domingo, 10 de abril de 2011

Um dia me disseram que ser escritor é mesmo fingir as ficções que se quer viver, ou ampliar as sensações daquilo que se viveu, ou ainda simplesmente interpretar os sentimentos que se poderia viver se a verdade das mentiras se efetivasse no tecido do real.

Não sei definir o ofício, que nem é meu, na verdade. Sei, simplesmente sei, que a dor é maior do que se pode suportar, quando se escreve, quando se vive "pela metade". É muito mais do que a duplicidade da vida, é a sua multiplicidade, fragmentada em cacos no infinito.

Nesta noite, tive a pior impressão do que se pode sentir quando se escreve sobre o que poderia ser a vida, se ela fosse alargada segundo suas emoções mais íntimas. Eu poderia dizer que a dor literária, por ser, ao mesmo tempo, tão próxima e tão distante da realidade vivida, é ainda maior do que as dores que sentimos em nosso dia a dia, caótico e inexato. (Des)fraturar a vida, impondo-lhe sua própria ordem, tem os seus custos, elevadíssimos.

Muito mais do que dores nas costas, reais e palpáveis; assaz além das enxaquecas cotidianas; em alto grau maior do que o excesso de trabalho, senti a dor de não ser o que exatamente se poderia ser se a vida estivesse no seio de uma página literária ainda em branco. O livro verde, o meu livro verde dos sentimentos, encerra toda a minha nudez, abre minha caixa torácica em retumbantes sons, nada guturais, de libertação do caos habitual.

Escrevem-se ali, quase que automaticamente, sem esforço do agente humano, sonoras vozes de perfeição, beleza, majestade, liberdade, prazer, contentamento. Claro, não se traçam apenas linhas do positivo da vida, mar cor de rosa. Todavia o negativo é ali ordenado, surge da necessidade do escritor, no momento prefigurado, planejado, sistemático.

Poder-se-ia dizer que, para acolá de tudo o que acabo de escrever, a dor maior é quando suas personagens escapam da dimensão escrita, e tomam vida própria. Contorcem-se, vibram, debatem-se e se tornam autônomas. Simplesmente insistem em não virarem personagens títeres. Ávidas por tomarem conta de suas próprias existências, as personagens se rebelam contra seu criador, transformando o teor de toda a obra, ferindo profundamente aquele que, agora passivo, quer apenas criar, transformar, reconstruir.

Com segurança, afirmo que, desde as penumbras de 93-94 (ainda insondáveis), não sentia tamanha dor, daquelas de chorar em voz alta no meio da madrugada, que insiste em amanhecer. Dor íntima, dor única, dor incomunicável – daquelas que não se pode narrar, seja pelo proibido, seja porque a narrativa é simplesmente impossível, incompreensível em si. Dor intransferível, do choque máximo entre o que se dissimula e o que se vive; o que se anseia e o que se tem. Genuinamente dor.

Hoje, após sono profundo, de sonhos conturbados com as personagens todas, acordo em desânimo, sem alma. O que haverá de vir? Inerte, aguardo o desdobrar das páginas opacas do livro verde. Vazio de grandes expectativas, apenas vivo, sem pensar em mais nada. O passo que muda tudo não acontecerá mais num piscar de olhos.

sábado, 9 de abril de 2011

o coelho ruivo de Raquel

Quando era ainda muito jovem, Ricardo foi levado pelos tios para uma curta temporada na Irlanda. Era Primavera, pensava Ricardo, que nunca conseguia muito bem contar o tempo, as horas, as passagens. E sabia-se na Primavera só porque as flores coloriam o chão frio daquele país nortenho, estranho.

Passava grande parte de seus dias observando a natureza, Ricardo. Nunca fora um menino cheio de impulsos por atividades, tampouco era contemplativo. Todavia, fora de sua casa, longe da companhia de seus pais, Ricardo não fazia nada além de olhar os campos, as flores, os coelhos.

Intrigava-se em especial com os coelhos. Percebera, já, ainda muito novinho, que a natureza seguia uma ordem, um padrão, uma norma. As flores nasciam na Primavera, os bebês demoravam nove meses dentro das mamães, os coelhos se reproduziam como coelhos.

Via os coelhos comendo, pulando, fazendo suas necessidades e até sendo caçados por outros animais dos campos, desconhecidos para Ricardo. Transformou-se, naqueles dias irlandeses, em um grande entusiasta da vida animal. Parecia até um daqueles homens do National Geographic, dizia tia Gertha. Não falava em outra coisa, coelhos para cá, coelhos para lá. Coelhos e coelhos...

Até que, menino da cidade, certo dia começou a olhar para os coelhos com alguma ansiedade. Ainda gostava deles, que fique claro, porém não os admirava com o mesmo brilho inocente de duas semanas atrás. Reflexivo, Ricardo começou a imaginar os motivos pelos quais os coelhos simplesmente não se uniam contra aqueles bichos que os atacavam, todos os dias, um a um, um por um. Não fazia sentido continuar a vida, comendo e pulando, se amanhã, ou depois de amanhã, algum intruso peludo atacaria seu irmão, sua mãe, ou você mesmo! Por mais bobo que parecesse, e era mesmo bobo, Ricardo não largava esse pensamento. Tentou até convencer o tio William a treinar uns coelhos na arte da autodefesa, mas era tudo em vão. Tio William parecia um dos coelhos e jamais entraria nessa de ensinar os bichos a se defender.

(...)

Por toda a sua meninice Ricardo mantinha vivo esse raciocínio pueril. Coelhos, autodefesa, rotina, ausência de mudanças. Até que, depois de várias Primaveras, já de volta à sua terra natal, mais velho, responsável, não pensava mais nos coelhos. Claro, nunca esquecera de sua passagem pela Irlanda, na tenra juventude, entretanto simplesmente vivia a vida - atropelado por ela muitas vezes, como dizia sua mãe - sem grandes entusiasmos, sem grandes fixações, sem arroubos, vivia.

