Leia como uma Metáfora: O halotano é uma droga bastante utilizada para induzir anestesia geral. Trata-se de um poderoso anestésico de inalação, não inflamável e não explosivo, com um odor relativamente agradável. Após a inalação, a substância chega aos pulmões tornando possível a passagem para o estado anestésico muito rapidamente. Porém, os efeitos colaterais incluem a depressão do sistema respiratório e cardiovascular, sensibilização a arritmias produzidas por adrenalina e lesão hepática.
sábado, 28 de abril de 2012
going to die!
everybody is going to die!
every fucking body in the world
will die and rot in a shadowing fire
pulse pulse pulse
tic tac tic tac tic tac
you will die someday
there's no god there's no devil
there's no heaven there's no hell
say goodbye to your beloveds
or don't say anything
it doesn't matter
you wont be missed
and they'll die as well.
death... oh yeah...
death... oh yeah...
I'm not celebrating you
I'm not desiring you
I'm not expecting you
but you will rise
and I will fall
death... oh yeah...
death... oh yeah...
reign over me!
over the table
under the bed
this society is sick
and your burgundy lips
oh, your burgundy lips
wont save you, wont blame you
just kill you, just heal you
'cause we all deserve to die
Masqueraders and concealed
Jacobites and escapees
Mutineers in pirate ships
irish, reddish, rubbish, folk
fry your brain and save for later.
death... oh yeah...
death... oh yeah...
I'm not celebrating you
I'm not desiring you
I'm not expecting you
but you will rise
and I will fall
death... oh yeah...
death... oh yeah...
reign over me!
die die die
a faithfull death a wasted life
cigarettes in the theater
whiskey in the flagon
staging a play of deceit
true women and false pearls
hard skull and soft minds
raise your arms raise your voice
behold and bow down
the desired of all nations shall come
and ain't his name Emmanuel
there's no god there's no devil
there's no brahma there's no shiva!
death... oh yeah...
death... oh yeah...
I'm not celebrating you
I'm not desiring you
I'm not expecting you
but you will rise
and I will fall
death... oh yeah...
death... oh yeah...
reign over me!
there's no god there's no devil!
there's no brahma there's no shiva!
only death and only you... dying in life!
sexta-feira, 30 de março de 2012
um trecho do livro verde. o nascimento de Sabryna. (proibido para menores de 18 anos!)
Caminhou por quilômetros até sentir em seus pés a areia quente da praia no verão. Nunca apreciara aquela vista do horizonte infinito, que toca o oceano lá longe, em algum lugar mítico, porque intangível. Tampouco sentira qualquer prazer em tocar aqueles fragmentos de rocha, que se entranhavam em seus dedos, com insistência de criança à procura por doces ou travessuras.
Todavia, naquela manhã de domingo, exausto de caminhar o asfalto negro da vida, sentiu-se sem agitações ao olhar a praia pela primeira vez. Não era paz o que sentia, já que esta circunstância era terrivelmente impossível para ele, mas era uma ausência de vibrações urbanas, e isso bastaria por algumas horas.
Era um exímio nadador, daqueles que somente não competia nos torneios de natação por capricho. Porém, ao chegar ao mar, não correu para atravessá-lo às braçadas, como certamente fizera no passado. Simplesmente iniciou uma caminhada pelo calor sensível da areia. Era a borda que procurava, finalmente, não o centro nervoso das convulsões oceânicas.
Sobrecarregado pelo uso abusivo de tranquilizantes prescritos por médicos desatinados, não dormia direito em anos. De ansiolítico em ansiolítico, permanecera em estado de agitação contínua. Legalmente intoxicado, procurava a ação em sua vida, como quem busca nela algum sentido inerente, inato.
Era incapaz de lidar com uma existência essencialmente aleatória. Somente pensava em como o tempo era inexorável, passando às marteladas dos segundos de seu relógio analógico de pulso. E se esquecera completamente da necessidade da pausa. Ao se lembrar da fugacidade do tempo, não refletia sobre suas vibrações. Jamais lhe ocorrera antes a existência da hora de meramente debruçar a cabeça sobre algumas pedras do caminho e repousar. Era-lhe necessário controlar todos os eventos de sua presença no universo.
E, finalmente ali no litoral, após caminhar quilômetros desde a capital (sim, ele fizera o trajeto à pé), sob a mistura ridícula de estimulantes e calmantes, sentia que era hora de capitular. Não queria descansar, era-lhe absurda a ideia de "tirar uma folga". Contudo, seu corpo não oferecia mais escolha. Em frangalhos físicos e psicológicos, não mais podia viver no limite de suas forças e da sua sorte. Já abusara demais de si mesmo e do destino.
Respirou fundo a brisa litorânea e, após tossir como um doente terminal, cuspiu sua parcela de sangue e se ajoelhou. Não por motivos religiosos, ateu que era; tampouco por vontade própria, soberbo. Simplesmente por consequência do completo esgotamento de seu corpo desfigurado pelo abuso e auto piedade. Involuntariamente, seus músculos se rendiam ao cansaço. Irritado, debatia-se contra aquela ideia de parar. Era inútil. Intenções nebulosas de sua mente perturbada travavam uma luta épica contra a fragilidade de seu corpo que já não mais se moveria. Era, literalmente, uma guerra entre a vontade e a fixidez. Ajoelhado, caiu sobre os braços magros e sentiu uma dor lancinante. Deitou-se sobre o próprio corpo, sentindo ainda mais de perto a brasa da areia bege.
Tropeçaram de seu bolso as últimas pílulas que ainda carregava consigo. Já não as sabia calmantes ou estimulantes. Misturadas à areia, foram difíceis de engolir. Sentiu uma ardência horrível na garganta. Tossiu. Cuspiu sangue em si mesmo, ali deitado, frouxo. De estômago vazio, não demorou alguns minutos para se levantar, sob efeito das duas pílulas brancas. "Quando a vontade não vence a força do seu próprio corpo, e necessário enganar os dois", pensou, enquanto corria até a água salgada.
Já não sentia mais nada. Não saberia dizer se estava gelada a água. Se fazia calor sob aquele sol de verão nos trópicos. E, anestesiado de agitação, começou a nadar. Sua vida tinha sido exatamente assim nos últimos anos. Não planejava, não mantinha objetivos ou pontos de chegada. Simplesmente decidia um caminho e seguia por ele. Deixando à sorte o papel de estabelecer metas. E como a fortuna não tem consciência, nunca atingia lugar algum. Acabava por sempre prosseguir. Como se fosse possível alcançar o infinito; ou como se ele efetivamente existisse. Nadou, nadou, nadou e... Nada aconteceu. Olhou para a praia, já muito distante, e se viu muito ansioso em ter que nadar tudo aquilo de volta, para não morrer à deriva, como um imbecil qualquer. "Sou um nadador profissional, porra! Vou morrer no mar agora, caralho? Puta clichê ridículo!", gritou, boiando no Oceano Atlântico.
Voltou à terra firme e pediu cerveja para um caiçara de pele castigada pelo sol e abdome bem cuidado. Bebeu a primeira garrafa. "Mas é óbvio que vou dar calote nesses cuzões. Que tipo de retardado aceita o pedido de cerveja de um cara claramente fodido pelas drogas, que entra na água salgada de roupa e tudo?", pensou, enquanto pedia a segunda garrafa, a terceira, quarta, quinta... Tonto de cerveja, estimulante e exaustão, tentou sair dali. Mas tinha se levantado com tanta pressa, que ficou ainda pior da tontura. Caiu sentado na cadeira, como lenha sob um machado sem corte. Respirou, tossiu, cuspiu sangue ("Caralho, porque fico cuspindo sangue? Tenho tuberculose agora, porra?") e se levantou de novo. Não planejou nenhuma estratégia, mas era bem evidente não ter dinheiro para as cervejas.
Logo sentiu a sombra de dois moleques em sua direção. Um confronto era inevitável. "Vou ensinar uma lição nesses manés. Bando de filhos da puta! Acharam mesmo que eu ia pagar essa porra? Entrei na água com roupa e tudo, retardados! Acharam que meu dinheiro estava onde? No meio do meu cu?", pensou, enquanto planejava a ação de sair no braço com os praieiros. Continuou caminhando. Por sabe-se lá quanto tempo. Olhou para trás e só viu os garotos darem de ombros, ao voltarem pro boteco. Não iriam cobrar a dívida.
"Mas que caralho... Vai ver eles pensaram que eu ia pegar a grana no carro. Pensaram que eu vim de carro pra essa merda. Decidiram que não valia a pena brigar por uns trocados de cerveja com um bêbado filho da puta. Vão se fuder pelo arrego, lá com o dono daquela porra!", resmungou, como se realmente estivesse conversando com alguém.
Continuou andando. E, ao menos dessa vez, tinha uma meta. "Preciso voltar pra São Paulo. Essa porra de praia já deu. Odeio essa merda! Por que fui andar até aqui? Vai tomar no cu! Nem fodendo que volto a pé nessa porra...", pensou, em torvelinho, confuso, como se procurasse sentido em qualquer resposta possível, enquanto levantava o polegar em busca de carona.
Passou alguns minutos com o dedo em riste, pedindo carona, sem ao menos gastar um segundo sobre ser aquela uma situação humilhante ou não. Sempre que a possibilidade de empreender tempo conjeturando sobre isso surgia, pigarreava e repetia para si mesmo: "só preciso voltar, só preciso voltar, só preciso voltar". Mas voltar para onde, afinal? Não importava, só queria voltar. Prometeu a si mesmo que não era o momento de perguntar-se porra nenhuma, só de andar de volta, até que a carona aparecesse, fosse ela qual fosse.
Descendo o morro, por entre as árvores do litoral, sobre ruas tortuosas de asfalto seco, seu corpo clamava por descanso, mais uma vez. Não tinha com ele qualquer comprimido, cigarro ou álcool. Vestido, via-se finalmente nu. Cambaleava e não conseguia entender como não passava por ali um veículo sequer. Era essa a única pergunta que se permitia: "por que diabos não passa um carro por aqui?"; enquanto seu joelho dobrava, mão esquerda para cima, polegar opositor em pé. Não mais poderia andar.
Passou um Opala preto, carregado de gente, funk do último volume, altíssima velocidade. E ele, ajoelhado, prostrado sobre sua própria humilhação. Passou direto. Assim como a Brasília, branca, somente com o motorista, que até vacilou pra parar, mas seguiu viagem. Depois um Ford Foccus prata, um Honda Fit prata, um caminhão pequeno. Ninguém parou. "Devo estar mesmo em um estado deplorável. Ninguém me oferece carona ou ajuda. Deve ser o destino finalmente me dando o troco. Afinal, eu também não pararia e ainda daria um jeito de zoar o cara na sarjeta. Passaria gritando, jogaria nele minha bituca, passaria correndo por uma poça d'água"...
Até que, sabe-se lá depois de quanto tempo, um Fiat Uno, desses novos modelos, com aquela cor indefinível, verde limão ou amarelo, horrível, desceu o morro e começou a diminuir a velocidade, até parar ao lado dele. O vidro do passageiro baixou e uma voz feminina ressoou sem mistérios: "Precisa de uma carona? Você tá acabado, hein?! Roubaram você? Apanhou? O que aconteceu?". E a voz ria bem alto, como se estivesse tirando uma com a cara do sujeito.
Ele apenas se levantou, caminhou até a porta, abriu, sentou-se no banco dianteiro do passageiro, fechou, e disse "obrigado". A moça, jovens, vinte e poucos anos, rindo ainda, perguntou com voz fina e incômoda "Onde está indo? Apesar de estar bem zoado, não parece desses mendigos, deve estar indo a algum lugar". Ele, já sem fôlego, corpo ou voz, tentou formar uma frase que fizesse qualquer sentido: "Estou em casa. Quer dizer, tenho casa. Vou pra São Paulo. Lá tem minha casa. Está indo pra lá?". Jogando a cabeça pra trás, deixando bem óbvio o comprido de seu pescoço, rindo mais uma vez, a moça replicou: "Vou pra lá sim. Eu e minha irmã viemos para cá passar o fim de semana, na casa de uns amigos. Fumamos e cheiramos tanto que ela capotou aí atrás".
