segunda-feira, 27 de junho de 2011

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Sempre me pergunto se a epifania pode ser comunicada! E sempre me respondo que não... E, como uma imagem definitivamente não fala por mil palavras, que somente o laranja, o amarelo, o vermelho comuniquem algum sentimento hoje.

Tchau.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

sobre morangos e champagne...

Abro a geladeira, é madrugada, dia de semana, perto de um feriado qualquer, está frio, não consigo deitar os olhos. A noite toda perturbou meu sono com muitas imagens circulantes. Imagens que passavam muito rápido, cenas da memória, visões, como que em curto, em flashes, piscando, oscilando, sumindo e aparecendo. Insone, ansioso e cambaleando, abri a geladeira. Toda a sua brancura iluminada me ardeu a visão. A brisa gelada me paralisou o corpo inteiro, seminu. Alvas e estéreis, as prateleiras não ofereceram nada. Como em um sussurro, a própria fantasia se confessou: "O que você procura não está aqui dentro". Eu queria o amor, queria muito o amor, mas só achei cubos de gelo. E, como que em uma fração de milésimos de segundo, de repente, era uma delícia segurar o cubo de gelo em minhas mãos descalças. Sólido e líquido, desfazia-se por entre meus dedos quentes. E, a cada toque, beijava-os, como quem nunca mais teria aquela oportunidade de novo. E, a cada beijo, o cubo, em água, transformava-se. Tornava-se, não sem se debater, parte de mim, eu dele. Celebramos ali, na escuridão, de olhos bem fechados, completamente cegos, o prazer da vida em meio a um mundo morto, envidraçado e vil. Tateando no escuro, achei um pedacinho de renda preta, já partida pelas chamas de um passado distante, vivo. Senti, mais uma vez, aquele perfume inesquecível. Dormente, inebriado e cego, fechei a porta da geladeira. Cobri o gelo com aquele pedaço queimado de tecido, apertei-o contra meu corpo, dormi. Naquele instante, guardei todos os meus rótulos dentro do peito. Descobri quem eu era, quem eu realmente era. E, nunca mais, apresentaria a mim mesmo ao sabor dos outros. Que se sufocassem todos ao redor, já não me importava mais.

drag queen

Hoje (não exatamente hoje) senti vontade de ter aquela peruca laranja, só para que viesse comigo, para qualquer lugar que fosse. Não me importa mais o destino, o caminho, a saída. Estou à deriva, como nunca pensei que estaria de novo um dia. Não me importa mais o jogo, as frases, os desafios. De todas as minhas metáforas, escritas, imaginadas e vividas, só me sobrou a fuga. Estamos em pé, no aeroporto, com uma mala cheia de dinheiro. Pensa logo! O dinheiro não é nosso. Mas e o coração?

domingo, 5 de junho de 2011

um dia eu escrevi um texto sobre a relação entre as pessoas e a arquitetura. era um texto breve, desses que colocam no papel percepções elementares sobre as coisas e as pessoas. o texto dizia que muitas vezes enxergamos toda a nossa realidade como simples paisagem. deste modo, veríamos os transeuntes como objetos, simples partes de um todo, metonímias das edificações, peças de um quebra-cabeças mental, cores primárias de uma estrutura imagética da metrópole, caleidoscópio.

todavia, essa relação se dava de modo inconsciente, como se não fôssemos capazes de apreender o fato de que não víamos as pessoas como gente, sim como tijolo. então, o texto, em um salto como este de agora, tratava do próprio espectador que, como tal, era incapaz de, ele mesmo, interagir com a cidade, seja em sua arquitetura, seja em seu espectro social. sem se aperceber, mais uma vez, era, ele próprio, pedaço daquela paisagem observada, não era sujeito, era conteúdo.