Casou-se com Olívia, em uma cerimônia discreta. Convidaram apenas os mais próximos, os mais queridos. Poucos amigos da adolescência, pouquíssimos amigos da faculdade, os bons amigos do trabalho, os melhores da família. Toda aquela discrição e intimidade faziam o evento lindo, aconchegante, sóbrio.

A cerimônia acabou. A recepção ia já avançada. E Ricardo, ébrio de alegria (desde que conhecera Olívia, tornara-se abstêmio), aproveitava cada segundo de todo aquele dia. Nenhuma de suas reflexões sobre o passado lhe invadia a mente. Simplesmente vivia a vida, a melhor parte dela, acreditava, sem atropelos.

A noite de núpcias foi maravilhosa, inesquecível. A lua de Mel, luxuosa, Paris, Londres, Amsterdã. Os presentes, espetaculares, finíssimos. Com exceção de um, simples e, aparentemente, ingênuo. Em um embrulho de cetim muito bem feito, dourado, adornado por fitas de veludo preto, assinado por Raquel, Ricardo encontrou um coelho ruivo.

(...)

Ao longo dos anos, jamais perguntou à Raquel o sentido daquele gesto. Era ela sempre tão ácida e, ao mesmo tempo, tão sensível. Não queria nem sofrer de suas chacotas, tampouco feri-la os sentimentos.

Todavia, recôndito e secreto, em uma noite muito fria de outono, ao lado do single malt de seu tio William, sabe-se lá quantos anos depois - Ricardo sofria dessa dificuldade em contar o tempo -, finalmente sacou a mensagem. Tudo ficara claro para Ricardo. Mas nunca, nunca Ricardo sequer mencionou para uma viva alma sobre as revelações daquela noite fria de outono, na memória do coelho ruivo de Raquel.

domingo, 3 de abril de 2011

sobre o pão e as migalhas

Ricardo: - O pão e as migalhas. Nunca mais vou contar sobre o que sei. Calabouço das ideias sou eu. Joguei as chaves fora. Dou-lhe dois tiros e só.
Laura: - Por que fala assim comigo, Ricardo? Não entendo uma palavra do que diz. Estou ficando preocupada, não me parece mais literatura, na verdade.
Ricardo: - O homem é lobo do homem, e só. Guardo todo o resto em rótulos no meu peito. Não sou mais nu, não mais. Dou-lhe um tiro, é só.
Laura: - Por favor, Ricardo. Fala comigo. Chega de metáforas. Fala claramente. O que está acontecendo? O que devo entender de tudo isso?
Ricardo: - Ordenar o caos é trabalho vão. O inverso do que se diz é o que se sente, todos os dias. Migalhas, migalhas e migalhas... Cadê o pão. A arma está oca, não te sobraram tiros.
Laura: - Ai, Ricardo... Acho que entendi. Finalmente entendi. Me dá essa arma. Eu carrego pra você. Deita, no meu colo.
Ricardo: - De todas as migalhas que ofereci ao mundo, você foi a única que conheceu todo o pão.
Laura: - Eu sei. Agora dorme. Eu amo você!

sábado, 2 de abril de 2011

Os bocados são sempre bons, desta fruta a que chamam vida. Sempre bons de comer, lambuzar e jogar fora, no meio do asfalto negro molhado pela chuva. Há quem pense me conhecer, porque me lê nas entrelinhas do que se faz público, blog, twitter, facebook. Há quem pense que é isso a vida inteira, bocados que se oferece ao morador de rua. Há quem pense já saber de tudo, de antemão, sem sequer contar os inúmeros vãos do que não se diz, não se proclama, só se sente. Ai, a dor que se camufla, a alegria que se finge, o sucesso que se pretende. Ai, o louvor que se clama, a chama que se arde, o mal que se inflige. Ai, a companhia que se namora, a solidão que se tateia, a arte de não ser. Palavras, palavras, palavras! Somente palavras, nada mais. Ficção de estar vivo, sem ser. Linhas que se escrevem automaticamente, com o pavor de não ser lido e nunca mais saber de você. Nem me venha mais, porque não estou aqui. Nem me venha mais, porque não sou. Nem me venha mais, porque te sugo o coração, só para ter de volta o meu.

sábado, 19 de março de 2011

espadachim magiar




As espadas ziguezagueavam no ar, serpentes prontas para o bote definitivo. Em meio às palavras húngaras e aos ódios disfarçados, Ricardo apenas olhava, esperançoso em ser novamente um espadachim. Toda semana visitava aquela academia. Como quem não tivesse coragem de empunhar um sabre, Ricardo acompanhava cada movimento, sabia-os todos de cor, como quem assiste ao mesmo filme centenas de vezes.

Conhecia tudo sobre o esporte, desde os campeões olímpicos, até os lutadores amadores, nos becos perigosos de seu bairro rico. De Zhong e Pozdniakov a Jácobo e Estevão, admirava cada homem que dominasse a arte da espada. Identificava-se ainda mais com os dois últimos, lutadores ilegais, por sua eficiência e a negação constante em aceitar as regras impostas por um sistema autoritário e pedante.

Entretanto, Ricardo não conseguia levantar uma espada. Desde o dia do acidente, Ricardo insistia em olhar, prometera a si mesmo seguir por outros caminhos. Perguntava-se todos os dias, porém, os motivos que o levavam àquela fixação pelas visitas à Academia Magiar. Por que frequentar um ambiente que o levaria inevitavelmente por veredas indesejadas? Por que continuar dialogando com antigos amigos? Por que, enfim, simplesmente não conseguia virar as costas para as espadas, uniformes e gritos de combate?

Parecia-lhe um vício tudo aquilo. Semana após semana, todos os dias, com exceção dos sábados e domingos, Ricardo dialogava com as espadas, sem tocá-las, todavia. Corrigia mentalmente cada movimento equivocado de seus colegas, competia com cada um deles lutas imaginárias, épicas, sem fim. E, a cada semana, a cada dia, ao voltar para casa, indagava-se com peso na consciência sobre o sentido de tudo aquilo. Sabia que não deveria mais voltar ali, sabia que deveria encarar o presente, sua dádiva maior, sem olhar mais para trás. Por que simplesmente não se resignava, Ricardo?

