapam da dimensão escrita, e tomam vida própria. Contorcem-se, vibram, debatem-se e se tornam autônomas. Simplesmente insistem em não virarem personagens títeres. Ávidas por tomarem conta de suas próprias existências, as personagens se rebelam contra seu criador, transformando o teor de toda a obra, ferindo profundamente aquele que, agora passivo, quer apenas criar, transformar, reconstruir.

Com segurança, afirmo que, desde as penumbras de 93-94 (ainda insondáveis), não sentia tamanha dor, daquelas de chorar em voz alta no meio da madrugada, que insiste em amanhecer. Dor íntima, dor única, dor incomunicável – daquelas que não se pode narrar, seja pelo proibido, seja porque a narrativa é simplesmente impossível, incompreensível em si. Dor intransferível, do choque máximo entre o que se dissimula e o que se vive; o que se anseia e o que se tem. Genuinamente dor.

Hoje, após sono profundo, de sonhos conturbados com as personagens todas, acordo em desânimo, sem alma. O que haverá de vir? Inerte, aguardo o desdobrar das páginas opacas do livro verde. Vazio de grandes expectativas, apenas vivo, sem pensar em mais nada. O passo que muda tudo não acontecerá mais num piscar de olhos.

sábado, 9 de abril de 2011

o coelho ruivo de Raquel

Quando era ainda muito jovem, Ricardo foi levado pelos tios para uma curta temporada na Irlanda. Era Primavera, pensava Ricardo, que nunca conseguia muito bem contar o tempo, as horas, as passagens. E sabia-se na Primavera só porque as flores coloriam o chão frio daquele país nortenho, estranho.

Passava grande parte de seus dias observando a natureza, Ricardo. Nunca fora um menino cheio de impulsos por atividades, tampouco era contemplativo. Todavia, fora de sua casa, longe da companhia de seus pais, Ricardo não fazia nada além de olhar os campos, as flores, os coelhos.

Intrigava-se em especial com os coelhos. Percebera, já, ainda muito novinho, que a natureza seguia uma ordem, um padrão, uma norma. As flores nasciam na Primavera, os bebês demoravam nove meses dentro das mamães, os coelhos se reproduziam como coelhos.

Via os coelhos comendo, pulando, fazendo suas necessidades e até sendo caçados por outros animais dos campos, desconhecidos para Ricardo. Transformou-se, naqueles dias irlandeses, em um grande entusiasta da vida animal. Parecia até um daqueles homens do National Geographic, dizia tia Gertha. Não falava em outra coisa, coelhos para cá, coelhos para lá. Coelhos e coelhos...

Até que, menino da cidade, certo dia começou a olhar para os coelhos com alguma ansiedade. Ainda gostava deles, que fique claro, porém não os admirava com o mesmo brilho inocente de duas semanas atrás. Reflexivo, Ricardo começou a imaginar os motivos pelos quais os coelhos simplesmente não se uniam contra aqueles bichos que os atacavam, todos os dias, um a um, um por um. Não fazia sentido continuar a vida, comendo e pulando, se amanhã, ou depois de amanhã, algum intruso peludo atacaria seu irmão, sua mãe, ou você mesmo! Por mais bobo que parecesse, e era mesmo bobo, Ricardo não largava esse pensamento. Tentou até convencer o tio William a treinar uns coelhos na arte da autodefesa, mas era tudo em vão. Tio William parecia um dos coelhos e jamais entraria nessa de ensinar os bichos a se defender.

(...)

Por toda a sua meninice Ricardo mantinha vivo esse raciocínio pueril. Coelhos, autodefesa, rotina, ausência de mudanças. Até que, depois de várias Primaveras, já de volta à sua terra natal, mais velho, responsável, não pensava mais nos coelhos. Claro, nunca esquecera de sua passagem pela Irlanda, na tenra juventude, entretanto simplesmente vivia a vida - atropelado por ela muitas vezes, como dizia sua mãe - sem grandes entusiasmos, sem grandes fixações, sem arroubos, vivia.

Casou-se com Olívia, em uma cerimônia discreta. Convidaram apenas os mais próximos, os mais queridos. Poucos amigos da adolescência, pouquíssimos amigos da faculdade, os bons amigos do trabalho, os melhores da família. Toda aquela discrição e intimidade faziam o evento lindo, aconchegante, sóbrio.

A cerimônia acabou. A recepção ia já avançada. E Ricardo, ébrio de alegria (desde que conhecera Olívia, tornara-se abstêmio), aproveitava cada segundo de todo aquele dia. Nenhuma de suas reflexões sobre o passado lhe invadia a mente. Simplesmente vivia a vida, a melhor parte dela, acreditava, sem atropelos.

A noite de núpcias foi maravilhosa, inesquecível. A lua de Mel, luxuosa, Paris, Londres, Amsterdã. Os presentes, espetaculares, finíssimos. Com exceção de um, simples e, aparentemente, ingênuo. Em um embrulho de cetim muito bem feito, dourado, adornado por fitas de veludo preto, assinado por Raquel, Ricardo encontrou um coelho ruivo.