movido por este raciocínio, me colocava à disposição da cidade. fotografava suas cenas e cenários, suas ações e interações, sua estética, sua estática, seu movimento, sua paralisação. olhava as formas e cores da cidade. observava a catedral da sé, o teatro municipal, aquelas ruazinhas do centro (perto do teatro) onde se vê o infinito, o viaduto do chá, a estação da luz... tentava traduzir meu sentimento, queria, de alguma forma, metafórica ou não, fazer parte daquelas construções, encher os pulmões, ter as mãos livres, porém, sinédoque, me via paisagem.

então, como que de súbito, fui tomado, hoje, por um outro caco de ideia. uma noção de que durante todo o último ano essa inquietação arquitetônica simplesmente não fazia nenhum sentido, não tinha sequer uma fagulha de importância. por que me incomodava tanto, então? se não fizera cócegas em meu cérebro no ano anterior, e talvez não o fizesse de novo ano que vem, porque me angustiava a perspectiva da ausência do sentimento?

aí pensei, como que tentando me confortar a mim mesmo, em torvelinho: sabe, quando sentimos as coisas, elas podem parecer indiferentes dentro de nós. mas não o são. um dia elas saltam aos nossos sentidos como elementos essenciais à sobrevivência do coração, da alma. daqui a um ano, toda essa relação entre arquitetura e o ser pode não ser a sensação essencial de nossas vidas, mas estará lá, latente, como que esperando solução, conclusão, destino. a vida, como uma grande mão, nos puxa de um lado para o outro. cabe a nós, senhores de nossas existências, tentar a sobrevivência do que nós é essencial, único, palpitante.

pensei, mais uma vez, como que para não perder o hábito, como que para não perder a mão, como que para não perder a chance, em uma de minhas personagens... e lembrei de como ela me tem sido essencial nessas divagações todas sobre a sinédoque entre corpo e peças arquitetônicas. minhas angústias têm sido minoradas ao encontrar eco nas suas. ao falarmos ou escrevermos sobre essas relações todas, eu e minha personagem, sentimos um sentimento comum, igual, o mesmo. e ficamos apagando e reescrevendo nossas frases, insuficientemente boas. e ficamos fotografando e destruindo fotografias, por serem elas apaixonantes demais para aparecerem aqui neste espaço, todo indireto e em segredo. somos, juntos, um sentimento que não conseguimos traduzir, simplesmente pulmões cheios e mãos livres.

domingo, 29 de maio de 2011

quem era ela...


Fonte: monk3y.tumblr.com


Magnífica!

É uma imagem que roda a cabeça! Faz girar os planos todos, as ações, o fingimento de interpretação. É impossível olhar para você e pensar nas técnicas de fotografia, na estética fotográfica, nos estados de revelação e exposição. Olho para você e simplesmente sei de meu desejo, de minha atração, de minhas pulsões, todas juntas, em chamas dentro de mim, corroendo meu intestino.

Em qual dos seus dias teria sido esta foto atirada? Estaria perdida, a donzela arqueada por sua dor? Por que seu estômago queimava assim, sempre e tão intenso, em brasa viva? Seria ainda donzela, viva entre tantas decepções e buscas intermináveis? Qual seria sua formação, seu nascimento? Qual seria sua busca, seus achados, sua inquietação noturna e notívaga?

Era mesmo dor o que sentia? Por que se dobrava assim, todas as noites, sobre seu próprio corpo nu? Seria o desejo de que lhe beijassem os pés? Seria a vontade de ser possuída, ali mesmo, concretizando tudo o que sempre sonhou? Ainda sonhava, aquela menina em forma de mulher? Ainda sentia qualquer anseio além da própria inquietação de existir no mundo?