Empacado, como mula ante o mata-burro, Ricardo, mais uma vez, olhava os espadachins da Academia Magiar. Era um dia de muito sol, fazia calor no assoalho liso de concreto, sob o teto de zinco. Suava aos montes, tenso e distraído.

Irritado consigo mesmo, decidiu-se colocar em movimento, em marcha. Tomou nas mãos as chaves de seu antigo armário, ainda seu, apesar da distância dos anos em que treinara ali, antes do acidente. Enferrujada, a fechadura teimou em girar. “Um homem ignorado é uma bala perdida, uma espada sem coração”, Ricardo repetia dentro do peito, para si mesmo, enquanto forçava o cadeado.

Retirou do armário a bainha de couro, ressecada pelo mar do esquecimento, quebradiça e marrom. Ao empunhar novamente sua espada, opaca pelo desuso, não sentiu nada. Pensou que seria aquele um momento vibrante e translúcido, mas tudo o que sentia era o suor de suas mãos e a frieza do cabo metálico de sua arma branca.

terça-feira, 15 de março de 2011

Depois de um dia cheio, com algumas alegrias pedagógicas, e outras tantas indiferenças, vou dormir. Acabo de montar uma avaliação de Geografia, e isso sempre soa tão pragmático, e só.

Gosto mesmo de encarnar personagens agradáveis e, por assim dizer, sedutores. Mas o mar da vida real é escuro, nem sempre verde-mar.

Adrian, Anna Bernnabar, Castle e Beckett... Quem realmente sou? Há ali, nas memórias e atos de ficção; na escrita automática e nas obras de literatura; algo do cerne de mim? O que efetivamente vivo? O que, ou quem, imito? Com quem dialogo em meus monólogos obscuros e tensos? O que mostro do que guardo aqui dentro, dos rótulos do meu peito?

Estou nu? Ou me cubro das centenas de máscaras teatrais, contraditórias redundâncias da aparência? Mostro-me ou sou? Quem?

sábado, 5 de março de 2011

à deriva...






(...) se os teus olhos fossem o mar, navegaria por eles a vida toda. Investigaria os recônditos de tua alma, secreta, pura, afável e minha.

Cruzaria cada camada do oceano infinito destas águas cristalinas e calmas. Remaria por cada baía e enseada, em busca do porto que me faria feliz o resto dos meus dias.

A nado, sim, a nado, sem medo, circundaria a auréola do verde mar de teus olhos. Passaria horas infindáveis pelos rochedos castanhos, no interior do alto mar.

Até que, carregado pela brisa leve de um piscar de olhos, afundaria no torvelinho do buraco negro do teu olhar. E ali, submerso e pacato, curado de todos os males que me agitam o ser, teria olhos somente para ti.

E só poderias enxergar a mim, a mim, a mim... À deriva... Onde o tempo não passaria mais.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

um dia após o outro...




É muito familiar o conceito de que escritores vivem diversas vidas diferentes, escrevendo peripécias e heroísmos, amarguras e tragédias; justamente por não viver vida alguma, soletrando solitário e duro, escuro e vil.

Ao viver vidas diferentes, os escritores são reconhecidos por sua extrema sensibilidade, por desfrutarem da percepção incômoda de absorverem as dores da humanidade inteira. Assim, deste modo, para que um escritor escreva, para que seja assim denominado, deve sentir, mais do que os outros, o seu redor: a brisa da manhã, a morte do suicida, o vôo do acrobata, o salto dos golfinhos em Bimini.

Fraturado, hoje não sou mais escritor. Foi longo o percurso que me trouxe até aqui, porém deixo de lado a pena, por tempo indeterminado. Não mais escrevo, pois não mais sinto. Como uma muralha hispânica que, de tanto emparedar a carne e os espíritos de touros e soldados, bezerros e escravos, deixa de absorver, e tão somente vive, impávida, por entre os escombros do mundo.

Não me importa mais a dor da humanidade, não creio nela. Não me interessam mais as camadas da dor, não as descasco. Não me preocupam mais a identidade e a formação do self, não reflito. Não me aparecem mais novas personagens, assassinei-as todas, genocida do espírito, que sou e não sou mais. Não me crescem mais novas ideias, seco e material. A filosofia foi deitar, dormiu. São, tudo e todos, sólidos em pó, esmigalhados por entre meus dedos ressurretos.

Este é o fim do Diário Halotano, o fim de Anna Bernnabar, o fim do novo começo, que não virá.

Adeus!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sobre a Política (Ou Sobre a Disputa)...


Foto: Carta Capital.


Chegou ao fim mais uma campanha presidencial no Brasil. E, como parecemos já acostumados, apesar da juventude de nossa democracia, mais uma vez o resultado é marcante pela novidade. Tivemos, no dia 31 de outubro de 2010, a primeira mulher presidente do Brasil; assim como, em 2002, o primeiro presidente operário de nossa história oligárquica. Muito se vibrou ontem com a vitória feminina de Dilma, muito além da supremacia de seu partido, em âmbito nacional. Muito se cantou, muitos, eu incluso, se emocionaram.

Agora, que caminhos levaram não apenas Dilma à Presidência da República, porém sim a este conjunto misto de emoções? Por que, comparando ao pleito de 2002, sua eleição tornou possível manifestações de alívio e lágrimas de seus seguidores e "votantes críticos"? Certamente foi esta a campanha eleitoral de disputa mais aguerrida desde o fim da ditadura militar. Opuseram-se forças de um conflito que se coloca no Brasil (ou assim se quer colocar) desde os tempos coloniais. A Direita das elites e a Esquerda dos que sobram.

Sou jovem também, assim como nossa democracia (ainda mais jovem do que eu), e não tinha visto ainda tamanho jogo de forças em uma campanha eleitoral. E digo isso depois de ter participado ativamente da campanha Lula em 2002. Ali, distribuí panfletos, adesivos, fiz corpo a corpo e comprei briga em todos os campos em que atuava, da Universidade (Pública e para Todos) à casa de meus pais. Mesmo ali, em meio ao preconceito de classe e aos deboches de nove dedos, não havia sentido a força desta direita ranheta e rancorosa. A força de suas alianças nefastas com a mídia nativa (nos dizeres de Mino Carta); a força de seus preconceitos de classe, de região, de religião e de gênero; a força de sua vitória a qualquer custo.