Olhou para trás e percebeu outra pessoa no carro, jogada como lixo, como ele, com um susto de quem poderia ter sido morto sem ao menos se dar conta. Como ele não percebera? Como ele não notara antes também que a moça ao volante estava claramente louca de cocaína? Olhos esbugalhados, olhar vidrado, rindo muito, suando às tampas, direção irregular e sem qualquer capacidade de fazer contato visual. "Deve ter cocaína aqui em algum lugar", pensou, olhando freneticamente para todos os lados, abrindo o porta luvas, sem qualquer cerimônia. "O que você quer, loiro? Maconha? Não guardo a Maconha no carro. Guardo no biquíni, é sexy tirar o cigarro dos peitos e oferecer aos meninos. Eles ficam loucos e você tem..." Antes mesmo dela terminar a frase, ele enfiou as mãos por entre a camiseta úmida da motorista, entrou em seu biquíni, por entre seios miúdos, e pegou a paranga. "Aiiii, vai com calma, é só pedir", disse a moça, rindo sem parar e sentindo um algo entre cócegas e calafrio.
"Como vai acender agora, hein filho da puta? Enfiou a mão nos meus peitos e não vai poder acender essa merda. Muito bom!", disse a moça, em tom irritadiço, claramente já sob o efeito da sobriedade, caindo sobre ela na mesma velocidade em que se abate a loucura do pó. Pediu, ele, um isqueiro, com toda a educação que poderia oferecer para aquele momento sem qualquer sentido. "No porta luvas, seu burro! Acabou de abrir isso aí e não viu?", replicou a moça, rindo de novo, em tom tão jocoso quanto melancólico. Ele sorriu por entre o canto direito da boca e achou aquela grosseria muito encantadora. Colocou o fininho por entre os lábios curtos da moça, pegou o isqueiro e acendeu, pedindo, com aquele gesto lento e simples, desculpas por agir tal e qual um viciado selvagem. Pôde ouvir o som da seda queimando e aquilo o encheu de algum tipo bizarro de esperança. Como se, de alguma forma, a brasa daquela erva proibida pudesse gerar algum tipo de manobra do destino em seu favor.
A menina magra, de seios miúdos e lábios finos, puxava a fumaça com certa habilidade, como se já tivesse feito aquilo algumas vezes, mas não tantas assim, talvez aprendera naquele fim de semana mesmo. Ofereceu a ele o próximo trago e ele puxou. Ao soltar a fumaça, fechou o nariz com os dedos, como quem se protege de um cheiro ruim. A moça desandou a gargalhar: "Puta que pariu! Você segura a fumaça assim? Mano, onde aprendeu a fumar?". "Olha, meu amor. Faço isso desde a adolescência. Sempre fumei meu baseado assim e sempre fui zoado, então... pode parar, não vou me sentir ofendido com esse seu comentário. Fumo desde muito antes de você ter aprendido a tragar essa porra!". Segurando o riso, a moça replicou: "Ah, já ficou todo boladinho com a Maria, tá com mania de perseguição, bebê?".
Aquilo de ser chamado de bebê, puxando um fumo com uma moça completamente desconhecida, da qual nem mesmo sabia o nome ou a origem, no meio da estrada do litoral Sul para São Paulo, encheu-o de angústia. Só pensava em puxar o fumo cada vez mais rápido e em maior quantidade, chapar de uma vez, relaxar, brisar e tentar, no meio da viagem, dar àquela situação qualquer definição que fosse. "Só preciso chegar em casa, deitar em minha cama, no meu canto do mundo, e decidir o próximo passo. É exatamente desse tipo de absurdo que preciso fugir, definitivamente. Não posso mais viver assim. Não faz qualquer sentido fumar com uma garota qualquer, com uma irmã morta no banco de trás, depois de enfiar-lhe a mão nos peitos", pensou, já sentindo o corpo leve, as mãos formigando e a força da paranóia. Dormiu. Anoiteceu. Não sentiu mais nada, dentro ou fora de si.
Sentido uma batida forte em seu braço esquerdo, acordou assustado. "Onde é sua casa? Você dormiu. Estamos em São Paulo. É tarde. Demorei pra chegar por causa da Maconha. Dirigi devagar demais. Quase dormi na estrada. Tá foda. Fala. Onde você mora? Não tem ônibus a essa nora, nem metrô. Eu te deixo em casa". A moça não parava de falar. Ele mal teve tempo de pensar ou de tentar entender onde estava. Ia emendar um "não precisa", quando a menina desandou a falar: "Vai, menino. Fala! Tô cansada. Não adianta dizer que não precisa e fazer doce. Vou te levar. Olha seu estado. E ainda fedendo à Maconha. Fala logo. Não enrola, vai..." Enquanto aquela voz fina ecoava por seu cérebro, tentou decifrar sua localização e ia dando direções.
"Estou morrendo de fome, você não está?", perguntava a voz da moça, já mais grave por conta do cansaço e sono. "Quer que eu dirija? Deve estar exausta do caminho todo. E eu ainda fui um cavalheiro, dormindo impiedosamente". "Ai, eu quero. Nem tinha pensado nisso, bebê. Dirige. Por favor. Está longe? Posso dormir um pouco?" Enquanto se perguntava, incomodado, o motivo pelo qual aquela moça o chamava de bebê, trocou de lugar com ela. Pararam perto da calçada, pisca alerta ligado. Ela, sem hesitar, com desenvoltura, começou a passar as pernas por cima dele. Antes mesmo de pensar em abrir a porta e dar a volta por fora do carro, adequou-se àquela situação incomum e passou para o banco do motorista por baixo da moça.
Todo aquele retorno para casa era bizarro. Ainda mais o conforto que ele sentia ao ouvir a voz fina, trocar fumo, tocar com sua calça jeans a perna nua da menina magrela, de seios miúdos e lábios finos. Por alguns minutos, depois de ter dormido mais naquele banco molhado do que o fizera em anos, pensou em como perguntar o nome dela. Estava sem graça em não tê-lo feito antes e não sabia como introduzir o assunto. Quando finalmente elaborou uma frase em sua cabeça, julgando-a perfeita, treinando a entonação e o cacete, olhou para o lado e a encontrou dormindo, estabacada no banco do passageiro como a morta da irmã no banco de trás.
Dirigiu devagar até em casa. Estava alerta. Queria aproveitar o caminho para pensar. Não o fizera desde que fora morar sozinho e iniciara esta aventura em nome da destruição do corpo, da alma, do espírito, da humanidade, da busca do Grande Sonho. Experimentara todo o tipo de drogas, lícitas e ilícitas. Bebera todos os padrões de whiskies. Sabia de cor o sabor de cada marca de cigarro. Invadira um número considerável de vaginas, destruindo alguns de seus corações no processo (tivera encontros com um ou dois paus também, apesar de não confessar isso a ninguém). E, enfim, julgava ser o momento de empreender uma pausa.
No meio de toda essa retrospectiva, enquanto digitava alguma coisa no GPS do Fiat, sem nenhuma trilha sonora, chegou em casa. Uma rua qualquer da periferia paulistana, símbolo máximo de sua autodenominada decadência. A irmã resmungou qualquer coisa indefinida no banco de trás e virou o corpo pesado para o outro lado, sem acordar, morta. Ele olhou para a moça e teve um desejo incontrolável de colocar seus cabelos atrás da orelha e acordá-la com um beijo no rosto, mas se conteve, cutucando-a de leve no braço esquerdo. Ela demorou um pouco para acordar. Mas, quando o fez, graciosa, sorriu, gemeu, esticou os braços delgados para cima e o abraçou pelo pescoço. Quase sem emitir sons, sussurrando, com aquela voz grave de sono, agradeceu: "Obrigada por dirigir, Ricardo, não estava mesmo aguentando mais, como chego em casa agora?".
Meus ouvidos não podiam crer naquilo e meus olhos esbugalharam na hora: "V-v-vo-c-cê sabe meu nome? Eu falei dormindo ou algo do tipo?". Ela, sorrindo aquele sorriso confortável da praia, seios e Maconha, replicou: "Ai... Você não lembra mesmo de mim, né?" Cada vez mais aflito e sem saber o que fazer, de onde tirar ideias e respostas: "É... Hmmm... Não... Desculpa?" Jogando sua cabeça rapidamente para o lado esquerdo, deixando seus cabelos longos e avermelhados, meio castanhos (era difícil definir a cor do cabelo dela, percebi naquele momento), ao sabor da inércia, expondo seu longo pescoço, ela disse: "Calma, relaxa, não fica tenso. Não precisa lembrar. Hoje sei que não dá mais aulas. Te sigo no Twitter e sei que trabalha com algo jornalístico, um Gon-sei-lá-o-quê. Mas fui sua aluna há uns anos". "Meu Deus...", exclamei, baixinho, como quem é chutado no meio da cara por uma epifania, "você é a Sa... É... Sa...". Ela me interrompeu, sem graça: "Sabryna, professor, Sabryna".
"Saaaaaaaaabryna, claro, lembro sim", exclamei, tentando oferecer alguma sensação de familiaridade àquela situação absolutamente constrangedora. "Nossa! Por que não me falou antes? Teríamos conversado, colocado as novidades em dia, coisa e tal", tentei, tosco, me sentir confortável com toda aquela insanidade. "Ah, professor, pensei que tivesse me reconhecido. Foi todo direto ao ponto ao pegar a Maconha nos meus seios, igual fazia quando era sua al...". Interrompi na hora aquele papo de louco, meio que gritando por entre os dentes: "Como assim? Faz tempo que não dou aula, mas se me lembro bem nunca tivemos nada, pelo amor de...". "HAHAHAHAHA", gargalhou Sabryna, me interrompendo de volta: "Tô brincando, professor, é lógico que não rolou nada! Você precisava ver sua cara agora, assustado, parecia um pinto sem a galinha-mão do lado!!!". Sorri de volta, deixei a adrenalina passar e tentei reatar algum diálogo, agora já ansioso por entrar logo em casa e encerrar toda aquela sequência retardada de eventos: "Nossa. Uau. É... E o que tem feito, afinal, Sabryna? Trabalha com o quê, agora, moda?" (de onde eu tinha tirado que ela trabalhava com moda, afinal? Enfim...). Ela me olhou estranho, cerrando os olhos, como quem quer entender alguma coisa e deixa pra lá: "Não, professor. Deixei a escola naquele ano em que dava aula pra gente, terminei meu colégio em Santa Catarina, precisei ir pra lá, longa história, fiz um ou outro curso de inglês e acabei virando prostituta, mas..." Antes mesmo que ela terminasse a frase, arregalei os olhos, no melhor estilo "mas que porra é essa", tentei entender como alguém anunciava uma coisa daquelas com aquela naturalidade, como quem pede um guardanapo na mesa do almoço e esperei sua risada típica, pescoço de lado, cabelo jogado, pescoço à mostra. Mas a risada não veio. Ela continuou a olhar pra mim, com cara de impaciência, como quem quer continuar o assunto e seguiu: "Então, deixa eu terminar? Acabei me tornando prostituta, mas não dessas de rua, né professor! Me tornei dessas de luxo, sabe? Lá na praia mesmo, então, estava com um de meus clientes fixos. Ele me paga uma grana pra ficar comigo todo o fim de semana. Esse carro mesmo eu ganhei dele, como pagamento, é novinho, eu gosto muito dele!" Enquanto apontava para a gorda morta no banco de trás do carro, seguiu: "Minha namorada não sabe o que eu faço direito, ela é muito ciumenta, então preciso fingir que meu cliente é, na verdade, meu sócio em algum negócio de importação e exportação, que é a única desculpa que consegui arranjar pra explicar a grana alta que entra de vez em quando lá em casa. Eu sou tão boa pra ele, que ele aceita ter a companhia dela em alguns de nossos encontros, ele me entende, sabe? É meu melhor cliente".
Não consegui replicar. Só fiquei olhando o rosto gracioso daquela ex aluna, que me confessava ser prostituta, com a mesma feição que eu usaria se precisasse explicar o Jornalismo Gonzo, naturalmente, até com certa euforia, como se estivesse pregando algum tipo distorcido de evangelho. Não suportando a pausa, ela seguiu: "Então, professor, mas, assim, agora, estou pensando em fazer artes cênicas. Talvez eu faça algum curso de atuação fora do país, sei lá, quero ser atriz, o que você acha?" Aquilo me parecia um clichê tão cômico, que preferi não seguir o assunto: "Ah, Sabryna, vamos continuar essa conversa outra hora? Está tarde, estamos cansados, sua namorada ciumenta pode acordar a qualquer minuto e não sou seu sócio". Rimos juntos, ela super confortável; eu visivelmente nervoso. "Tá bom, professor", dizia, enquanto procurava no porta luvas alguma coisa, "fica com meu cartão e me liga. A gente se vê, bebe alguma coisa, coloca a conversa em dia, como você mesmo falou. Não vou cobrar nada... HAHAHAHA".