A qual mundo ela pertencia, enfim? Era este mundo, prático e duro? Era um mundo de fantasias, como o das crianças? Ou era simplesmente personagem viva de algum autor abominável, que a esquecera de alimentar os passos todos, deixando-a perdida e só? Era mesmo viva? Qual seria o próximo passo? Controlaria ela mesma a própria história, ou seria ela mergulhada, afogada por suas personagens todas? Finalmente, quem era o vilão? Quem era ela?

sexta-feira, 27 de maio de 2011

já perdi as contas de quantas personagens já criei, para mim e para os outros. já perdi as contas de quantos pedaços já ofereci ao mundo, adaptado e ator. mas, sabe, um dia sempre aparece um alguém que nos arranca os pães todos de dentro de nós! alguém que nos suga toda a alma, que nos revela o quanto podemos ser grandes, o quanto pode ser vasto o mundo que nos cerca. e, quando achamos esse alguém, único no mundo, percebemos que só existem duas saídas... viver a vida ao máximo, ou escolher a mediocridade de uma vida sem significado, seja pelo medo, ou simplesmente pelo conforto de não querer dar o salto que muda tudo. já não sei mais qual a personagem que vivo, e já não sei se me importo! 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

em uma esquina do mundo...

Não é fato de todos os dias encontrar alguém com quem passar o tempo.

Tampouco é fato de todos os dias simplesmente encontrar quem se ama.

O que encontramos, todos os dias, então? Com quem dividimos o tempo, baú de mistérios e tesouros da vida toda? Contra quem competimos, todas as manhãs, antes mesmo de o sol nascer? Com quem jogamos, flertes infinitos, até que o sol se ponha?

O que é a vida, se não mera sucessão de fatos aleatórios? O que é a existência, se não consequência daquilo que nós mesmos escolhemos ser, personagens que somos de nós mesmos, figurantes de nossa própria narrativa em primeira pessoa?

Não é fato de todos os dias encontrar quem se deixe levar.

Tampouco é fato de todos os dias simplesmente encontrar quem te beije.

O que encontramos, todos os dias, então? Com quem dividimos a boca, invólucro de sonhos e verdades incomunicáveis, indizíveis, só nossos? Contra que corpo lutamos toda semana, até que o sol se ponha, em uma tarde qualquer de sexta feira? Quais os motivos de nosso nascer do sol?

O que é você, se não quem tudo mudou, para sempre? Quem é você, se não quem escolheu dizer sim, tão somente para dizer não? Quem somos nós, afinal? Pessoas ou personas? Vivos ou personagens? Autores ou modestos expectadores?

Não é fato de todos os dias encontrar quem se comunique.

Tampouco é fato de todos os dias simplesmente encontrar quem te saiba inteiro.

O que encontramos, todos os dias, então? Com quem dividimos o peito, bumbo que vibra, honesto e fora de tom? Contra qual coração lutamos por meses, de cadência em cadência, compasso em compasso, como maestro que não suporta mais o peso dos próprios joelhos em câimbra? O que nos move a continuar tocando, conduzindo?

O que somos nós, que não mais existimos? Quem somos nós, depois de tudo o que se disse, tudo o que se fez, tudo o que foi? Somos pó? Afogados em um verde-mar do esquecimento?

Onde está minha deriva? O que fez conosco? O que fez comigo? Um só por hoje em um nunca mais?

domingo, 15 de maio de 2011

Laura, a moto e o monte.






Laura, um passeio de moto e sua jaqueta de couro bege. Ricardo, cabelos ao vento e seu coração de carne rubra. Um abraço, uma subida.

Ninguém podia perceber que seus olhos mareavam em verde infinito. Ninguém podia ver que suas pernas flamejavam febris.

No topo daquele monte, tomaram-se pela cintura e se beijaram, em chamas. Carbonizados, não morreram, transformaram-se, mais uma vez.

Envoltos em uma névoa densa, tentavam ver o que todos viam, as migalhas. Mas viam tudo, um amor maior do que a coragem, o pão!

Laura olhou fundo nos olhos de Ricardo. Vem! Não espero mais. Quero teu beijo racional, tua vida na minha. Vem morar dentro de mim. Agora!

Ricardo nem mesmo piscou os olhos. Abertos, lúcidos, tomaram o corpo de Laura. Brisa suave, não era mais sonho. Encarnado, sentiu-se vivo.