Desde os estudos realizados por mim sobre a imprensa na ditadura militar (amordaçada de um lado, cooptada de outro), não encontrava tamanho uníssono em suas versões sobre o pleito. Desde a mídia impressa, até a televisiva e radiofônica, todos pareciam, em níveis de exposição diferentes, apoiar apenas o tal candidato da chamada oposição. Nunca senti tão intensamente a hipocrisia de uma mídia que, autoproclamada imparcial, defendia a qualquer custo sua posição eleitoral e eleitoreira. Neste sentido, o fade out da globo no candidato José Serra, após o término do debate do 2º Turno, é apenas o fechamento patético do que foi, para mim, a mais nova derrota midiática brasileira. Os esforços foram Hercúleos, a derrota, fragorosa.

Para além das fronteiras da prensa, do rádio e da TV, o "corpo a corpo" dessas eleições foi nauseante. Escancarou-se, mais uma vez, o preconceito regional como algo a ser debatido exaustivamente em um país que se quer democrático. Como educador, percebi com assombro outros ditos educadores proferirem frases do tipo: "Claro que no Nordeste ela ganha, e lá nordestino sabe escolher, é só ver as vitórias do Lula"; ou: "É claro que existem cidadãos menores e maiores. Gente esclarecida devia pesar mais na hora de votar"; ou ainda: "É... A quantidade de votos da Dilma entre os de nível superior aumentou. Também, com esse monte de gente vindo do Nordeste pra cá e se formando em qualquer universidadezinha particular...". Assim, a vitória da Dilma foi mais do que o resultado da exposição de ideias para o futuro do país, foi um desabafo dos cidadãos menores, contra o domínio de uma elite preconceituosa por definição.

Se partirmos para a análise dos preconceitos de gênero, a lista de insultos se tornam infinitas. O machismo basilar da cultura brasileira (em extinção, desejo) se manifestou das mais variadas formas, escancaradas e veladas, bem ao sabor nacional. Desde os famosos chamamentos homossexuais, até a última vergonha serrista, ao convocar a beleza feminina para convencer seus companheiros de cama a votarem no PSDB (o partido arauto da família e dos bons costumes). Muitas vezes me perguntei há quanto tempo a democracia brasileira permitia o voto feminino e sua respectiva participação política, pois me sentia envolto em uma atmosfera oitocentista. E um oitocentismo tão anacrônico, que me parecia até mais limitado em suas possibilidades políticas. Até o século XIX parecia permitir mais conquistas do que o nosso XXI.

Enfim, nunca se viu, aos quatro cantos do Brasil, tamanho ódio envolvido em uma campanha eleitoral. Da bolinha de papel aos balões d'água, a corrida presidencial substituiu (no 2º turno mais do que no primeiro) a discussão de projetos pelos ataques pessoais. E, mesmo assim, até neste sentido foi uma disputa desigual. Alguém aí pode pontuar com destreza os ataques feitos diretamente a José Serra como indivíduo? Algo se disse sobra sua hombridade? Devassou-se sua vida política na época da ditadura? Questionou-se sua vida de homem casado, mesmo após os infindáveis flertes com jornalistas femininas? Não Lembro... Entretanto, o que se diz sobre a outra candidata? Desde sua visita ao neto recém nascido no Sul, até sua luta contra uma ditadura suja e inclemente, Dilma não foi poupada. Chamada de Lula de saias, sapatão, terrorista, ditadora, Stalin e outros tantos adjetivos de alto nível (típico de "cidadãos esclarecidos", não?), foi perseguida em todos os momentos não por seu projeto de futuro para o país, sim por ser a mulher que representava interesses maiores do que o das elites (elite esta que, ao longo dos governos Lula também enriqueceu, vale lembrar; tornando a sua oposição ainda mais irracional e odiosa).

É neste sentido que a "esperança venceu o ódio", como havia vencido o medo em 2002. Venceu o ódio de classe. Venceu o preconceito de gênero. Venceu a cidadania maior. Venceu a mídia nativa e conservadora. Venceu o próprio conservadorismo.

Assim, que todos esses setores sociais, vencidos na corrida presidencial de 2010, possam repensar não suas estratégias eleitorais (esse marketing político fora de moda), todavia justamente sua visão do que é o Brasil, e de quem efetivamente decide as campanhas eleitorais. Inexistem cidadãos menores, exatamente porque o Brasil é grande demais para que uns "poucos" continuem a governar a opinião de tantos "muitos".

Adrian Theodor, para o Diário Halotano.

domingo, 17 de outubro de 2010

ah, não me enche o saco, tô contando uma história...



(...)
uma vez eu vi um jacaré. era gigantesco, o maior que eu já vi, muito mau, com cara de bravo. ele estava comendo um outro bicho, acho que era um cavalo, mas eu não lembro. o bicho foi tomar água no rio, e o jacaré estava escondido, ninguém conseguia ver o jacaré na água, nem o cavalo. aí, foi muito rápido, aí o jacaré mordeu a cara do cavalo. e um monte de jacaré, tudo ao mesmo tempo, nossa era rápido demais, começou a nadar, apareceram do nada, você precisava ter visto, eles nadaram e foram ajudar o outro jacaré a pegar o cavalo. e os jacarés começaram a mastigar o cavalo. o rio ficou vermelho de sangue e os jacarés comeram o cavalo. não sobrou nada, comeram tudo, muito rápido, nem deu pra ver direito.

(...)
um dia eu sonhei com um avião. era bem grande, daqueles que voavam em cima do oceano. tinha um monte de gente dentro do avião, que estava voando muito baixo, em cima da cidade. acho que era são paulo mesmo, eu conhecia aquele prédio de algum lugar, mas eu não lembro direito. aí o avião estava voando, em cima dos prédios, muito baixo. e de repente ele começou a descer. dava pra perceber, mas eu não sei como, era um sonho, sabe? daqueles que você sabe o que vai acontecer mas não sabe como você sabe. então, dava pra perceber que ela ia cair naquele campo. e começou a cair e bateu no campo. e bateu de novo e de novo. sabe? igual uma bola de futebol, ficou batendo no chão e rolando e explodindo e um monte de gente saiu correndo, de medo, gritando olha o avião, corre, fogoooo. aí eu acordei todo suado.