Percebi, no exato momento daquela gargalhada e virada de pescoço, que era somente eu que me sentia desconfortável com aquela situação. Sabryna era o que era, prostituta. Desde a adolescência escolhera aquele caminho, estava acostumada a isso. Era minha a estranheza. Ex professor, jornalista de rua, bêbado, drogado, selvagem, admirando-me com a insanidade daquela situação, como se ainda esperasse do mundo alguma ordem ou coerência. Mas é claro que eu ligaria para ela. Obviamente faria daquela menina objeto de meu próximo material Gonzo. Como ela teria chegado àquelas escolhas? Como se sentia a prostituta graciosa? Como era sua vida homoafetiva cercada de homens? Enfim...
"Ótimo! Mas vou te ligar mesmo. Vi que tem um email aqui. Vou te mandar meu telefone, aí você pode me ligar também. Contamos nossas histórias", exclamei, com a maior desenvoltura possível, assumindo o papel de jornalista. "Ai, que legal, vou adorar! Posso te escrever por email minha história? Tenho umas coisas muito loucas pra te contar, nem faz ideia!", disse-me, ansiosa, rindo, como uma adolescente que ganha alguma espécie muito bacana de presente de aniversário. "Claro, Sabryna, claro que pode, voou adorar", agradeci, como quem não precisa fazer qualquer esforço para ter uma boa matéria nas mãos.
Abraçamos um ao outro e ela me beijou o rosto, agarrando-o com as duas mãos. Sorri, abri a porta do motorista e dei a volta, enquanto ela passava do banco do passageiro. Olhei pela janela, apoiei meus braços, coloquei a cabeça para dentro e ela me perguntou, como uma menina de 13 anos, com o dedo na boca, olhando para o nada, extremamente sexy, mas nitidamente sem nenhuma intenção, perdida: "Como chego em casa?" Malandro, com toda a pose brega de macho alfa, que, mais tarde, descobriria ser para ela muito atraente, respondi: "Vi seu endereço salvo no GPS, marquei o caminho de volta para você, quando já estávamos chegando aqui, é só seguir, não tem erro! Se tiver dúvida, liga." Anotei meu número no braço dela, com certa dificuldade, o calor nos suava a pele. "Tá bom, Ricardo, quem vê pensa que era nosso professor de Geografia, não de inglês", sorriu, mordendo o lábio inferior, como quem via naquela frase algum tipo pervertido de flerte.
Despedimo-nos e, em meio a toda a excitação daquela série de eventos bizarros, só pensava em ligar para Fernando e contar o que tinha acontecido. Contar sobre como seria a pauta de nossa próxima matéria e contar sobre como tudo aquilo tinha me deixado, de algum modo, extremamente excitado. Porém, era muito tarde. Umas duas da manhã. Fernando acordava cedo para seu emprego babaca de terno e gravata. Porra! Mandei uma SMS por precaução. Fernando acordava muito desbaratinado quando o fazia despertado pelo celular, no meio da madrugada, algo comum entre nós, lunáticos; e isso me irritava muito. Me ligou de volta, bem rápido, por sinal...
"Ricardo? O que você quer a essa hora, seu porco?", esbravejou, voz grave de sono. "Caralho, Fernando, seu filho de uma pulta! O que você sabe sobre prostitutas de luxo?", perguntei, segurando o riso. "HAHAHAHA! QUE PORRA É ESSA?", respondeu, sacando na hora a referência de Hunter Thompson e Johnny Depp. "Prostitutas de luxo, cacete! O que você sabe sobre elas? Precisamos tomar providências urgentes! Acho que elas estão se infiltrando em nosso meio"...
Rimos juntos, conversamos mais um pouco, fumei um Lucky Strike, tomei uma ou duas doses de Jameson e planejei como seria minha ligação para Sabryna. Era dezembro. Estávamos próximos do Natal e do Ano Novo. Estava decidido em passá-los com ela. Bolava algum plano mirabolante para que dispensasse seus clientes e aquela namorada morta. Mal a conhecia, mas, de algum modo e por algum motivo, me sentia a porra do rei do universo naquele instante. E aquela era uma sensação intoxicante. Nada poderia me parar...
Todavia, naquela manhã de domingo, exausto de caminhar o asfalto negro da vida, sentiu-se sem agitações ao olhar a praia pela primeira vez. Não era paz o que sentia, já que esta circunstância era terrivelmente impossível para ele, mas era uma ausência de vibrações urbanas, e isso bastaria por algumas horas.
Era um exímio nadador, daqueles que somente não competia nos torneios de natação por capricho. Porém, ao chegar ao mar, não correu para atravessá-lo às braçadas, como certamente fizera no passado. Simplesmente iniciou uma caminhada pelo calor sensível da areia. Era a borda que procurava, finalmente, não o centro nervoso das convulsões oceânicas.
Sobrecarregado pelo uso abusivo de tranquilizantes prescritos por médicos desatinados, não dormia direito em anos. De ansiolítico em ansiolítico, permanecera em estado de agitação contínua. Legalmente intoxicado, procurava a ação em sua vida, como quem busca nela algum sentido inerente, inato.
Era incapaz de lidar com uma existência essencialmente aleatória. Somente pensava em como o tempo era inexorável, passando às marteladas dos segundos de seu relógio analógico de pulso. E se esquecera completamente da necessidade da pausa. Ao se lembrar da fugacidade do tempo, não refletia sobre suas vibrações. Jamais lhe ocorrera antes a existência da hora de meramente debruçar a cabeça sobre algumas pedras do caminho e repousar. Era-lhe necessário controlar todos os eventos de sua presença no universo.
E, finalmente ali no litoral, após caminhar quilômetros desde a capital (sim, ele fizera o trajeto à pé), sob a mistura ridícula de estimulantes e calmantes, sentia que era hora de capitular. Não queria descansar, era-lhe absurda a ideia de "tirar uma folga". Contudo, seu corpo não oferecia mais escolha. Em frangalhos físicos e psicológicos, não mais podia viver no limite de suas forças e da sua sorte. Já abusara demais de si mesmo e do destino.
Respirou fundo a brisa litorânea e, após tossir como um doente terminal, cuspiu sua parcela de sangue e se ajoelhou. Não por motivos religiosos, ateu que era; tampouco por vontade própria, soberbo. Simplesmente por consequência do completo esgotamento de seu corpo desfigurado pelo abuso e auto piedade. Involuntariamente, seus músculos se rendiam ao cansaço. Irritado, debatia-se contra aquela ideia de parar. Era inútil. Intenções nebulosas de sua mente perturbada travavam uma luta épica contra a fragilidade de seu corpo que já não mais se moveria. Era, literalmente, uma guerra entre a vontade e a fixidez. Ajoelhado, caiu sobre os braços magros e sentiu uma dor lancinante. Deitou-se sobre o próprio corpo, sentindo ainda mais de perto a brasa da areia bege.
Tropeçaram de seu bolso as últimas pílulas que ainda carregava consigo. Já não as sabia calmantes ou estimulantes. Misturadas à areia, foram difíceis de engolir. Sentiu uma ardência horrível na garganta. Tossiu. Cuspiu sangue em si mesmo, ali deitado, frouxo. De estômago vazio, não demorou alguns minutos para se levantar, sob efeito das duas pílulas brancas. "Quando a vontade não vence a força do seu próprio corpo, e necessário enganar os dois", pensou, enquanto corria até a água salgada.
Já não sentia mais nada. Não saberia dizer se estava gelada a água. Se fazia calor sob aquele sol de verão nos trópicos. E, anestesiado de agitação, começou a nadar. Sua vida tinha sido exatamente assim nos últimos anos. Não planejava, não mantinha objetivos ou pontos de chegada. Simplesmente decidia um caminho e seguia por ele. Deixando à sorte o papel de estabelecer metas. E como a fortuna não tem consciência, nunca atingia lugar algum. Acabava por sempre prosseguir. Como se fosse possível alcançar o infinito; ou como se ele efetivamente existisse. Nadou, nadou, nadou e... Nada aconteceu. Olhou para a praia, já muito distante, e se viu muito ansioso em ter que nadar tudo aquilo de volta, para não morrer à deriva, como um imbecil qualquer. "Sou um nadador profissional, porra! Vou morrer no mar agora, caralho? Puta clichê ridículo!", gritou, boiando no Oceano Atlântico.
Voltou à terra firme e pediu cerveja para um caiçara de pele castigada pelo sol e abdome bem cuidado. Bebeu a primeira garrafa. "Mas é óbvio que vou dar calote nesses cuzões. Que tipo de retardado aceita o pedido de cerveja de um cara claramente fodido pelas drogas, que entra na água salgada de roupa e tudo?", pensou, enquanto pedia a segunda garrafa, a terceira, quarta, quinta... Tonto de cerveja, estimulante e exaustão, tentou sair dali. Mas tinha se levantado com tanta pressa, que ficou ainda pior da tontura. Caiu sentado na cadeira, como lenha sob um machado sem corte. Respirou, tossiu, cuspiu sangue ("Caralho, porque fico cuspindo sangue? Tenho tuberculose agora, porra?") e se levantou de novo. Não planejou nenhuma estratégia, mas era bem evidente não ter dinheiro para as cervejas.
Logo sentiu a sombra de dois moleques em sua direção. Um confronto era inevitável. "Vou ensinar uma lição nesses manés. Bando de filhos da puta! Acharam mesmo que eu ia pagar essa porra? Entrei na água com roupa e tudo, retardados! Acharam que meu dinheiro estava onde? No meio do meu cu?", pensou, enquanto planejava a ação de sair no braço com os praieiros. Continuou caminhando. Por sabe-se lá quanto tempo. Olhou para trás e só viu os garotos darem de ombros, ao voltarem pro boteco. Não iriam cobrar a dívida.
"Mas que caralho... Vai ver eles pensaram que eu ia pegar a grana no carro. Pensaram que eu vim de carro pra essa merda. Decidiram que não valia a pena brigar por uns trocados de cerveja com um bêbado filho da puta. Vão se fuder pelo arrego, lá com o dono daquela porra!", resmungou, como se realmente estivesse conversando com alguém.
Continuou andando. E, ao menos dessa vez, tinha uma meta. "Preciso voltar pra São Paulo. Essa porra de praia já deu. Odeio essa merda! Por que fui andar até aqui? Vai tomar no cu! Nem fodendo que volto a pé nessa porra...", pensou, em torvelinho, confuso, como se procurasse sentido em qualquer resposta possível, enquanto levantava o polegar em busca de carona.
Passou alguns minutos com o dedo em riste, pedindo carona, sem ao menos gastar um segundo sobre ser aquela uma situação humilhante ou não. Sempre que a possibilidade de empreender tempo conjeturando sobre isso surgia, pigarreava e repetia para si mesmo: "só preciso voltar, só preciso voltar, só preciso voltar". Mas voltar para onde, afinal? Não importava, só queria voltar. Prometeu a si mesmo que não era o momento de perguntar-se porra nenhuma, só de andar de volta, até que a carona aparecesse, fosse ela qual fosse.
Descendo o morro, por entre as árvores do litoral, sobre ruas tortuosas de asfalto seco, seu corpo clamava por descanso, mais uma vez. Não tinha com ele qualquer comprimido, cigarro ou álcool. Vestido, via-se finalmente nu. Cambaleava e não conseguia entender como não passava por ali um veículo sequer. Era essa a única pergunta que se permitia: "por que diabos não passa um carro por aqui?"; enquanto seu joelho dobrava, mão esquerda para cima, polegar opositor em pé. Não mais poderia andar.
Passou um Opala preto, carregado de gente, funk do último volume, altíssima velocidade. E ele, ajoelhado, prostrado sobre sua própria humilhação. Passou direto. Assim como a Brasília, branca, somente com o motorista, que até vacilou pra parar, mas seguiu viagem. Depois um Ford Foccus prata, um Honda Fit prata, um caminhão pequeno. Ninguém parou. "Devo estar mesmo em um estado deplorável. Ninguém me oferece carona ou ajuda. Deve ser o destino finalmente me dando o troco. Afinal, eu também não pararia e ainda daria um jeito de zoar o cara na sarjeta. Passaria gritando, jogaria nele minha bituca, passaria correndo por uma poça d'água"...
Até que, sabe-se lá depois de quanto tempo, um Fiat Uno, desses novos modelos, com aquela cor indefinível, verde limão ou amarelo, horrível, desceu o morro e começou a diminuir a velocidade, até parar ao lado dele. O vidro do passageiro baixou e uma voz feminina ressoou sem mistérios: "Precisa de uma carona? Você tá acabado, hein?! Roubaram você? Apanhou? O que aconteceu?". E a voz ria bem alto, como se estivesse tirando uma com a cara do sujeito.