(...)

Ao longo dos anos, jamais perguntou à Raquel o sentido daquele gesto. Era ela sempre tão ácida e, ao mesmo tempo, tão sensível. Não queria nem sofrer de suas chacotas, tampouco feri-la os sentimentos.

Todavia, recôndito e secreto, em uma noite muito fria de outono, ao lado do single malt de seu tio William, sabe-se lá quantos anos depois - Ricardo sofria dessa dificuldade em contar o tempo -, finalmente sacou a mensagem. Tudo ficara claro para Ricardo. Mas nunca, nunca Ricardo sequer mencionou para uma viva alma sobre as revelações daquela noite fria de outono, na memória do coelho ruivo de Raquel.

domingo, 3 de abril de 2011

sobre o pão e as migalhas

Ricardo: - O pão e as migalhas. Nunca mais vou contar sobre o que sei. Calabouço das ideias sou eu. Joguei as chaves fora. Dou-lhe dois tiros e só.
Laura: - Por que fala assim comigo, Ricardo? Não entendo uma palavra do que diz. Estou ficando preocupada, não me parece mais literatura, na verdade.
Ricardo: - O homem é lobo do homem, e só. Guardo todo o resto em rótulos no meu peito. Não sou mais nu, não mais. Dou-lhe um tiro, é só.
Laura: - Por favor, Ricardo. Fala comigo. Chega de metáforas. Fala claramente. O que está acontecendo? O que devo entender de tudo isso?
Ricardo: - Ordenar o caos é trabalho vão. O inverso do que se diz é o que se sente, todos os dias. Migalhas, migalhas e migalhas... Cadê o pão. A arma está oca, não te sobraram tiros.
Laura: - Ai, Ricardo... Acho que entendi. Finalmente entendi. Me dá essa arma. Eu carrego pra você. Deita, no meu colo.
Ricardo: - De todas as migalhas que ofereci ao mundo, você foi a única que conheceu todo o pão.
Laura: - Eu sei. Agora dorme. Eu amo você!

sábado, 19 de março de 2011

espadachim magiar




As espadas ziguezagueavam no ar, serpentes prontas para o bote definitivo. Em meio às palavras húngaras e aos ódios disfarçados, Ricardo apenas olhava, esperançoso em ser novamente um espadachim. Toda semana visitava aquela academia. Como quem não tivesse coragem de empunhar um sabre, Ricardo acompanhava cada movimento, sabia-os todos de cor, como quem assiste ao mesmo filme centenas de vezes.

Conhecia tudo sobre o esporte, desde os campeões olímpicos, até os lutadores amadores, nos becos perigosos de seu bairro rico. De Zhong e Pozdniakov a Jácobo e Estevão, admirava cada homem que dominasse a arte da espada. Identificava-se ainda mais com os dois últimos, lutadores ilegais, por sua eficiência e a negação constante em aceitar as regras impostas por um sistema autoritário e pedante.

Entretanto, Ricardo não conseguia levantar uma espada. Desde o dia do acidente, Ricardo insistia em olhar, prometera a si mesmo seguir por outros caminhos. Perguntava-se todos os dias, porém, os motivos que o levavam àquela fixação pelas visitas à Academia Magiar. Por que frequentar um ambiente que o levaria inevitavelmente por veredas indesejadas? Por que continuar dialogando com antigos amigos? Por que, enfim, simplesmente não conseguia virar as costas para as espadas, uniformes e gritos de combate?

Parecia-lhe um vício tudo aquilo. Semana após semana, todos os dias, com exceção dos sábados e domingos, Ricardo dialogava com as espadas, sem tocá-las, todavia. Corrigia mentalmente cada movimento equivocado de seus colegas, competia com cada um deles lutas imaginárias, épicas, sem fim. E, a cada semana, a cada dia, ao voltar para casa, indagava-se com peso na consciência sobre o sentido de tudo aquilo. Sabia que não deveria mais voltar ali, sabia que deveria encarar o presente, sua dádiva maior, sem olhar mais para trás. Por que simplesmente não se resignava, Ricardo?

Empacado, como mula ante o mata-burro, Ricardo, mais uma vez, olhava os espadachins da Academia Magiar. Era um dia de muito sol, fazia calor no assoalho liso de concreto, sob o teto de zinco. Suava aos montes, tenso e distraído.

Irritado consigo mesmo, decidiu-se colocar em movimento, em marcha. Tomou nas mãos as chaves de seu antigo armário, ainda seu, apesar da distância dos anos em que treinara ali, antes do acidente. Enferrujada, a fechadura teimou em girar. “Um homem ignorado é uma bala perdida, uma espada sem coração”, Ricardo repetia dentro do peito, para si mesmo, enquanto forçava o cadeado.

Retirou do armário a bainha de couro, ressecada pelo mar do esquecimento, quebradiça e marrom. Ao empunhar novamente sua espada, opaca pelo desuso, não sentiu nada. Pensou que seria aquele um momento vibrante e translúcido, mas tudo o que sentia era o suor de suas mãos e a frieza do cabo metálico de sua arma branca.