(...)
tinha um portão azul, bem grande, que abria um quarto escuro que nunca acendia a luz. e vinha um tigre, daqueles brancos, e o homem do tigre pegava a espada e abria o portão azul. e era muito escuro, aí ele tinha que voltar e pegar uma luz. vinha um lobo, daqueles pretos, e a mulher do lobo era amiga do homem do tigre e ela tinha a luz. e eles tinham que passar pela floresta e conseguir levar a luz pra acender o quarto do portão azul, que ficava na cidade, era longe demais. e eles ficavam andando e o tigre e o lobo vinham atrás, protegendo eles. e a mulher caiu em um buraco, bem fundo. e o homem tinha que achar uma corda, para ajudar a mulher e não cair no buraco fundo. e ele voltava tudo de novo, e fazia uma corda de cipó e ajuda a mulher, que agradecia e dava um abraço. eles continuavam e o homem era atacado por uns inimigos da floresta, e eles lutavam e o tigre e o lobo se machucavam muito. e eles tinham que voltar tudo de novo pra encontrar um homem que cuidava dos animais e curava os machucados. só sei que sempre que eles estavam bem perto do portão azul acontecia alguma coisa e eles tinham que voltar tudo de novo, muitas vezes. aí... eu não sei o final da história.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Prostituindo a Pena!

hoje me olharam de viés e me chamaram de biscate.

então eu tentei revidar, olhar no olho e gritar que me olhasse de volta. que seus olhos tocassem meus olhos e tivessem coragem de repetir tudo aquilo. eu dizia: "bate na minha cara e me chama de putinha! ao menos olhe na minha cara, filho de uma puta!"

só o que me vinha de volta era um rosto carrancudo e inerte: "prostitua sua pena, maldito! dobre seu corpo até que não sobrem mais calças ou dignidade. você não é nada, não é ninguém. 20%. É tudo o que eu te dou!"

sorri. lúcido como nunca. algum dia tinha sido diferente? em algum momento tratou-me com o respeito que eu sempre mereci? algum dia havia recebido eu algum reconhecimento pelo árduo trabalho de dias e dias, noites e noites, madrugadas inteiras, incansáveis, insones, desvirtuadas e vãs?

nunca! só frigidez e desalento. a solidão daquele quarto escuro de estações repetidas. a mesma sineta de horários contínuos sem intervalo. sempre nu, desnudo e pelado. sempre transparente, oposto ao velado de seu rosto carrancudo e inerte.

"ajoelhe-se, seu pedaço de bosta! lamba minhas botas com sua saliva, sua risca de giz, sua esferográfica azul barata e grotesca. que se fodam suas belas ideias sobre o mundo e nossas crianças. não passa de uma poliana, ingênua, pobre, tola e submissa".

sempre sem olhar no meu olho, chutou-me o meio da boca. mordi minha língua e não consegui mais falar coisa alguma. resignei-me, recolhi-me em meus cacos, calei-me e apenas senti a dor, as dores, muitas. chorei.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sobre a Rotina...



Uma panela de pressão canta na janela ao lado.
O casal espera seu feijão dominical como quem quer amar para sempre.
Era três da madrugada e a tevê continuava a soar, diário de imagens e sons.
Quatro pedaços de pizza se debruçavam sobre o papelão reciclado, oposto à novidade dos recém casados.
Cinco meses os separavam daquela vida de solteiro, já tão estranha quanto distante.
Há seis dias esperavam para saber do câncer do marido, seria câncer?
Bem que no sétimo dia poderia o hospital ligar informando um alarme falso!
Passariam os próximos oito meses comemorando a notícia, que certeza.
O sono os arrebatou e às nove da manhã o alarme ruge.
A esposa entregaria hoje seu décimo projeto arquitetônico na nova empresa.
Eleven Forever era a multinacional em que trabalhava, no gigantesco edifício marginal.
Ao meio-dia o marido resolve se levantar, vantagens de se trabalhar em casa.
Do alto do 13º andar de seu apartamento, contemplava o tráfego preguiçoso da hora do almoço.
Contou quatorze carros vermelhos e preparou ovos com orégano e azeite.
Somente às quinze horas a esposa conseguiu fechar o contrato tão aguardado, tirou o dia de folga.
Comprou um lanche de R$16,00 e passeou pelo shopping center.
Dezessete lances de escada depois, encontrou o presente ideal para sua celebração, a coleção mais recente das series favoritas do marido.
Às dezoito horas ela chega em casa e o beija!
Ele, exausto, pinga dezenove gotas de seu remédio para dor nas costas, o motivo pelo qual não conseguia mais trabalhar fora de casa.
Onde estaríamos daqui a vinte anos? - perguntam-se, apaixonados.
O que teria o século XXI reservado para nós dois?
Vinte e dois minutos depois de se abraçarem no sofá, o marido foi chamado para seu compromisso noturno com os movimentos intestinais, sempre no mesmo horário.
A esposa checou suas vinte e três menções no twitter, sentia-se importante.
À meia-noite, sorrindo o mesmo sorriso, deitaram-se, ao som da chuva, sobre a rotina da vida inteira.

sábado, 11 de setembro de 2010

Sobre a Educação

Faz já algum tempo que não publico um texto no blog. Casei-me, fui tomado por atividades muito mais gratificantes do que me sentar na frente de um monitor reflexivo. Todavia, neste intervalo, fui matriculado em um curso a distância de Pós-Graduação. O curso trata sobre o uso de diversos tipos de Mídia na Educação. Fui levado a uma reflexão teórica sobre a educação em nosso país. O pensamento ainda está em construção, mas compartilho um pouco dele com vocês.

O texto está em meu blog profissional, no endereço a seguir: http://aulaimpressa.wordpress.com/2010/09/11/sobre-a-educacao/.