Laura ouvia cada palavra sussurrada por Ricardo em seu ouvido nu. Desejava-as todas, coração acelerado e estômago em brasa! Água no deserto.

domingo, 10 de abril de 2011

Um dia me disseram que ser escritor é mesmo fingir as ficções que se quer viver, ou ampliar as sensações daquilo que se viveu, ou ainda simplesmente interpretar os sentimentos que se poderia viver se a verdade das mentiras se efetivasse no tecido do real.

Não sei definir o ofício, que nem é meu, na verdade. Sei, simplesmente sei, que a dor é maior do que se pode suportar, quando se escreve, quando se vive "pela metade". É muito mais do que a duplicidade da vida, é a sua multiplicidade, fragmentada em cacos no infinito.

Nesta noite, tive a pior impressão do que se pode sentir quando se escreve sobre o que poderia ser a vida, se ela fosse alargada segundo suas emoções mais íntimas. Eu poderia dizer que a dor literária, por ser, ao mesmo tempo, tão próxima e tão distante da realidade vivida, é ainda maior do que as dores que sentimos em nosso dia a dia, caótico e inexato. (Des)fraturar a vida, impondo-lhe sua própria ordem, tem os seus custos, elevadíssimos.

Muito mais do que dores nas costas, reais e palpáveis; assaz além das enxaquecas cotidianas; em alto grau maior do que o excesso de trabalho, senti a dor de não ser o que exatamente se poderia ser se a vida estivesse no seio de uma página literária ainda em branco. O livro verde, o meu livro verde dos sentimentos, encerra toda a minha nudez, abre minha caixa torácica em retumbantes sons, nada guturais, de libertação do caos habitual.

Escrevem-se ali, quase que automaticamente, sem esforço do agente humano, sonoras vozes de perfeição, beleza, majestade, liberdade, prazer, contentamento. Claro, não se traçam apenas linhas do positivo da vida, mar cor de rosa. Todavia o negativo é ali ordenado, surge da necessidade do escritor, no momento prefigurado, planejado, sistemático.

Poder-se-ia dizer que, para acolá de tudo o que acabo de escrever, a dor maior é quando suas personagens escapam da dimensão escrita, e tomam vida própria. Contorcem-se, vibram, debatem-se e se tornam autônomas. Simplesmente insistem em não virarem personagens títeres. Ávidas por tomarem conta de suas próprias existências, as personagens se rebelam contra seu criador, transformando o teor de toda a obra, ferindo profundamente aquele que, agora passivo, quer apenas criar, transformar, reconstruir.

Com segurança, afirmo que, desde as penumbras de 93-94 (ainda insondáveis), não sentia tamanha dor, daquelas de chorar em voz alta no meio da madrugada, que insiste em amanhecer. Dor íntima, dor única, dor incomunicável – daquelas que não se pode narrar, seja pelo proibido, seja porque a narrativa é simplesmente impossível, incompreensível em si. Dor intransferível, do choque máximo entre o que se dissimula e o que se vive; o que se anseia e o que se tem. Genuinamente dor.

Hoje, após sono profundo, de sonhos conturbados com as personagens todas, acordo em desânimo, sem alma. O que haverá de vir? Inerte, aguardo o desdobrar das páginas opacas do livro verde. Vazio de grandes expectativas, apenas vivo, sem pensar em mais nada. O passo que muda tudo não acontecerá mais num piscar de olhos.

sábado, 9 de abril de 2011

o coelho ruivo de Raquel

Quando era ainda muito jovem, Ricardo foi levado pelos tios para uma curta temporada na Irlanda. Era Primavera, pensava Ricardo, que nunca conseguia muito bem contar o tempo, as horas, as passagens. E sabia-se na Primavera só porque as flores coloriam o chão frio daquele país nortenho, estranho.

Passava grande parte de seus dias observando a natureza, Ricardo. Nunca fora um menino cheio de impulsos por atividades, tampouco era contemplativo. Todavia, fora de sua casa, longe da companhia de seus pais, Ricardo não fazia nada além de olhar os campos, as flores, os coelhos.