Ele apenas se levantou, caminhou até a porta, abriu, sentou-se no banco dianteiro do passageiro, fechou, e disse "obrigado". A moça, jovens, vinte e poucos anos, rindo ainda, perguntou com voz fina e incômoda "Onde está indo? Apesar de estar bem zoado, não parece desses mendigos, deve estar indo a algum lugar". Ele, já sem fôlego, corpo ou voz, tentou formar uma frase que fizesse qualquer sentido: "Estou em casa. Quer dizer, tenho casa. Vou pra São Paulo. Lá tem minha casa. Está indo pra lá?". Jogando a cabeça pra trás, deixando bem óbvio o comprido de seu pescoço, rindo mais uma vez, a moça replicou: "Vou pra lá sim. Eu e minha irmã viemos para cá passar o fim de semana, na casa de uns amigos. Fumamos e cheiramos tanto que ela capotou aí atrás".
Olhou para trás e percebeu outra pessoa no carro, jogada como lixo, como ele, com um susto de quem poderia ter sido morto sem ao menos se dar conta. Como ele não percebera? Como ele não notara antes também que a moça ao volante estava claramente louca de cocaína? Olhos esbugalhados, olhar vidrado, rindo muito, suando às tampas, direção irregular e sem qualquer capacidade de fazer contato visual. "Deve ter cocaína aqui em algum lugar", pensou, olhando freneticamente para todos os lados, abrindo o porta luvas, sem qualquer cerimônia. "O que você quer, loiro? Maconha? Não guardo a Maconha no carro. Guardo no biquíni, é sexy tirar o cigarro dos peitos e oferecer aos meninos. Eles ficam loucos e você tem..." Antes mesmo dela terminar a frase, ele enfiou as mãos por entre a camiseta úmida da motorista, entrou em seu biquíni, por entre seios miúdos, e pegou a paranga. "Aiiii, vai com calma, é só pedir", disse a moça, rindo sem parar e sentindo um algo entre cócegas e calafrio.
"Como vai acender agora, hein filho da puta? Enfiou a mão nos meus peitos e não vai poder acender essa merda. Muito bom!", disse a moça, em tom irritadiço, claramente já sob o efeito da sobriedade, caindo sobre ela na mesma velocidade em que se abate a loucura do pó. Pediu, ele, um isqueiro, com toda a educação que poderia oferecer para aquele momento sem qualquer sentido. "No porta luvas, seu burro! Acabou de abrir isso aí e não viu?", replicou a moça, rindo de novo, em tom tão jocoso quanto melancólico. Ele sorriu por entre o canto direito da boca e achou aquela grosseria muito encantadora. Colocou o fininho por entre os lábios curtos da moça, pegou o isqueiro e acendeu, pedindo, com aquele gesto lento e simples, desculpas por agir tal e qual um viciado selvagem. Pôde ouvir o som da seda queimando e aquilo o encheu de algum tipo bizarro de esperança. Como se, de alguma forma, a brasa daquela erva proibida pudesse gerar algum tipo de manobra do destino em seu favor.
A menina magra, de seios miúdos e lábios finos, puxava a fumaça com certa habilidade, como se já tivesse feito aquilo algumas vezes, mas não tantas assim, talvez aprendera naquele fim de semana mesmo. Ofereceu a ele o próximo trago e ele puxou. Ao soltar a fumaça, fechou o nariz com os dedos, como quem se protege de um cheiro ruim. A moça desandou a gargalhar: "Puta que pariu! Você segura a fumaça assim? Mano, onde aprendeu a fumar?". "Olha, meu amor. Faço isso desde a adolescência. Sempre fumei meu baseado assim e sempre fui zoado, então... pode parar, não vou me sentir ofendido com esse seu comentário. Fumo desde muito antes de você ter aprendido a tragar essa porra!". Segurando o riso, a moça replicou: "Ah, já ficou todo boladinho com a Maria, tá com mania de perseguição, bebê?".
Aquilo de ser chamado de bebê, puxando um fumo com uma moça completamente desconhecida, da qual nem mesmo sabia o nome ou a origem, no meio da estrada do litoral Sul para São Paulo, encheu-o de angústia. Só pensava em puxar o fumo cada vez mais rápido e em maior quantidade, chapar de uma vez, relaxar, brisar e tentar, no meio da viagem, dar àquela situação qualquer definição que fosse. "Só preciso chegar em casa, deitar em minha cama, no meu canto do mundo, e decidir o próximo passo. É exatamente desse tipo de absurdo que preciso fugir, definitivamente. Não posso mais viver assim. Não faz qualquer sentido fumar com uma garota qualquer, com uma irmã morta no banco de trás, depois de enfiar-lhe a mão nos peitos", pensou, já sentindo o corpo leve, as mãos formigando e a força da paranóia. Dormiu. Anoiteceu. Não sentiu mais nada, dentro ou fora de si.
Sentido uma batida forte em seu braço esquerdo, acordou assustado. "Onde é sua casa? Você dormiu. Estamos em São Paulo. É tarde. Demorei pra chegar por causa da Maconha. Dirigi devagar demais. Quase dormi na estrada. Tá foda. Fala. Onde você mora? Não tem ônibus a essa nora, nem metrô. Eu te deixo em casa". A moça não parava de falar. Ele mal teve tempo de pensar ou de tentar entender onde estava. Ia emendar um "não precisa", quando a menina desandou a falar: "Vai, menino. Fala! Tô cansada. Não adianta dizer que não precisa e fazer doce. Vou te levar. Olha seu estado. E ainda fedendo à Maconha. Fala logo. Não enrola, vai..." Enquanto aquela voz fina ecoava por seu cérebro, tentou decifrar sua localização e ia dando direções.
"Estou morrendo de fome, você não está?", perguntava a voz da moça, já mais grave por conta do cansaço e sono. "Quer que eu dirija? Deve estar exausta do caminho todo. E eu ainda fui um cavalheiro, dormindo impiedosamente". "Ai, eu quero. Nem tinha pensado nisso, bebê. Dirige. Por favor. Está longe? Posso dormir um pouco?" Enquanto se perguntava, incomodado, o motivo pelo qual aquela moça o chamava de bebê, trocou de lugar com ela. Pararam perto da calçada, pisca alerta ligado. Ela, sem hesitar, com desenvoltura, começou a passar as pernas por cima dele. Antes mesmo de pensar em abrir a porta e dar a volta por fora do carro, adequou-se àquela situação incomum e passou para o banco do motorista por baixo da moça.
Todo aquele retorno para casa era bizarro. Ainda mais o conforto que ele sentia ao ouvir a voz fina, trocar fumo, tocar com sua calça jeans a perna nua da menina magrela, de seios miúdos e lábios finos. Por alguns minutos, depois de ter dormido mais naquele banco molhado do que o fizera em anos, pensou em como perguntar o nome dela. Estava sem graça em não tê-lo feito antes e não sabia como introduzir o assunto. Quando finalmente elaborou uma frase em sua cabeça, julgando-a perfeita, treinando a entonação e o cacete, olhou para o lado e a encontrou dormindo, estabacada no banco do passageiro como a morta da irmã no banco de trás.
Dirigiu devagar até em casa. Estava alerta. Queria aproveitar o caminho para pensar. Não o fizera desde que fora morar sozinho e iniciara esta aventura em nome da destruição do corpo, da alma, do espírito, da humanidade, da busca do Grande Sonho. Experimentara todo o tipo de drogas, lícitas e ilícitas. Bebera todos os padrões de whiskies. Sabia de cor o sabor de cada marca de cigarro. Invadira um número considerável de vaginas, destruindo alguns de seus corações no processo (tivera encontros com um ou dois paus também, apesar de não confessar isso a ninguém). E, enfim, julgava ser o momento de empreender uma pausa.
No meio de toda essa retrospectiva, enquanto digitava alguma coisa no GPS do Fiat, sem nenhuma trilha sonora, chegou em casa. Uma rua qualquer da periferia paulistana, símbolo máximo de sua autodenominada decadência. A irmã resmungou qualquer coisa indefinida no banco de trás e virou o corpo pesado para o outro lado, sem acordar, morta. Ele olhou para a moça e teve um desejo incontrolável de colocar seus cabelos atrás da orelha e acordá-la com um beijo no rosto, mas se conteve, cutucando-a de leve no braço esquerdo. Ela demorou um pouco para acordar. Mas, quando o fez, graciosa, sorriu, gemeu, esticou os braços delgados para cima e o abraçou pelo pescoço. Quase sem emitir sons, sussurrando, com aquela voz grave de sono, agradeceu: "Obrigada por dirigir, Ricardo, não estava mesmo aguentando mais, como chego em casa agora?".
Meus ouvidos não podiam crer naquilo e meus olhos esbugalharam na hora: "V-v-vo-c-cê sabe meu nome? Eu falei dormindo ou algo do tipo?". Ela, sorrindo aquele sorriso confortável da praia, seios e Maconha, replicou: "Ai... Você não lembra mesmo de mim, né?" Cada vez mais aflito e sem saber o que fazer, de onde tirar ideias e respostas: "É... Hmmm... Não... Desculpa?" Jogando sua cabeça rapidamente para o lado esquerdo, deixando seus cabelos longos e avermelhados, meio castanhos (era difícil definir a cor do cabelo dela, percebi naquele momento), ao sabor da inércia, expondo seu longo pescoço, ela disse: "Calma, relaxa, não fica tenso. Não precisa lembrar. Hoje sei que não dá mais aulas. Te sigo no Twitter e sei que trabalha com algo jornalístico, um Gon-sei-lá-o-quê. Mas fui sua aluna há uns anos". "Meu Deus...", exclamei, baixinho, como quem é chutado no meio da cara por uma epifania, "você é a Sa... É... Sa...". Ela me interrompeu, sem graça: "Sabryna, professor, Sabryna".
"Saaaaaaaaabryna, claro, lembro sim", exclamei, tentando oferecer alguma sensação de familiaridade àquela situação absolutamente constrangedora. "Nossa! Por que não me falou antes? Teríamos conversado, colocado as novidades em dia, coisa e tal", tentei, tosco, me sentir confortável com toda aquela insanidade. "Ah, professor, pensei que tivesse me reconhecido. Foi todo direto ao ponto ao pegar a Maconha nos meus seios, igual fazia quando era sua al...". Interrompi na hora aquele papo de louco, meio que gritando por entre os dentes: "Como assim? Faz tempo que não dou aula, mas se me lembro bem nunca tivemos nada, pelo amor de...". "HAHAHAHAHA", gargalhou Sabryna, me interrompendo de volta: "Tô brincando, professor, é lógico que não rolou nada! Você precisava ver sua cara agora, assustado, parecia um pinto sem a galinha-mão do lado!!!". Sorri de volta, deixei a adrenalina passar e tentei reatar algum diálogo, agora já ansioso por entrar logo em casa e encerrar toda aquela sequência retardada de eventos: "Nossa. Uau. É... E o que tem feito, afinal, Sabryna? Trabalha com o quê, agora, moda?" (de onde eu tinha tirado que ela trabalhava com moda, afinal? Enfim...). Ela me olhou estranho, cerrando os olhos, como quem quer entender alguma coisa e deixa pra lá: "Não, professor. Deixei a escola naquele ano em que dava aula pra gente, terminei meu colégio em Santa Catarina, precisei ir pra lá, longa história, fiz um ou outro curso de inglês e acabei virando prostituta, mas..." Antes mesmo que ela terminasse a frase, arregalei os olhos, no melhor estilo "mas que porra é essa", tentei entender como alguém anunciava uma coisa daquelas com aquela naturalidade, como quem pede um guardanapo na mesa do almoço e esperei sua risada típica, pescoço de lado, cabelo jogado, pescoço à mostra. Mas a risada não veio. Ela continuou a olhar pra mim, com cara de impaciência, como quem quer continuar o assunto e seguiu: "Então, deixa eu terminar? Acabei me tornando prostituta, mas não dessas de rua, né professor! Me tornei dessas de luxo, sabe? Lá na praia mesmo, então, estava com um de meus clientes fixos. Ele me paga uma grana pra ficar comigo todo o fim de semana. Esse carro mesmo eu ganhei dele, como pagamento, é novinho, eu gosto muito dele!" Enquanto apontava para a gorda morta no banco de trás do carro, seguiu: "Minha namorada não sabe o que eu faço direito, ela é muito ciumenta, então preciso fingir que meu cliente é, na verdade, meu sócio em algum negócio de importação e exportação, que é a única desculpa que consegui arranjar pra explicar a grana alta que entra de vez em quando lá em casa. Eu sou tão boa pra ele, que ele aceita ter a companhia dela em alguns de nossos encontros, ele me entende, sabe? É meu melhor cliente".