Enorme abraço!
Adrian.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sobre a Morte não se Filosofa






desde criança eu admirei os "bonés" de meu avô. ofereciam-lhe um ar europeu, belo, elegante. usava-os com frequência, mesmo já surrados pelo tempo, gastos pela experiência. eram sua identidade visual. todos que o viam, que o esperavam, que o conheciam já sabiam de sua careca coberta. lembro-me sempre de dois deles, um para o dia-a-dia, outro para ir à igreja, seu local preferido, depois de sua casa, sua velha casa, na freguesia do ó, em são paulo.

hoje, ao ver seus bonés, no sofá da sala de minha mãe, onde meu avô passou seus anos finais de vida, enchi meu coração de saudade, esse sentimento único e inexplicável, uma mistura de alegria e tristeza, de plenitude e de vazio. admirei-os por um tempo, recobrei a memória de eventos já empoeirados nas prateleiras das vivências pueris. depois, voltando à infância, como criança mesmo, coloquei um deles sobre a cabeça. surpreendi-me com o tamanho reduzido da boina, sempre lembrada por mim como um símbolo da grandeza discreta de meu avô.

enfim, tomei-as para mim, um desejo velho, da juventude ainda em curso. e, enquanto isso, sentei-me para assistir ao final da abertura da copa do mundo fifa 2010. mais uma vez, ainda tomado pelo contato com as boinas, lembrei-me de meu avô. de como assistia-mos, todos, os jogos do brasil na tevê. era efetivamente um evento diverso, único, como cada copa o é, em si mesma. nunca mais esquecerei a final de 2002 contra a alemanha. os gritos, os gols de ronaldo, a emoção de ver o cafu levantando a taça. coberto pela emoção, sei, hoje, neste exato momento, que a copa de 2010 será, claro, única, todavia a primeira sem meu avô. assim, terá um sabor nostálgico, até um tanto melancólico. porém, ainda assim é uma copa do mundo. confesso aguardar com ansiedade.

e é justamente esse o grande desafio quando se encara a morte tão de perto. é uma ruptura, enorme, às vezes insuportável demais em uma rotina tão ausente de significados como é a nossa, nesta tal modernidade. entretanto, seguir a vida é necessário, até desejável, não queremos morrer para nós mesmos. mas como seguir adiante quando se perde alguém que significava tanto? como retomar as rédeas do trabalho, quando a morte bate à porta, mesmo já aguardada há tempos?

ao fazer tais perguntas a mim mesmo (e refazê-las todas, inúmeras vezes), percebi que sobre a morte não existe filosofia. sobre ela não há reflexão teórica coerente. ela simplesmente não faz sentido algum, é o absurdo em si mesma. ela não é. indefinível e inexorável, deixa-nos com a mais simples das realidades: seguir a vida. a morte vai matar você. aproveite cada sanduíche. aprecie cada lance dos jogos da copa do mundo. a vida é curta demais, sabe...

domingo, 23 de maio de 2010

Robin Hood e a "Micro-História"




Raramente vou ao cinema. Evito o passeio pelos centros de compra de São Paulo. Não por serem eles símbolos do capitalismo ou da burguesia (se este fosse o caso, não poderia nem caminhar pelo corredor do meu apartamento), mas sinto certa náusea ao circular por entre tanta gente uniformizada, fora da escola. A última vez em que havia prestigiado um filme na telona, o cinema 3D ainda era novidade. E sempre abro exceções assim, com um épico, um clássico, pois o circuito alternativo é muito esnobe para mim.

Em meio aos desfiles de moda, às filas intermináveis e à todo esse introito indesejável, entrei na sala de cinema. Vamos ao filme.

[Os parágrafos a seguir podem conter "cenas do próximo capítulo". Quem está dominado pelo paradigma dos filmes de suspense, não continue a leitura, vou contar o final].

Após assistir ao Making Of do longa metragem, fui ao cinema com a nítida impressão de que Ridley Scott, assim como fizera em Gladiator, daria voz à democracia (ou seria Lucilla a encarnação da liberdade de imprensa? Sempre confundo as metáforas femininas), filmando uma versão medieval da Independência dos Estados Unidos, com todas aquelas falas contrárias ao absolutismo e os ajuntamentos humanos contra a cobrança excessiva de impostos. Todavia, Ridley Scott não é um diretor de grandes temas, mas de grandes personagens, o que fica claro em todos os seus filmes, principalmente em Hannibal.

Deste modo, ao invés de encarnar tão-somente o combate à monarquia absoluta, Russel Crowe, Robin Longstride, herói mítico por excelência, "personagem-tema" é, ao mesmo tempo, inglês, amante, arqueiro, soldado e fora da lei. Encerra em si mesmo, como já o fizera no Império Romano, todo o debate do homem-humanidade, um clichê já bem surrado desde Robson Crusoé. Seria ele um indivíduo ou o cerne de toda a sociedade inglesa de todos os tempos? Não é esta a pergunta a que todos os heróis deveriam responder?

E para que a esfericidade da personagem fosse alcançada, misturando História e ficção (sim, existe diferença entre uma e outra), Ridley Scott embarca no "vício das origens", tão caro aos historiadores e, atualmente, uma verdadeira mania dos cineastas. Quando a própria realidade não faz sentido, é função do cinema buscar sentido aos heróis. Será? Quando a própria realidade parece incognoscível, o cinema quer explicar "como tudo começou". E leva tal missão ao extremo, com auto-referências, como Wolverine, Homem Aranha, Hulk, Batman, Smalville e até a Trilogia Bourne (toda a sequência não passa de uma explicação de si mesma), sem contar a série Lost (extremo da citação própria).