Intrigava-se em especial com os coelhos. Percebera, já, ainda muito novinho, que a natureza seguia uma ordem, um padrão, uma norma. As flores nasciam na Primavera, os bebês demoravam nove meses dentro das mamães, os coelhos se reproduziam como coelhos.

Via os coelhos comendo, pulando, fazendo suas necessidades e até sendo caçados por outros animais dos campos, desconhecidos para Ricardo. Transformou-se, naqueles dias irlandeses, em um grande entusiasta da vida animal. Parecia até um daqueles homens do National Geographic, dizia tia Gertha. Não falava em outra coisa, coelhos para cá, coelhos para lá. Coelhos e coelhos...

Até que, menino da cidade, certo dia começou a olhar para os coelhos com alguma ansiedade. Ainda gostava deles, que fique claro, porém não os admirava com o mesmo brilho inocente de duas semanas atrás. Reflexivo, Ricardo começou a imaginar os motivos pelos quais os coelhos simplesmente não se uniam contra aqueles bichos que os atacavam, todos os dias, um a um, um por um. Não fazia sentido continuar a vida, comendo e pulando, se amanhã, ou depois de amanhã, algum intruso peludo atacaria seu irmão, sua mãe, ou você mesmo! Por mais bobo que parecesse, e era mesmo bobo, Ricardo não largava esse pensamento. Tentou até convencer o tio William a treinar uns coelhos na arte da autodefesa, mas era tudo em vão. Tio William parecia um dos coelhos e jamais entraria nessa de ensinar os bichos a se defender.

(...)

Por toda a sua meninice Ricardo mantinha vivo esse raciocínio pueril. Coelhos, autodefesa, rotina, ausência de mudanças. Até que, depois de várias Primaveras, já de volta à sua terra natal, mais velho, responsável, não pensava mais nos coelhos. Claro, nunca esquecera de sua passagem pela Irlanda, na tenra juventude, entretanto simplesmente vivia a vida - atropelado por ela muitas vezes, como dizia sua mãe - sem grandes entusiasmos, sem grandes fixações, sem arroubos, vivia.

Casou-se com Olívia, em uma cerimônia discreta. Convidaram apenas os mais próximos, os mais queridos. Poucos amigos da adolescência, pouquíssimos amigos da faculdade, os bons amigos do trabalho, os melhores da família. Toda aquela discrição e intimidade faziam o evento lindo, aconchegante, sóbrio.

A cerimônia acabou. A recepção ia já avançada. E Ricardo, ébrio de alegria (desde que conhecera Olívia, tornara-se abstêmio), aproveitava cada segundo de todo aquele dia. Nenhuma de suas reflexões sobre o passado lhe invadia a mente. Simplesmente vivia a vida, a melhor parte dela, acreditava, sem atropelos.

A noite de núpcias foi maravilhosa, inesquecível. A lua de Mel, luxuosa, Paris, Londres, Amsterdã. Os presentes, espetaculares, finíssimos. Com exceção de um, simples e, aparentemente, ingênuo. Em um embrulho de cetim muito bem feito, dourado, adornado por fitas de veludo preto, assinado por Raquel, Ricardo encontrou um coelho ruivo.

(...)

Ao longo dos anos, jamais perguntou à Raquel o sentido daquele gesto. Era ela sempre tão ácida e, ao mesmo tempo, tão sensível. Não queria nem sofrer de suas chacotas, tampouco feri-la os sentimentos.