Não consegui replicar. Só fiquei olhando o rosto gracioso daquela ex aluna, que me confessava ser prostituta, com a mesma feição que eu usaria se precisasse explicar o Jornalismo Gonzo, naturalmente, até com certa euforia, como se estivesse pregando algum tipo distorcido de evangelho. Não suportando a pausa, ela seguiu: "Então, professor, mas, assim, agora, estou pensando em fazer artes cênicas. Talvez eu faça algum curso de atuação fora do país, sei lá, quero ser atriz, o que você acha?" Aquilo me parecia um clichê tão cômico, que preferi não seguir o assunto: "Ah, Sabryna, vamos continuar essa conversa outra hora? Está tarde, estamos cansados, sua namorada ciumenta pode acordar a qualquer minuto e não sou seu sócio". Rimos juntos, ela super confortável; eu visivelmente nervoso. "Tá bom, professor", dizia, enquanto procurava no porta luvas alguma coisa, "fica com meu cartão e me liga. A gente se vê, bebe alguma coisa, coloca a conversa em dia, como você mesmo falou. Não vou cobrar nada... HAHAHAHA".
Percebi, no exato momento daquela gargalhada e virada de pescoço, que era somente eu que me sentia desconfortável com aquela situação. Sabryna era o que era, prostituta. Desde a adolescência escolhera aquele caminho, estava acostumada a isso. Era minha a estranheza. Ex professor, jornalista de rua, bêbado, drogado, selvagem, admirando-me com a insanidade daquela situação, como se ainda esperasse do mundo alguma ordem ou coerência. Mas é claro que eu ligaria para ela. Obviamente faria daquela menina objeto de meu próximo material Gonzo. Como ela teria chegado àquelas escolhas? Como se sentia a prostituta graciosa? Como era sua vida homoafetiva cercada de homens? Enfim...
"Ótimo! Mas vou te ligar mesmo. Vi que tem um email aqui. Vou te mandar meu telefone, aí você pode me ligar também. Contamos nossas histórias", exclamei, com a maior desenvoltura possível, assumindo o papel de jornalista. "Ai, que legal, vou adorar! Posso te escrever por email minha história? Tenho umas coisas muito loucas pra te contar, nem faz ideia!", disse-me, ansiosa, rindo, como uma adolescente que ganha alguma espécie muito bacana de presente de aniversário. "Claro, Sabryna, claro que pode, voou adorar", agradeci, como quem não precisa fazer qualquer esforço para ter uma boa matéria nas mãos.
Abraçamos um ao outro e ela me beijou o rosto, agarrando-o com as duas mãos. Sorri, abri a porta do motorista e dei a volta, enquanto ela passava do banco do passageiro. Olhei pela janela, apoiei meus braços, coloquei a cabeça para dentro e ela me perguntou, como uma menina de 13 anos, com o dedo na boca, olhando para o nada, extremamente sexy, mas nitidamente sem nenhuma intenção, perdida: "Como chego em casa?" Malandro, com toda a pose brega de macho alfa, que, mais tarde, descobriria ser para ela muito atraente, respondi: "Vi seu endereço salvo no GPS, marquei o caminho de volta para você, quando já estávamos chegando aqui, é só seguir, não tem erro! Se tiver dúvida, liga." Anotei meu número no braço dela, com certa dificuldade, o calor nos suava a pele. "Tá bom, Ricardo, quem vê pensa que era nosso professor de Geografia, não de inglês", sorriu, mordendo o lábio inferior, como quem via naquela frase algum tipo pervertido de flerte.
Despedimo-nos e, em meio a toda a excitação daquela série de eventos bizarros, só pensava em ligar para Fernando e contar o que tinha acontecido. Contar sobre como seria a pauta de nossa próxima matéria e contar sobre como tudo aquilo tinha me deixado, de algum modo, extremamente excitado. Porém, era muito tarde. Umas duas da manhã. Fernando acordava cedo para seu emprego babaca de terno e gravata. Porra! Mandei uma SMS por precaução. Fernando acordava muito desbaratinado quando o fazia despertado pelo celular, no meio da madrugada, algo comum entre nós, lunáticos; e isso me irritava muito. Me ligou de volta, bem rápido, por sinal...
"Ricardo? O que você quer a essa hora, seu porco?", esbravejou, voz grave de sono. "Caralho, Fernando, seu filho de uma pulta! O que você sabe sobre prostitutas de luxo?", perguntei, segurando o riso. "HAHAHAHA! QUE PORRA É ESSA?", respondeu, sacando na hora a referência de Hunter Thompson e Johnny Depp. "Prostitutas de luxo, cacete! O que você sabe sobre elas? Precisamos tomar providências urgentes! Acho que elas estão se infiltrando em nosso meio"...
Rimos juntos, conversamos mais um pouco, fumei um Lucky Strike, tomei uma ou duas doses de Jameson e planejei como seria minha ligação para Sabryna. Era dezembro. Estávamos próximos do Natal e do Ano Novo. Estava decidido em passá-los com ela. Bolava algum plano mirabolante para que dispensasse seus clientes e aquela namorada morta. Mal a conhecia, mas, de algum modo e por algum motivo, me sentia a porra do rei do universo naquele instante. E aquela era uma sensação intoxicante. Nada poderia me parar...
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sábado, 24 de março de 2012
réus confessos de amar...
por que escolhemos machucar ao invés de construir?
por que mentimos por entre os dentes ao invés de destilar honestidade?
por que exigimos prova ao invés de viver cada dia?
por que colocamos para baixo aquilo que deveríamos ostentar?
por que gritamos ao invés de falar bem baixinho?
por que agredimos quem deveríamos acariciar com dedos macios?
por que colocamos gelo em nossos rins sedentos por calor humano?
por que entregamos nosso ódio a quem só quer nosso sorriso?
por que ficamos no raso ao invés de irmos bem fundo em todas as nossas relações?
por que provocamos ao invés de condescender?
por que apressamos um pé machucado que só quer ser carregado no colo?
por que viramos o rosto para quem nos pede o corpo inteiro sob um chuveiro gelado?
por que nos mascaramos inteiros para aqueles que desejam tão atrevidamente nossos olhos nus?
por que oferecemos um silêncio egoísta quando deveríamos cantar histórias de ninar?
por que imitamos personagens bastardos quando o suficiente seria um pouco de nós mesmos?
por que prendemos o choro dentro do peito quando há quem nos colha as lágrimas com o coração aberto?
por que somos tão imbecis quando podemos ser singelos?
por que seguimos murmurando quando poderíamos cantar em plenos pulmões?
por que impomos nossas vontades quando poderíamos descobrir tantos desejos alheios?
por que insistimos na solidão quando nos oferecem um corpo inteiro para que moremos lá dentro?
por que insistimos em aprender da angústia quando poderíamos saber mais do feio amor?
por que falamos tanto de nós mesmos ao invés de entrevistar nossos melhores amigos?
por que usamos cordas de aço na garganta dos outros?
por que seguramos nossas mãos ao corpo, quando poderíamos ser oásis no deserto?
por que insistimos em derrubar quando poderíamos executar a maior obra possível de elevação?
por que insistimos em nossas metáforas monárquicas, quando simplesmente poderíamos dançar sobre o jardim?
por que falamos tanto e ouvimos tão pouco?
por que insistimos em vencer quando a simplicidade de compartilhar é tão mais cálida?
por que cometemos crimes hediondos contra o coração e tão somente não nos entregamos como réus confessos de amar?
http://www.youtube.com/watch?v=y8AWFf7EAc4&ob=av2e.
por que mentimos por entre os dentes ao invés de destilar honestidade?
por que exigimos prova ao invés de viver cada dia?
por que colocamos para baixo aquilo que deveríamos ostentar?
por que gritamos ao invés de falar bem baixinho?
por que agredimos quem deveríamos acariciar com dedos macios?
por que colocamos gelo em nossos rins sedentos por calor humano?
por que entregamos nosso ódio a quem só quer nosso sorriso?
por que ficamos no raso ao invés de irmos bem fundo em todas as nossas relações?
por que provocamos ao invés de condescender?
por que apressamos um pé machucado que só quer ser carregado no colo?
por que viramos o rosto para quem nos pede o corpo inteiro sob um chuveiro gelado?
por que nos mascaramos inteiros para aqueles que desejam tão atrevidamente nossos olhos nus?
por que oferecemos um silêncio egoísta quando deveríamos cantar histórias de ninar?
por que imitamos personagens bastardos quando o suficiente seria um pouco de nós mesmos?
por que prendemos o choro dentro do peito quando há quem nos colha as lágrimas com o coração aberto?
por que somos tão imbecis quando podemos ser singelos?
por que seguimos murmurando quando poderíamos cantar em plenos pulmões?
por que impomos nossas vontades quando poderíamos descobrir tantos desejos alheios?
por que insistimos na solidão quando nos oferecem um corpo inteiro para que moremos lá dentro?
por que insistimos em aprender da angústia quando poderíamos saber mais do feio amor?
por que falamos tanto de nós mesmos ao invés de entrevistar nossos melhores amigos?
por que usamos cordas de aço na garganta dos outros?
por que seguramos nossas mãos ao corpo, quando poderíamos ser oásis no deserto?
por que insistimos em derrubar quando poderíamos executar a maior obra possível de elevação?
por que insistimos em nossas metáforas monárquicas, quando simplesmente poderíamos dançar sobre o jardim?
por que falamos tanto e ouvimos tão pouco?
por que insistimos em vencer quando a simplicidade de compartilhar é tão mais cálida?
por que cometemos crimes hediondos contra o coração e tão somente não nos entregamos como réus confessos de amar?
http://www.youtube.com/watch?v=y8AWFf7EAc4&ob=av2e.
sábado, 10 de março de 2012
Eu vejo névoas...
eu vejo névoas...
vejo névoas em meu quarto...
vejo névoas sob meus olhos...
e névoas sobre meus pés.
eu vejo névoas.
névoas em dor de perdão.
névoas em paciência apaixonada.
névoas tristes de adeus.
eu vejo névoas.
e as espanto com meu leque surrado!
e as névoas levam meus cabelos louros!
e as névoas apontam minhas feridas!
não vejo as névoas.
estão sob minha pele pálida e emprestada.
um dia comandei navios e portos espaciais.
e hoje nu pelas névoas sem pátria.
onde estão meus olhos em névoas?
o que poderei enxergar, além do Mediterrâneo?
para onde me leva meu timão?
quais nomes dou às velas marrons?
mato! morro! sou! desfaço!
rolem, ondas eternas...
persigam os fantasmas disfarçados em pérolas de carinho!
abracem este navegante de luas minguantes...
enquanto me acharem as névoas, não chegarei ao fundo do mar.
quando as névoas me perderem, navegarei sem sentido.
respiro o vício da maresia.
aspiro terra seca sem esperança.
o norte não há, porque eu já não existo.
o destino não é o ponto de chegada.
as névoas não são metáforas de qualquer coisa.
minha vida não é o fim da história.
sob os joelhos, sinto as névoas que não vislumbro.
como pedaços de meu corpo, sangrando um rubro em pó.
diluído em sal, mar, névoas e carne viva.
estupro meu espírito, escravo de meu corpo imundo.
descalço...
manco...
vesgo...
em queda livre...
não existe final feliz.
e se for o interlúdio o que procuro?
de noite em noite, escuridão em escuridão...
só me deixem tentar de novo, para que eu erre, mais uma vez.
vejo névoas em meu quarto...
vejo névoas sob meus olhos...
e névoas sobre meus pés.
eu vejo névoas.
névoas em dor de perdão.
névoas em paciência apaixonada.
névoas tristes de adeus.
eu vejo névoas.
e as espanto com meu leque surrado!
e as névoas levam meus cabelos louros!
e as névoas apontam minhas feridas!
não vejo as névoas.
estão sob minha pele pálida e emprestada.
um dia comandei navios e portos espaciais.
e hoje nu pelas névoas sem pátria.
onde estão meus olhos em névoas?
o que poderei enxergar, além do Mediterrâneo?
para onde me leva meu timão?
quais nomes dou às velas marrons?
mato! morro! sou! desfaço!
rolem, ondas eternas...
persigam os fantasmas disfarçados em pérolas de carinho!
abracem este navegante de luas minguantes...
enquanto me acharem as névoas, não chegarei ao fundo do mar.
quando as névoas me perderem, navegarei sem sentido.
respiro o vício da maresia.
aspiro terra seca sem esperança.
o norte não há, porque eu já não existo.
o destino não é o ponto de chegada.
as névoas não são metáforas de qualquer coisa.
minha vida não é o fim da história.
sob os joelhos, sinto as névoas que não vislumbro.
como pedaços de meu corpo, sangrando um rubro em pó.
diluído em sal, mar, névoas e carne viva.
estupro meu espírito, escravo de meu corpo imundo.
descalço...
manco...
vesgo...
em queda livre...
não existe final feliz.
e se for o interlúdio o que procuro?
de noite em noite, escuridão em escuridão...
só me deixem tentar de novo, para que eu erre, mais uma vez.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Warren...
http://www.youtube.com/watch?feature=endscreen&NR=1&v=xZ8xO6BrZRU.