É por este caminho que trilha Robin Hood, ao deixar de lado as vilanias do salteador de Nottingham, para explicar sua origem histórica, seu contexto, o nascimento da lenda. Nosso presente é resultado da morte dos heroísmos. Inexistem grandes homens ou mulheres, substituídos todos por instituições, como "A Política", "O Jornalismo", "A Democracia", "O Voto", "A CIA", ad infinitum. Nesse contexto, não basta simplesmente apresentar cenas de ação onde um homem luta contra exércitos inteiros no seio da floresta, é necessário explicar seu cunho político, seus motivos nobres, seu cenário histórico, seu lugar no mundo. O velho romantismo do cinema não cabe mais nas telas. A crítica de Roger Ebert, do The Chicago Sun-Times, "Pouco a pouco, de título em título, a inocência e a alegria vão sendo drenadas do cinema", é ao meu ver, mais do que intimamente relacionada ao cinema, é um sintoma de nosso próprio mundo, cada vez mais castigado com uma realidade onde a inocência não tem mais lugar.

Antes de fora da lei, Longstride é um inglês, soldado do rei, filho. Tem densidade, este herói, age e reflete sobre si mesmo. Sabe a hora de lutar, a hora de partir, a hora de assumir sua identidade, a hora de ser um falso cavaleiro. Enfim, conhece o seu passado, mistura-o com a História da Inglaterra. Em um primor cinematográfico, Ridley Scott sempre contrapõe muito bem a micro e a macro História. Robin não luta pela Inglaterra, até que tem a nítida visão de que salvar a Inglaterra significa salvar a si mesmo, honrar seu pai, dar vida à frase aprendida na infância: "Rise and rise again until lambs become lions". Aliás, Rodley Scott aprecia bastante roteiros com frases de efeito como esta. Em Gadiator elas apareceram e ficaram famosas, como "Strength and honor" ou "What we do in life echoes in eternity".

Contrariando os eventos bélicos de nosso tempo, os heróis de Sir Scott somente mantém firme sua luta enquanto esta faz algum sentido em suas próprias existências. Maximus lutou por sua vingança, não pela liberdade do Império Romano. Robin lutou por seu passado e sua paixão, não pela sociedade inglesa dos barões locais. E Roger Ferris, do intenso Body of Lies? Enfim, Roger Ferris simplesmente parou de lutar, foi, como se diz, "cuidar da própria vida", justamente naquele Oriente Médio de que ninguém gosta ("Ain't nobody likes the Middle East, buddy. There's nothing here to like"). A força desta decisão é tão seriamente encarada por Scott que a própria CIA tem que conviver com ela:

Ed Hoffman (oferecendo um cargo burocrático ao oficial de operações paramilitares): Besides, what else are you gonna do? Stay here?
Roger Ferris: What if I like de Middle East?
Hoffman (rindo): Ain't nobody likes the Middle East, buddy. There's nothing here to like.
Ferris: Well, maybe that's the problem right there, isn't, Ed?
Hoffman bajula o agente de campo e:
Ferris: Good luck on winning this war, Ed. I hope everyone thinks you did it all by yourself, huh?
Hoffman: You're not safe here. (...) You walk out on me, you know what that means. (...) That means you're giving up on America.
Ferris: Just be careful calling yourself America, huh, Ed. (...)
Hoffman: Nobody's innocent in this shit, Ferris.

Agente e Agenciador olham-se por um tempo, Ferris sai do saguão do hotel (dá as costas para a "América"), um agente disfarçado no bar observa tudo. A cena muda. Ferris, de longe, vislumbra a enfermeira por quem esta apaixonado. Seria esta sua nova história? Não importa. Para a CIA não importa mais, a decisão individual (micro história) é soberana, para Ridley Scott é assim que funciona, ou deveria funcionar.

Sozinho, Ed Hoffman entra em contato com seus agentes da CIA, que tudo veem em imagens de satélite:
Ed Hoffman: What's he doing?
CIA: Nothing. Buying vegetables. What about us, sir? What do you want us to do? Are we staying with him?
Hoffman: No, Buddy's done. He's all by himself.
CIA: Copy that. Cleared off target.

Os satélites, pouco a pouco, são desligados. O herói de Sir Scott está por conta própria. Assim como Robin Hood que, ao lado de sua paixão, ao final do filme, legalmente um fora da lei, perseguido por todo e qualquer cidadão inglês que o queira matar, treina órfãos nas florestas de Sherwood, feliz, dono de sua própria história.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Encarei-o, o fundo de seus olhos, naquela sala de vidro, sob o segredo de anos dormentes. Ninguém, muito menos ele, saberia o que se passou dentro de mim durante o sono de tempos eternos, o meu sono, só meu.

Foram guerras seculares, escatologias múltiplas, redenção e perdição; pensamentos fluidos de quem não se importa mais, justamente por querer tão-somente estar vivo.

Ao vê-lo, ali, debruçado sobre meu corpo, minha memória me traía, não sabia se eu era eu, se o sono havia me transformado em mil pedaços diferentes, em uma realidade fantástica de caleidoscópio. Nem mesmo me lembrava de como o sono começara. Teriam sido explosões, tiros, estupro, múltiplas violações da moral?

O sono, mestre do tempo e da espera, tomara-me de súbito. Como um passageiro da escuridão, onde tudo se vê com olhos do vislumbre. Não há perguntas no sono, não há inquietações no sono, não há conflito no sono. Apenas o mergulho surdo para a clarividência de você mesmo.

O que teria me levado àquele momento único, de tocar os meus olhos em seus olhos? O que deveria eu sentir por aquelas pálpebras, diluídas em sais? Quem era aquele, mãos para trás, acompanhado de dois policiais de baixa patente, como que partido, pueril? Não o reconhecia, não me reconhecia, não nos sabíamos mais.

O sono, em nuvens, em azougue, fez-me supernova. Um voo da fênix. Dilatada dentro de mim. Palavras soltas, síntese pura da indefinição, página em branco.

Começaria ali, naquele quarto de hospital, transparente e branco, uma nova história.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Enquanto isso, na UTI, Anna Bernnabar espera, sem saber.

O monitor cardíaco toca...

tu, tu, tu, tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu



Com licença, fecham-se as cortinas, é a hora dos especialistas.

(...)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Sempre fui assertivo sobre o prazer de meu trabalho. Ao contrário das críticas sociais mais rasteiras, ser um advogado criminal, "soltando bandidos", é um deleite. Muito menos pelos crápulas milionários, soltos nas ruas ao passar por meus critérios interpretativos; muito mais pelo prazer retórico das reuniões, dos diálogos, dos acordos, das leituras, enfim, dos tribunais.