Todavia, recôndito e secreto, em uma noite muito fria de outono, ao lado do single malt de seu tio William, sabe-se lá quantos anos depois - Ricardo sofria dessa dificuldade em contar o tempo -, finalmente sacou a mensagem. Tudo ficara claro para Ricardo. Mas nunca, nunca Ricardo sequer mencionou para uma viva alma sobre as revelações daquela noite fria de outono, na memória do coelho ruivo de Raquel.

domingo, 3 de abril de 2011

sobre o pão e as migalhas

Ricardo: - O pão e as migalhas. Nunca mais vou contar sobre o que sei. Calabouço das ideias sou eu. Joguei as chaves fora. Dou-lhe dois tiros e só.
Laura: - Por que fala assim comigo, Ricardo? Não entendo uma palavra do que diz. Estou ficando preocupada, não me parece mais literatura, na verdade.
Ricardo: - O homem é lobo do homem, e só. Guardo todo o resto em rótulos no meu peito. Não sou mais nu, não mais. Dou-lhe um tiro, é só.
Laura: - Por favor, Ricardo. Fala comigo. Chega de metáforas. Fala claramente. O que está acontecendo? O que devo entender de tudo isso?
Ricardo: - Ordenar o caos é trabalho vão. O inverso do que se diz é o que se sente, todos os dias. Migalhas, migalhas e migalhas... Cadê o pão. A arma está oca, não te sobraram tiros.
Laura: - Ai, Ricardo... Acho que entendi. Finalmente entendi. Me dá essa arma. Eu carrego pra você. Deita, no meu colo.
Ricardo: - De todas as migalhas que ofereci ao mundo, você foi a única que conheceu todo o pão.
Laura: - Eu sei. Agora dorme. Eu amo você!

sábado, 2 de abril de 2011

Os bocados são sempre bons, desta fruta a que chamam vida. Sempre bons de comer, lambuzar e jogar fora, no meio do asfalto negro molhado pela chuva. Há quem pense me conhecer, porque me lê nas entrelinhas do que se faz público, blog, twitter, facebook. Há quem pense que é isso a vida inteira, bocados que se oferece ao morador de rua. Há quem pense já saber de tudo, de antemão, sem sequer contar os inúmeros vãos do que não se diz, não se proclama, só se sente. Ai, a dor que se camufla, a alegria que se finge, o sucesso que se pretende. Ai, o louvor que se clama, a chama que se arde, o mal que se inflige. Ai, a companhia que se namora, a solidão que se tateia, a arte de não ser. Palavras, palavras, palavras! Somente palavras, nada mais. Ficção de estar vivo, sem ser. Linhas que se escrevem automaticamente, com o pavor de não ser lido e nunca mais saber de você. Nem me venha mais, porque não estou aqui. Nem me venha mais, porque não sou. Nem me venha mais, porque te sugo o coração, só para ter de volta o meu.

sábado, 19 de março de 2011

espadachim magiar




As espadas ziguezagueavam no ar, serpentes prontas para o bote definitivo. Em meio às palavras húngaras e aos ódios disfarçados, Ricardo apenas olhava, esperançoso em ser novamente um espadachim. Toda semana visitava aquela academia. Como quem não tivesse coragem de empunhar um sabre, Ricardo acompanhava cada movimento, sabia-os todos de cor, como quem assiste ao mesmo filme centenas de vezes.

Conhecia tudo sobre o esporte, desde os campeões olímpicos, até os lutadores amadores, nos becos perigosos de seu bairro rico. De Zhong e Pozdniakov a Jácobo e Estevão, admirava cada homem que dominasse a arte da espada. Identificava-se ainda mais com os dois últimos, lutadores ilegais, por sua eficiência e a negação constante em aceitar as regras impostas por um sistema autoritário e pedante.

Entretanto, Ricardo não conseguia levantar uma espada. Desde o dia do acidente, Ricardo insistia em olhar, prometera a si mesmo seguir por outros caminhos. Perguntava-se todos os dias, porém, os motivos que o levavam àquela fixação pelas visitas à Academia Magiar. Por que frequentar um ambiente que o levaria inevitavelmente por veredas indesejadas? Por que continuar dialogando com antigos amigos? Por que, enfim, simplesmente não conseguia virar as costas para as espadas, uniformes e gritos de combate?