Saudades dos cabelos ruivos...
Saudades da guitarra, da gaita, do piano...
Ah, Warren...
Se eu pudesse mover os dias e as horas...
Se eu pudesse tocar o chão onde hoje se deita a morte...
Se eu pudesse...
Se eu tão somente pudesse girar a mandala da sorte...
Eu voltaria!
E te conheceria antes.
E tornava minhas decisões mais honestas.
E conheceria você.
E viajava por oceanos e vales.
E beijava seu rosto barbado e óculos fundos de vidas inteiras.
Ah, Warren...
E seria testemunha de suas amotinações todas...
E choraria suas feridas...
Como as minhas que choro agora, ouvindo tua voz cansada e rouca!
Ah, Warren...
Tinha mesmo que morrer?
Tão cedo e tão jovem e tão essencial.
Quero tua voz.
Guardada em caixas acústicas seculares e universais.
Quero teu cospomolitismo folk...
E teu provincianismo cosmopolita.
Quero odiar as cidades que odiou e viver as cidades que viveu.
Só quero te ver uma última vez e suar o suor de uma turnê.
Só quero poder abraçar teu grito e sussurrar das saudades que deixou.
Ah, Warren...
Canta uma última vez.
E fica no meu coração para sempre!
Saudades dos cabelos ruivos...
Saudades da guitarra, da gaita, do piano...
Ah, Warren...
Se eu pudesse mover os dias e as horas...
Se eu pudesse tocar o chão onde hoje se deita a morte...
Se eu pudesse...
Se eu tão somente pudesse girar a mandala da sorte...
Eu voltaria!
E te conheceria antes.
E tornava minhas decisões mais honestas.
E conheceria você.
E viajava por oceanos e vales.
E beijava seu rosto barbado e óculos fundos de vidas inteiras.
Ah, Warren...
E seria testemunha de suas amotinações todas...
E choraria suas feridas...
Como as minhas que choro agora, ouvindo tua voz cansada e rouca!
Ah, Warren...
Tinha mesmo que morrer?
Tão cedo e tão jovem e tão essencial.
Quero tua voz.
Guardada em caixas acústicas seculares e universais.
Quero teu cospomolitismo folk...
E teu provincianismo cosmopolita.
Quero odiar as cidades que odiou e viver as cidades que viveu.
Só quero te ver uma última vez e suar o suor de uma turnê.
Só quero poder abraçar teu grito e sussurrar das saudades que deixou.
Ah, Warren...
Canta uma última vez.
E fica no meu coração para sempre!
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Não mais a você.

O amor falha.
O sorriso falta.
O suor vai embora.
Não lembro seu rosto.
Olho suas fotos.
Olho nos seus olhos.
Seus olhos iconográficos.
Seus contornos pornográficos.
Minha rima idiota.
O amor é idiota.
Ou talvez nem seja amor.
Paixão foge.
O lastro são meus ossos.
Essa terra tem minha alma.
Essa gente tem minha vida.
Penso que controlo tudo.
Luto como Dom Quixote.
Divulgo mais do que devia.
Devo e nunca vou quitar a dívida.
Duvido por ter sido amaciado.
Amaciado como um bife.
De carne de terceira.
E sequer sou o mais falido.
Sinto raiva, sinto vivo.
Somos bobos.
Somos bobos.
Com o pior tipo de engano.
Porque vou continuar a amar mesmo sabendo que o amor falha.
Por: José José.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
bastardos!

tomem a balsa, seres infiéis.
tomem a balsa rumo ao norte!
quando cruzarem a linha do equador, abracem-se, homens honestos.
fiquem nus e se abracem.
não tenham mais medo de olhar nos olhos uns dos outros, tolos.
pronunciem com vigor as palavras absolutas da verdade, do amor, da fé, da honra, dos mistérios.
pronunciem!
vamos, vivam!
vivam e chorem.
vivam e corram.
vivam e sorriam.
vivam e se abracem.
vivam e comam.
vivam e briguem.
vivam e transem.
vivam e se transformem em seres humanos.
vivam e nunca mais sejam os mesmos.
vivam e busquem sua voz, oculta ao som dos grilhões.
vivam e ouçam.
vivam e regozijem.
vivam e gritem.
vivam e se desmascarem.
vivam e beijem.
vivam e persigam.
vivam e amem.
vivam e se desfigurem de toda a bondade da terra.
vivam e transformem a vida de alguém, destruam-na.
vivam e busquem sua voz, explícita ao som dos mares.
do contrário, de que vale essa vida?
qual o sentido da história?
e onde se declamará sua biografia?
mas quem foi que disse que a vida vale alguma coisa?
quem foi que disse que a história deve fazer qualquer sentido?
ou que biografias devem ser poesias declamadas ao ar livre?
quem teria a ousadia de declarar que o mundo gira conforme a nossa vontade?
vãos. é isso que somos.
passageiros e efêmeros.
surdos e pelados.
ingênuos transeuntes do espaço.
egoístas de nossas próprias desilusões.
desçam da balsa, órfãos repetitivos.
já é hora de descer.
ao norte não chegamos.
porque sabemos dele não existir.
que a frieza das sombras da morte nos abracem.
e o nosso lugar é bem próximo.
é chegada a hora de nossa morte.
que som é este? é o som dos bastardos!
e então, numa bela tarde de verão, daquelas em que o sol insiste em sua missão de iluminar o mundo de amarelo, eles se despediram. usaram aqueles mesmos instrumentos eletrônicos que antes serviam para "olá", "bom dia", "tudo bem?", "já pode?" e tantos outros símbolos em forma de palavras de amor. todavia, decididos em partilhar ao menos um último sentimento em comum, não se disseram adeus. entendidos da vida e de sua dor orgânica, perceberam que ela vai e volta. notaram que hoje é o dia da ferida; amanhã o dia da superação; depois de amanhã, ninguém sabe. disseram um doce "até logo". porque, nesta vida, os dias passam rápido, e os anos correm ligeiros como a chuva deste mesmo verão vespertino que hoje os abraçou, distantes. trocaram velhos enigmas, apenas para inaugurarem uma vida nova, a sós. o moço, épico, prometeu a espera costumeira, já dilacerada na primeira vez. a moça, ferida, não prometeu nada, mas sugeriu, em signos marinhos, que o sorriso poderia voltar a emoldurar seu rosto de alabastro... um dia, não agora, porque o agora machuca demais.
até logo, queijo branco... até logo, amor orgânico. até logo... até logo... porque já não conto mais o tempo... que ele passe... que ele voe... que ele não signifique nada mais...
até logo, queijo branco... até logo, amor orgânico. até logo... até logo... porque já não conto mais o tempo... que ele passe... que ele voe... que ele não signifique nada mais...
!_!_! Coroa explosiva do meu Grito !_!_!

Aqui jazem alguns que por muitas vidas amaram,e por ousadia não socaram dedos dentro de luvas e assim deixaram pingar em odor forte, o suor e sangue em forma de evidência.
Suor e sangue que evidenciam os fatos em imagem forte e som falho. Sem nem escutar uma ou mais batidas do coração -
que sem bater, bombeava mentira e tesão fingido para dentro de uma caverna escura -
que tinha odor de gozo de mulher, o tato era molhado, porém, doía como um hematoma roxo de criança. Estava ali e incomodava, mas um dia, quem sabe, a dor sara?
Por que fingir saber a língua quando a caverna vadia gozava um mundo novo?
!_!_! Coroa explosiva do meu Grito !_!_!
À mulher de cinza, a quase morte... Como odeio o teu sangue, sua escama maldita e fingida!
Mera mulher que veste um preto encardido. Não vê que veste um cinza sujo e não preto? Assim não me dá medo, apenas me perturba.
Mas antes que o Tempo em meu pescoço caia ao chão, eu lhe estupro a lealdade e como o seu perdão. Antes que o o Tempo quebre o chão...
À outra que está cega com escamas vaginais lhe cobrindo a vista.. Você é quem não sabe do que sou capaz por ferir o meu amado. Eu lhe caço a alma até o máximo de onde um dia chegou o seu amor.
Eu escalo todo o amor até o alto e lá de cima eu lhe finco uma Espada e te lembro até onde um dia você chegou por causa de um porco. Que sangre perdão e salve-o do caixão em que ele adormece, por um Tempo.
Por: Fernando Fernando.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Abram as cortinas e celebrem o fim da história.

Na virada das ondas.
Adeus.
Tic-Tac, Tic-Tac... É este o som dos passos da morte!
A mulher de preto tomou minha vida.
Lúgubre, o sol da manhã não se levantará de novo.
Incineração de todas as personagens.
Abram as cortinas e celebrem o fim da história.
Morto!
Ouço os sinos de um templo destruído.
Não vejo mais o além.
Idiossincrasias múltiplas, personagens esquizofrênicos.
Caiu o último bastião da glória das sombras.
A morte é o doce sonho dos porcos.
Mefistófeles!
Anjo da morte e companheiro de Satã.
Rastejo pela lama e sangue da inocência que pisei.
Incauto, meto-me em ácido.
Lúcifer!
Indica-me o caminho dos mortos.
Aqui não posso mais ficar.
NADA! É este meu remédio de não ser.
Ãnsia. Võmito. Òdio Pò!
Obliterado de todas as emoções.
Diga aos meus pais que os amo.
Indigno, nada mais importa.
Gonorréia, Sífilis, HIV e Lepra.
Afrodisíacos de um amor fingido, de pernas abertas e sem coração.
A morte é sólida, solução definitiva.
Deus odiaria a todos nós, se ali estivesse.
Exílio eterno, exijo para mim.
Uma coleção de palavras honestas desfez o homem.
Sexo! Drogas! Crimes! Gemidos! Dor! Clichês de uma vida que deixará de existir.
!
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
eu não sei escrever!

queria poder dizer que te amo!
queria poder voltar no tempo.
pra dizer que te amo.
pra esconder de todo mundo.
pra guardar você comigo.
pra dizer que te amo!
queria poder dizer que te quero!
queria avançar as horas.
pra dizer que te quero.
pra me esconder nos escombros.
pra construir nosso ninho.
pra dizer que te quero!
queria poder dizer das saudades!
queria controlar o tempo.
pra dizer das saudades.
pra me afastar dos vilões.
pra te revelar os segredos.
pra dizer das saudades!
queria dizer que te espero!
queria destruir o coelho da Alice.
pra dizer que te espero.
pra escrever maravilhas.
pra criar um mundo novo.
pra dizer que te espero...
amor, desejo, saudade, paciência.
o amor é feio.
o desejo, impuro.
a saudade, crônica.
a paciência, perene.
ah, se tão somente eu soubesse escrever...
eu diria que te amo.
diria que te quero.
diria das saudades.
e aprenderia a esperar.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Não entre na internet hoje!

Todos os dias o menino brincava as brincadeiras de sua geração. Vídeo Game, jogos online, internet. Era mesmo uma rotina aquela. Férias, enfim.
Ouvia todos os dias aquelas frases de uma geração que não era a sua. "Vai brincar lá fora, menino! Olha esse sol, que lindo". Porém, menino, continuava a brincar com aquilo que conhecia tão bem, vídeo game, jogos online, internet. "Mudar pra quê", pensava sozinho, arrastando seus dedos sobre o teclado verde de sapo.
Mas aconteceu um dia de acabar a luz, na casa do menino. Era de noite já. Sem vídeo game, jogos online e internet, o menino não queria dormir. Caçando pela casa, procurava o que fazer, monotonia. Não era desde sempre que o menino jogava os jogos de menino, já lera muitos livros, dentro e fora da escola. Não queria mais ler.