Entretanto, hoje, sentia-me inquieto. Este interlocutor, meu mais novo cliente, pago pela Polícia Federal, investigador criminal de alto escalão, encarava o silêncio com maestria. Sua atitude se completava com minha total inexperiência em casos passionais. Ainda mais uma tentativa de homicídio como esta, dois tiros no peito, à queima roupa, vítima em coma.

Encontramo-nos já por duas vezes. Sempre com procedimentos idênticos: cumprimento-o, apresento meus argumentos em favor de sua defesa, ouço seus impropérios (sempre educados, todavia impropérios) exigindo auto-representação no tribunal, passamos por momentos de silêncio, retiro-me da instituição prisional. Foram já semanas desde o ocorrido, e não consegui montar um caso coerente, que pudesse ser apresentado na corte. Juntei provas forênsicas, questionei-as todas, montei um dossiê com amigos e familiares do casal, interpretei-as todas (ao meu modo, claro, como o faz qualquer bom advogado), porém, sem a versão do autor do ato criminoso, marido de Anna, fico no escuro, como quem quer sair.

Hoje faço a ele minha terceira visita como advogado de defesa. Não repetirei os procedimentos anteriores, não se usa o mesmo método inócuo três vezes. Não me adianta mais apresentá-lo às evidências físicas de seu crime, ele estava lá. Não me adianta mais demonstrar o risco da auto-representação em casos passionais, ele sabe muito bem que não tem condições de se defender. Muito menos me adianta descrever a situação de todo o sistema prisional brasileiro, ele é parte dele, conhece-o por demais. Vou apelar à sua vaidade, como humano, federal, homem. Vou apresentá-lo à sua própria depressão. Vou simular, como se faz em um tribunal, o espetáculo de sua própria miséria. Descrever e exagerar seus sentimentos mais íntimos. Destruí-lo com supostas evidências que o descrevem como um maníaco depressivo medroso, covarde, assassino. Vou retirar de sua cabeça qualquer possibilidade de alegação de insanidade temporária. Por fim, vou desnorteá-lo, aturdi-lo, esmagá-lo, empurrá-lo contra uma parede intransponível dos maiores terrores e dos mais baixos sentimentos de humilhação e desprezo. E, assim que ele começar sua auto-comiseração, entra em cena minha defesa. Encarnarei, em apenas alguns minutos, ao mesmo tempo, todo o clichê do bom policial versus mau policial. Ataco, defendo. E, assim, no seio de sua própria linguagem, terei-o em minhas mãos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O dia seguinte ao de ontem foi ambíguo. Sentia-me tranquilo por saber que o resgate conseguiu chegar até Ana. Todavia não conseguia tirar da minha cabeça o som dos disparos, a sensação de descontrole e os olhares dela. Mesmo em meio àquela situação toda, Ana não fora capaz de se assustar ou de me temer. Apenas olhava fundo, como se analisasse um de seus casos psiquiátricos. Em plena crise nervosa, não recebi seu abraço, tampouco seu carinho, apenas aqueles olhos penetrantes de quem se importa sem se envolver, clínicos. Quando tirei a arma do bolso, ela nem mesmo se afastou de mim, não mudou um milímetro de sua análise psicanalítica, como quem narrava o que acontecia a um gravador, daqueles que os filmes mostram, usados pelos detetives de polícia. Por que ela era assim? Seria uma capa de proteção dos amores mundanos? Ou ela simplesmente tinha aprendido a ser assim, calma, após anos de trabalho com "assassinos de uniforme", no departamento de psiquiatria da polícia? Ontem, na hora dos disparos, comemorava-mos três anos juntos. E não sentia nenhuma vibração dela, como que se aquele dia fosse um outro qualquer, uma data no calendário e nada mais. Parecia não se importar com a minha presença ou ausência ali. Um fantasma, uma aparição fantástica sem platéia, era como me sentia em nossos encontros. Quando saquei o revólver, meu revólver de trabalho, queria sentir, de alguma maneira, sua reação, seu susto, seu medo, seus sentimentos mais primitivos. Mas ela nem piscou em sinal de dúvida ou estranhamento, apenas permaneceu de olhos fixos em mim, desvendando-me os mistérios cerebrais. Até que sentiu dois disparos, cambaleou o corpo pálido sobre a poltrona, não conseguiu mais penetrar-me as janelas da alma, e fui embora. 
Eu podia ver que ele carregava pensamentos de morte. Seus olhos abertos, pupilas dilatadas, olheiras negras, mãos trêmulas, suor e a garganta seca, puxando o que ainda restava da saliva grossa. 

Falava-me de sua vida, de como tudo poderia ter sido, dos planos, dos malogros, das desistências, dos medos, uma lista sem fim de tristezas encobertas de agruras e decepções. 

Contou-me, agitado, de como aprendera a esconder de todos sua depressão crônica, de como matara seus desejos de beleza e amor, de como seria dali em diante. Não haveria mais planos ou futuro, companhia ou solidão. Somente o absoluto do tempo, mestre inexorável das dores eternas.

E, confuso, resumiu de novo suas angústias. Desesperado, como quem precisa confessar os crimes ao padre do confessionário, tirou a arma do bolso do paletó. Repetiu-se sobre o tempo, as horas, o exagero do mundo, o absoluto. Disse-me finalmente saber a solução de tudo, o fim da história. 

Empunhava aquele revólver aos solavancos, descuidado, para todos os lados, como que representando seu próprio estado de espírito, inquieto, aleatório e convulsivo. Tenso, fazia trabalhar todos os músculos, ora caminhava pela sala, aos trancos, ora se aninhava no sofá, como em um divã. 

Finalmente, parou. Suspirou. Como quem chega a alguma conclusão que, de tão particular, não pode ser comunicada. Debruçou o revólver sobre o braço do sofá. Tomou uma caneta e escreveu uma nota na contracapa de um livro. Discou um número curto no telefone, esperou... O aparelho deitou-se ao chão. Bruscamente, pegou a arma, engatilhou, dois disparos, e foi embora.