Parecia-lhe um vício tudo aquilo. Semana após semana, todos os dias, com exceção dos sábados e domingos, Ricardo dialogava com as espadas, sem tocá-las, todavia. Corrigia mentalmente cada movimento equivocado de seus colegas, competia com cada um deles lutas imaginárias, épicas, sem fim. E, a cada semana, a cada dia, ao voltar para casa, indagava-se com peso na consciência sobre o sentido de tudo aquilo. Sabia que não deveria mais voltar ali, sabia que deveria encarar o presente, sua dádiva maior, sem olhar mais para trás. Por que simplesmente não se resignava, Ricardo?

Empacado, como mula ante o mata-burro, Ricardo, mais uma vez, olhava os espadachins da Academia Magiar. Era um dia de muito sol, fazia calor no assoalho liso de concreto, sob o teto de zinco. Suava aos montes, tenso e distraído.

Irritado consigo mesmo, decidiu-se colocar em movimento, em marcha. Tomou nas mãos as chaves de seu antigo armário, ainda seu, apesar da distância dos anos em que treinara ali, antes do acidente. Enferrujada, a fechadura teimou em girar. “Um homem ignorado é uma bala perdida, uma espada sem coração”, Ricardo repetia dentro do peito, para si mesmo, enquanto forçava o cadeado.

Retirou do armário a bainha de couro, ressecada pelo mar do esquecimento, quebradiça e marrom. Ao empunhar novamente sua espada, opaca pelo desuso, não sentiu nada. Pensou que seria aquele um momento vibrante e translúcido, mas tudo o que sentia era o suor de suas mãos e a frieza do cabo metálico de sua arma branca.

terça-feira, 15 de março de 2011

Depois de um dia cheio, com algumas alegrias pedagógicas, e outras tantas indiferenças, vou dormir. Acabo de montar uma avaliação de Geografia, e isso sempre soa tão pragmático, e só.

Gosto mesmo de encarnar personagens agradáveis e, por assim dizer, sedutores. Mas o mar da vida real é escuro, nem sempre verde-mar.

Adrian, Anna Bernnabar, Castle e Beckett... Quem realmente sou? Há ali, nas memórias e atos de ficção; na escrita automática e nas obras de literatura; algo do cerne de mim? O que efetivamente vivo? O que, ou quem, imito? Com quem dialogo em meus monólogos obscuros e tensos? O que mostro do que guardo aqui dentro, dos rótulos do meu peito?

Estou nu? Ou me cubro das centenas de máscaras teatrais, contraditórias redundâncias da aparência? Mostro-me ou sou? Quem?

sábado, 5 de março de 2011

à deriva...






(...) se os teus olhos fossem o mar, navegaria por eles a vida toda. Investigaria os recônditos de tua alma, secreta, pura, afável e minha.

Cruzaria cada camada do oceano infinito destas águas cristalinas e calmas. Remaria por cada baía e enseada, em busca do porto que me faria feliz o resto dos meus dias.

A nado, sim, a nado, sem medo, circundaria a auréola do verde mar de teus olhos. Passaria horas infindáveis pelos rochedos castanhos, no interior do alto mar.

Até que, carregado pela brisa leve de um piscar de olhos, afundaria no torvelinho do buraco negro do teu olhar. E ali, submerso e pacato, curado de todos os males que me agitam o ser, teria olhos somente para ti.

E só poderias enxergar a mim, a mim, a mim... À deriva... Onde o tempo não passaria mais.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

um dia após o outro...




É muito familiar o conceito de que escritores vivem diversas vidas diferentes, escrevendo peripécias e heroísmos, amarguras e tragédias; justamente por não viver vida alguma, soletrando solitário e duro, escuro e vil.

Ao viver vidas diferentes, os escritores são reconhecidos por sua extrema sensibilidade, por desfrutarem da percepção incômoda de absorverem as dores da humanidade inteira. Assim, deste modo, para que um escritor escreva, para que seja assim denominado, deve sentir, mais do que os outros, o seu redor: a brisa da manhã, a morte do suicida, o vôo do acrobata, o salto dos golfinhos em Bimini.