Andou pela casa e foi juntando uns cacarecos. Copos, panelas, papel alumínio, bichinhos de pelúcia da irmã, talheres, bonequinhos de ação. Montou uma cidade inteira, lá na sala, debaixo da mesa de jantar. E brincou a noite inteira, o menino.
Adormeceu. Acordou em sua cama, meio sem saber como tinha parado lá. Ansioso, correu para o vídeo game, jogos online e internet. Mas a luz não tinha voltado, coitado do menino. Ficou mesmo triste, melancólico, quase fora de lugar, sem saber o que fazer.
"É… fazer o que, né? Vou lá fora. Os meus amigos devem ter alguma idéia do que fazer sem luz", pensou o menino, cheio de esperança. E saiu.
Lá fora, sentiu o sol em sua pele tenra. Era uma sensação muito esquisita aquela, do sol, da brisa, da rua. Já tinha sentido aquilo antes. Porém, por sabe-se lá qual motivo, tinha se enterrado por anos no vídeo game, jogos online, internet. "Ah, se todo mundo da minha idade faz isso, deve ser legal", pensava o menino, antes de acabar a luz.
E correu. Brincou de futebol. Viu meninos e meninas. Conversou, pulou, andou, trepou e ralou os joelhos. "Até que isso de sair de casa é uma boa alternativa", disse o menino pra sua nova amiga da rua.
Esperto, logo o menino percebeu que toda a diversão da rua estava em brincar com outros meninos, com as meninas. O mais legal da rua era não precisar jamais ficar sozinho. Brincava tanto com meninos e meninas que sempre voltava sujo pra casa, férias de menino de rua, enfim.
Sujo de meninos e meninas, o menino se sentia vivinho. Dias e dias tinham se passado, a luz tinha voltado há tempos e o menino nem pensava mais em vídeo game, jogos online, internet. Só queria a rua, as esquinas, o medo e o delírio.
Sujo de meninos e meninas, suado do calor do sol, ralado pela brisa e com a rua sob as unhas, o menino brincava com a torneira. Fazia isso todos os dias. Metia a mão sob a torneira e se sentia molhado, balançando os dedos pueris. Um dia, dois dias, três dias, quatro, cinco… Era aquele seu momento preferido do dia, brincar com a torneira.
Até que um dia, ou uma noite, o menino apertou toda aquela água contra a torneira. Estava decidido a não deixar nenhuma gota de água ir embora. Apertava com vigor e insistência. "Não posso deixar a água ir embora, não posso, não posso!", pensava o menino, em transe. Entretanto, vencido pela força líquida, não podia fazer mais nada além de sentir a água escorrer pela palma de sua mão direita. Bem no meio de sua mão, o menino sentia cócegas. Bem no meio do peito, o menino ganhava coração. Bem no meio da noite, o menino virava homem.
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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
de olhos fechados...

De olhos fechados para qualquer realidade, abertos apenas para o abstrato. Se os abro, vejo as chamas. Prédios caem, uma criança chora, vejo pedaços de renda francesa preta se queimando no chão.
Mas, de olhos fechados, o chão é de vidro, e vejo toda a cidade iluminada sob meus pés. Imagine se pudéssemos ir pra qualquer ponto dessa cidade?
Tentei quebrar o chão de vidro, pois daí seríamos plenas, eu e a arquitetura. Mas no meio dessa viagem ao abstrato abri meus olhos. Ao contrário do que era antes, as chamas e rendas pretas carbonizadas vieram parar dentro de mim. Meu corpo são os prédios a desmoronar. Por fora, sou só aquela criança que chora.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Sentimentos em Carvão...

Uma parede branca. Entre várias paredes brancas. Algumas em móveis, quadros, detalhes em azul. Mas aquela parede branca, única, tinha o sabor das eras em carbono cru. Carbonizada, colhia a cada dia memórias finitas, condensadas, escolhidas e dedilhadas. A frase de uma música, o desenho de um prédio, o esquema de avenidas inteiras. Alinhavam-se naquela parede branca os sonhos todos, a cada centímetro, a cada segundo, a cada batida dos corações.
Muro das lamentações, guardava as lágrimas daqueles dias doloridos de saudade contrita. Sabe, aqueles em que se chora sozinho diante da única parede branca que pode receber as letras inenarráveis da dor lancinante de estar só?
Mural mexicano, recebia, sem cores, propagandas secretas de tudo o que poderia ser e não foi, ou foi, ou seria, ou não seria mais. Sabe, aqueles planos e projetos e ações e inações e desejos e perspectivas e conquistas?
Lousa, ceifava todo o pó do que se reserva da vida inteira, nossa, vil, humana. Sabe, aquela lousa dos ensinamentos das vidas vividas em dias e dias de olhares, informações e pressentimentos do destino?
Era uma parede branca. Só uma parede branca riscada de carvão. Não era nada mais do que uma parede branca em risca de giz negro. E, assim, singela e contaminada, resumia vidas inteiras. E, assim, cinza, sintetizava a magnificência de existir no mundo. E, assim, ambígua, simbolizava as metáforas da vida, luzes e sombras coexistindo em uma harmonia impossível, tensão orgânica.
De quantas vidas teria sido testemunha aquela parede? De quantas dores? De quantos desejos? De quantas frações de segundo? De quantos dias e noites redundantes?
Não importa. Já não importa mais. Ela é branca. E seus rabiscos não são mais meros rascunhos.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
LOVE IS A GOD FROM HELL

Imagem: http://oldworldcounterfeit.com/.
Crianças, o amor é um cão vindo dos infernos.
Aprendam com Bukowski. Somente para desaprenderem tudo.
Toda a poesia do mundo morreu com o holocausto?
E quem foi que disse que o holocausto morreu?
São tão ingênuos, em suas vestes politicamente corretas e mania de controle.
Boa sorte!
Não há nada de novo na vida, nada de bom na humanidade.
Respirem, pela última vez, o ar cúprico que os cercam.
Acordem! E morram.
Durmam! E morram mesmo assim, entorpecidos e imbecis.
Mas, nossa, que palavras fortes! Já vi melhores, mas são fortes.
E quem disse que tua opinião me importa?
Quem disse que me interessa quem és tu?
Apodrece no seio de tua paixão suicida.
Desintegra-te no íntimo de tuas vivências simplórias.
Afunda-te nos desejos de teus heróis bufões.
Tolo, ainda tem heróis?
Infante, ainda acredita na providência?
Rio-me de ti e dessas vãs esperanças.
A esperança é a coleira do cão do amor, vindo do meio dos infernos.
Calem-se! Todos!
Não preciso de interlocutor.
Afastem-se! Todos!
Não preciso de companhia.
Saiam! Todos!
Não preciso de audiência.
Fujam! Todos!
Não preciso de seguidores.
Ceguem-se! Todos!
Não preciso de admiradores.
Corram! Todos!
Que eu quero ficar sozinho!
Alguns se apegam a um deus que não existe.
Outros se apegam a um deus que os rejeitou.
Outros não se apegam a porra nenhuma.
Eu me apego a um par qualquer de pernas abertas.
Apenas para soltar como quem cospe na areia do deserto.
E todos se apegam a mim.
Como se de mim saíssem mistérios revelados.
Já alerto esse afeto: Eu me desapego!
Porque o amor é um cão vindo dos infernos!
E eu o tradutor sombrio de seus latidos!
domingo, 27 de novembro de 2011
"O Sol se põe em São Paulo" - Bernardo Carvalho
Terminei a leitura deste texto ontem, à noite, deturpando a perspectiva de compartilhamento da maioria dos bons leitores, grifando vários trechos considerados importantes. E não os grifei com lápis, instrumento efêmero; sim com aquelas canetas marca texto, de cor rosa, definitivo, mesmo que tendendo a desbotar com o tempo.
O fiz como uma declaração eterna de amor. Não apenas à cidade de São Paulo, que pensei ser o tema principal do texto em questão (quando o comecei a ler), como sugeria a capa, o primeiro capítulo. Todavia uma declaração de amor à todas as esquinas pelas quais passei neste ano de 2011, certamente o mais revelador de minha vida, já não tão curta como gostaria. Ainda, uma declaração de amor ao meu débil papel de escritor, tão intenso quanto pueril, mero construtor de máscaras e personagens planas.
O romance realmente não é muito bom, como vários meios de comunicação e críticos literários já anunciaram. Desconheço a obra completa do autor, porém, em termos literários, o texto deve muito. Apresenta uma introdução enorme, aflorando em romance apenas no penúltimo capítulo. Pareceu-me um grande roteiro de filme. Com riscos de grandes diálogos com o que é obvio na linguagem de cinema, ou seja: sujeito A quer conseguir seu objetivo B, mas aparece um elemento C que atrapalha tudo. Típica narrativa do suspense narrativo. Ou, quem sabe, mero deslumbramento com a cultura japonesa. Apresentada ali como tensão, entre as censuras familiares de uma cultura estática, imutável; e as possibilidades frustradas de transformação dos imigrantes nipônicos no Brasil. O próprio título do texto nos oferece tal sugestão. O Brasil é o lugar onde o sol se põe, frustrante, fraturado, lugar da morte em vida, sem metáforas.
E talvez esse seja justamente o ponto forte do livro. A relação entre os diferentes países e sua potência de gerar fraturas psicológicas marcantes e definitivas. O oriente e suas sombras, o ocidente e sua lucidez. Ambos revelam verdades, ou por acentuarem a essência dos personagens, ou por destacarem suas máscaras. Mais ou menos como disse Michyio: "No fundo, todas as máscaras confirmam quem você é. Pois é você que as usa. … o bom ator se revela nas máscaras. … o bom ator já não precisa delas, pois as incorporou". O que me fez pensar em um pequeno texto, na madrugada de ontem, que compartilho com vocês a seguir.
Quantas personagens vivemos numa só vida? Quando atuamos e quando vivemos efetivamente? Mas não é a atuação parte de nós? O que é viver senão atuar todos os dias, aqueles papeis escritos por nós mesmos ou entregues a nós, como roteiro adaptado? Quem somos, afinal? Autores autobiográficos ou personagens aleatórios, títeres insignificantes de certo autor que vaga por aí? São nossas falas diálogos criados a partir de nosso ego ou simples discursos engendrados por um roteirista mais esperto que nós?
Há quem tão somente viva, passo a passo, sem se perguntar sobre o próximo. Há quem, contudo, não saiba viver sem se questionar sobre cada passo a seguir. E nós? Quem somos nós? Qual operação usamos para seguir o caminho? Não somos nós apenas viciados em adrenalina? Ou essa adrenalina é parte de algo maior que desejamos ardentemente sentir? Finalmente, o que desejamos tanto sentir ao passar por essa vereda que chamamos de "nossa vida"? Não seria a adrenalina uma maneira de fugir do medo de passar pela existência sem sentir absolutamente nada? Temos medo de caminhar por aqui e não passarmos de "apenas mais um", medíocres, descartáveis e estéreis. Chega um momento na vida em que viver em timeline não parece mais o bastante. A "vida em timeline" é linda, plena em possibilidades, transparente e líquida, entretanto, insuficiente, vida de "mais um". Adicionamos, seguimos, aumentamos nossos círculos, mas clamamos por algo maior que nos dilate a pupila, acelere nosso coração e encha nossos pulmões. Algo... Ou alguém! Alguém que não torne nossa timeline monótona, sim faça a vida vibrar em ciclos muito menores, agitando-a como nunca se agitara antes! Fazendo nosso corpo transbordar com sensações e sentimentos antes só imaginados, pressentidos, porém completamente desconhecidos no tecido do real.
E, assim, fora da timeline, sugando cada gota que transborda de nossos corpos suados por adrenalina, acreditamos na posse orgânica de nosso fôlego. Não nos perguntamos mais se a vida é nossa ou não. Se o destino é desenhado por nós mesmos ou predeterminado. Se o livre arbítrio é real ou se nossos desejos são gerenciados pelos progenitores de nossa presença no mundo. Não nos perguntamos mais, porque acreditamos. Acreditamos, porque vivemos. E vivemos, sim, a vida que escolhemos. De novo, existem aqueles que acreditam numa existência automática, baseada em sabe-se lá quais princípios organizadores, externos à sua própria vontade. E existem aqueles que, como nós, enfrentam a oportunidade única de olhar a própria encarnação como uma possibilidade de escolha.
Claro, olhar a vida deste modo pode gerar movimento ou paralisia. E ambos, depois que se aprende a viver com o corpo carregado de adrenalina e sob o efeito de não ser "mais um", exigem coragem. Postos em movimento ou paralisados, após conhecer a plenitude de decidir o próprio destino, nunca mais somos os mesmos. Seja escolhendo a segurança e o conforto de uma vida imóvel, comandada por elementos externos a nós; seja encarando a glória e o brilho da vida que transborda todos os dias, estamos transformados, completamente novos na potência de estabelecer em nós mesmos a novidade de vida.
Enfim, quem escolhemos ser? Quais papeis decidimos interpretar? Seremos bandidos? Mocinhos? Ou a síntese da ruptura de todos esses rótulos? Eu fiz a minha escolha. Vida vadia, o que mais?
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Este é apenas um trecho de todo um capítulo que consegui tirar do campo das ideias desde ontem. Espero que este tempo de pausa hoje vivido por mim seja produtivo para o "livro verde".
Olhava para todos os lados daquele cubículo empoeirado, alheio e familiar. Sob aquele teto bege, maculado pelo tempo, sentia-se pequeno, frágil. Ocultado de si mesmo, tentava visualizar o que lhe seria o futuro, agora fraturado por suas próprias masmorras, auto-impostas. Regia sua vida como um condutor sem partitura, e se perdia por entre tantas notas em fuga, Si Menor, II Ato, sem piedade ou arroubos de misericórdia. Sua cabeça doía em ressaca. Sua memória parecia conservada em carvalho e a cada gole se transformava. Destilando-se, de grão em grão, nunca era a mesma, traidora de sua vontade. Lembrava-se do que bem entendia, e não obedecia ao controle do maestro. Inexistia qualquer mágica naquela maneira de evocar o passado, tudo era bruto, seco, sem chances de repressão; reminiscências em carne viva, em brasa, dor. Tentava controlar o torvelinho no fundo de um copo, dois, três, perdia a conta. E só alcançava confusão maior, notas dissonantes de uma sinfonia inacabada.
Ricardo, saudoso de sua bastilha e, ao mesmo tempo, aliviado por aquele abandono, tão repentino quanto esperado, vislumbrava os monumentos do tempo, personagem inexorável de todas as vidas de tantos universos, criados por ele ou simplesmente aleatórios. Começava a refletir sobre as obras da ocasião e percebeu, como que em milésimos de segundo de sobriedade em meio à ressaca da ressaca, que estava procurando a culpa de sua situação em algum elemento externo. O trabalho, as rotinas, os poucos amigos, os inimigos todos, os perseguidores, os "stalkers", os desocupados de vida besta, o tempo, o Destino, o coelho de Alice, setembro. Tentava ali, com sono, pânico e amargura, culpar o distante.
E foram estes segundos efêmeros de sanidade que transformaram Ricardo, mais uma vez. Todavia, comentaria ela, ouvindo o relato deste momento único dos lábios macios dele, se não fossem as doses todas de Irlanda em seu estômago revirado, não saberia valorizar os segundos sãos. E era verdade, a máxima verdade, como de costume.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Carta de Despedida.
Amigos, alunos.
Abaixo publico uma carta eletrônica recebida por mim, escrita pela aluna Gabriela Gusmão Barzagli, aluna do Colégio Wellington, da sala do 8ºI, no contexto de minha surpreendente e inesperada saída da referida instituição de ensino.
A carta me emocionou bastante, por sua emoção, carinho e maturidade.
Boa leitura a todos. Em breve ofereço explicações para esta saída do Colégio, tão repentina e indesejada.
Adrian, eu nem poderia descrever como eu e muitos outros alunos, a grande maioria, nos sentimos ao recebermos a notícia de que você não irá mais lecionar no Wellington. Quando eu entrei no colégio um aluno me contou que haviam te despedido, eu até dei risada porque aquilo não seria possível. Poucos segundos depois veio outro aluno, percebi que não era uma brincadeira, e automaticamente comecei a chorar.
Milhares de coisas passaram pela minha cabeça, mas eu realmente não acreditava naquilo que tinha acabado de ouvir. Quando cheguei na sala já estava soluçando. Chorei mais do que pensei que seria capaz, senti mais do que pensei que sentiria. Não era só eu que chorava, parece até que o colégio está de luto. De qualquer forma, sabemos que você não morreu, ou qualquer outra coisa que nos impedisse de nos reencontrar. Mas o impacto e o buraco que isso nos causou foi tão grande e tão rápido, que a dor e a tristeza foram multiplicadas. Não estávamos prontos. O que mais nos fez pensar é como e porque você nos escondeu isso "Será que ele não queria que sofrêssemos por antecipação?". O sofrimento, por antecipação ou não, veio. Não culpe-se pela nossa tristeza. Apenas fique feliz por saber que você será lembrado como aquele professor que fala com objetos, gosta de meias, meio louco... o amigo.
No dia 26 a sua última aula no colégio foi no 8º ano I, se não me engano. E você parecia tão... normal. Normal para quem não procurava um detalhe. Normal para quem não sabia que aquela era a última vez que o víamos saindo por aquela porta. Dói muito saber que não aproveitamos nossos últimos momentos como aluno e professor. Não sei se seria melhor ou pior termos sido avisados antecipadamente de sua saída, mas sei que sua intenção era de que ninguém saísse (mais) triste. Inevitável. É isso que ganhamos por termos boas pessoas por perto, bons sentimentos, bons momentos: lembranças. Não sou boa com despedidas, mas nunca disse que sou boa com lembranças. Mas saber que as nossas, talvez não todas, são felizes, me anima.
Pelo o que eu soube, foi por motivos pessoais que você teve que sair do colégio, e por mais que seja difícil, todos nós teremos que aceitar sua decisão, não podemos te controlar. Mas é que o amor, não sei se por todas às vezes, é egoísta. E agora tornou-se ainda mais claro de que você é um professor muito amado, e sempre será. Talvez seja drama demais dizer que nossos dias não serão mais os mesmo, mas provavelmente será muito difícil saber que a aula seguinte não é a "aula do Adrian", e sim uma aula de Geografia qualquer. Sem desmerecer nenhum professor que venha a (tentar) te substituir, mas, cara, você é insubstituível. Nos ensinou mais do que História e Geografia, nos ensinou vida. Assim como te disse na última vez que o vi na sala de aula, você é alguém que eu realmente quis (e ainda quero) conhecer de verdade, alguém instigante, interessante. Não me dou por satisfeita.
E nesse simples e-mail, mais do que tudo, eu gostaria de te dizer que espero que os alunos do Colégio Wellington tenham marcado sua vida positivamente, assim como você marcou as nossas. Espero continuar mantendo contato com você, alguém que se tornou tão especial nesses últimos anos. Independente do motivo pelo qual você teve que sair do colégio, desejo do fundo do meu coração que essa mudança seja para melhor, e que você seja feliz em seu caminho. Nem tudo que acaba tem um fim, está presente nos pensamentos, nos sentimentos.
Nós te amamos.
Gabriela Gusmão Barzagli, 8º I
Lágrimas ainda correm meu rosto depauperado. Amo vocês! Quero vocês de volta... Obrigado por tudo!
Adrian Theodor.
Abaixo publico uma carta eletrônica recebida por mim, escrita pela aluna Gabriela Gusmão Barzagli, aluna do Colégio Wellington, da sala do 8ºI, no contexto de minha surpreendente e inesperada saída da referida instituição de ensino.
A carta me emocionou bastante, por sua emoção, carinho e maturidade.
Boa leitura a todos. Em breve ofereço explicações para esta saída do Colégio, tão repentina e indesejada.
Adrian, eu nem poderia descrever como eu e muitos outros alunos, a grande maioria, nos sentimos ao recebermos a notícia de que você não irá mais lecionar no Wellington. Quando eu entrei no colégio um aluno me contou que haviam te despedido, eu até dei risada porque aquilo não seria possível. Poucos segundos depois veio outro aluno, percebi que não era uma brincadeira, e automaticamente comecei a chorar.
Milhares de coisas passaram pela minha cabeça, mas eu realmente não acreditava naquilo que tinha acabado de ouvir. Quando cheguei na sala já estava soluçando. Chorei mais do que pensei que seria capaz, senti mais do que pensei que sentiria. Não era só eu que chorava, parece até que o colégio está de luto. De qualquer forma, sabemos que você não morreu, ou qualquer outra coisa que nos impedisse de nos reencontrar. Mas o impacto e o buraco que isso nos causou foi tão grande e tão rápido, que a dor e a tristeza foram multiplicadas. Não estávamos prontos. O que mais nos fez pensar é como e porque você nos escondeu isso "Será que ele não queria que sofrêssemos por antecipação?". O sofrimento, por antecipação ou não, veio. Não culpe-se pela nossa tristeza. Apenas fique feliz por saber que você será lembrado como aquele professor que fala com objetos, gosta de meias, meio louco... o amigo.
No dia 26 a sua última aula no colégio foi no 8º ano I, se não me engano. E você parecia tão... normal. Normal para quem não procurava um detalhe. Normal para quem não sabia que aquela era a última vez que o víamos saindo por aquela porta. Dói muito saber que não aproveitamos nossos últimos momentos como aluno e professor. Não sei se seria melhor ou pior termos sido avisados antecipadamente de sua saída, mas sei que sua intenção era de que ninguém saísse (mais) triste. Inevitável. É isso que ganhamos por termos boas pessoas por perto, bons sentimentos, bons momentos: lembranças. Não sou boa com despedidas, mas nunca disse que sou boa com lembranças. Mas saber que as nossas, talvez não todas, são felizes, me anima.
Pelo o que eu soube, foi por motivos pessoais que você teve que sair do colégio, e por mais que seja difícil, todos nós teremos que aceitar sua decisão, não podemos te controlar. Mas é que o amor, não sei se por todas às vezes, é egoísta. E agora tornou-se ainda mais claro de que você é um professor muito amado, e sempre será. Talvez seja drama demais dizer que nossos dias não serão mais os mesmo, mas provavelmente será muito difícil saber que a aula seguinte não é a "aula do Adrian", e sim uma aula de Geografia qualquer. Sem desmerecer nenhum professor que venha a (tentar) te substituir, mas, cara, você é insubstituível. Nos ensinou mais do que História e Geografia, nos ensinou vida. Assim como te disse na última vez que o vi na sala de aula, você é alguém que eu realmente quis (e ainda quero) conhecer de verdade, alguém instigante, interessante. Não me dou por satisfeita.
E nesse simples e-mail, mais do que tudo, eu gostaria de te dizer que espero que os alunos do Colégio Wellington tenham marcado sua vida positivamente, assim como você marcou as nossas. Espero continuar mantendo contato com você, alguém que se tornou tão especial nesses últimos anos. Independente do motivo pelo qual você teve que sair do colégio, desejo do fundo do meu coração que essa mudança seja para melhor, e que você seja feliz em seu caminho. Nem tudo que acaba tem um fim, está presente nos pensamentos, nos sentimentos.
Nós te amamos.
Gabriela Gusmão Barzagli, 8º I
Lágrimas ainda correm meu rosto depauperado. Amo vocês! Quero vocês de volta... Obrigado por tudo!
Adrian Theodor.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Steve Jobs, conectando os pontos ao final da estrada...

Hoje não quero escrever sobre as mudanças que você proporcionou ao mundo inteiro, são inúmeras, incontáveis, magníficas. Apenas deixo esse memorial, dizendo que todo o meu mundo foi transformado pelas tecnologias que criou. Desde 2009 meu mundo gira em torno dos ícones de um iPhone, depois outro, depois outro. Hoje, defino amores inteiros dentro deste contexto de redes sociais, mobilidades, mídias, tecnologia, consumo, gadgets e você.
Steve Jobs, muito obrigado, mesmo. O seu sucesso abalou meu mundo, minhas próprias conquistas pessoais e meu modo de pensar a sociedade contemporânea. Não sei nada sobre como sobreviverá o mundo após suas criações, afinal o novo, como você mesmo já disse, está dentro de nós, alguém tomará seu lugar como ícone, ídolo, símbolo. Todavia sei que, hoje, meu mundo, é, mais uma vez, transformado por você, ficando mais triste com sua partida.
Todavia, a inovação está aqui. E decido viver minha própria vida. Somente para dar lugar aos outros, também no momento de minha morte, a maior invenção da vida, que dá lugar à renovação, por entre meus dedos, seja ela real ou metafórica.
[...Nosso amor é muito de autoria do Jobs! E as fotos, vídeos, dms, instagram, bump dando certo ou não... Ai, dói ): ...]
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