Fraturado, hoje não sou mais escritor. Foi longo o percurso que me trouxe até aqui, porém deixo de lado a pena, por tempo indeterminado. Não mais escrevo, pois não mais sinto. Como uma muralha hispânica que, de tanto emparedar a carne e os espíritos de touros e soldados, bezerros e escravos, deixa de absorver, e tão somente vive, impávida, por entre os escombros do mundo.

Não me importa mais a dor da humanidade, não creio nela. Não me interessam mais as camadas da dor, não as descasco. Não me preocupam mais a identidade e a formação do self, não reflito. Não me aparecem mais novas personagens, assassinei-as todas, genocida do espírito, que sou e não sou mais. Não me crescem mais novas ideias, seco e material. A filosofia foi deitar, dormiu. São, tudo e todos, sólidos em pó, esmigalhados por entre meus dedos ressurretos.

Este é o fim do Diário Halotano, o fim de Anna Bernnabar, o fim do novo começo, que não virá.

Adeus!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sobre a Política (Ou Sobre a Disputa)...


Foto: Carta Capital.


Chegou ao fim mais uma campanha presidencial no Brasil. E, como parecemos já acostumados, apesar da juventude de nossa democracia, mais uma vez o resultado é marcante pela novidade. Tivemos, no dia 31 de outubro de 2010, a primeira mulher presidente do Brasil; assim como, em 2002, o primeiro presidente operário de nossa história oligárquica. Muito se vibrou ontem com a vitória feminina de Dilma, muito além da supremacia de seu partido, em âmbito nacional. Muito se cantou, muitos, eu incluso, se emocionaram.

Agora, que caminhos levaram não apenas Dilma à Presidência da República, porém sim a este conjunto misto de emoções? Por que, comparando ao pleito de 2002, sua eleição tornou possível manifestações de alívio e lágrimas de seus seguidores e "votantes críticos"? Certamente foi esta a campanha eleitoral de disputa mais aguerrida desde o fim da ditadura militar. Opuseram-se forças de um conflito que se coloca no Brasil (ou assim se quer colocar) desde os tempos coloniais. A Direita das elites e a Esquerda dos que sobram.

Sou jovem também, assim como nossa democracia (ainda mais jovem do que eu), e não tinha visto ainda tamanho jogo de forças em uma campanha eleitoral. E digo isso depois de ter participado ativamente da campanha Lula em 2002. Ali, distribuí panfletos, adesivos, fiz corpo a corpo e comprei briga em todos os campos em que atuava, da Universidade (Pública e para Todos) à casa de meus pais. Mesmo ali, em meio ao preconceito de classe e aos deboches de nove dedos, não havia sentido a força desta direita ranheta e rancorosa. A força de suas alianças nefastas com a mídia nativa (nos dizeres de Mino Carta); a força de seus preconceitos de classe, de região, de religião e de gênero; a força de sua vitória a qualquer custo.

Desde os estudos realizados por mim sobre a imprensa na ditadura militar (amordaçada de um lado, cooptada de outro), não encontrava tamanho uníssono em suas versões sobre o pleito. Desde a mídia impressa, até a televisiva e radiofônica, todos pareciam, em níveis de exposição diferentes, apoiar apenas o tal candidato da chamada oposição. Nunca senti tão intensamente a hipocrisia de uma mídia que, autoproclamada imparcial, defendia a qualquer custo sua posição eleitoral e eleitoreira. Neste sentido, o fade out da globo no candidato José Serra, após o término do debate do 2º Turno, é apenas o fechamento patético do que foi, para mim, a mais nova derrota midiática brasileira. Os esforços foram Hercúleos, a derrota, fragorosa.

Para além das fronteiras da prensa, do rádio e da TV, o "corpo a corpo" dessas eleições foi nauseante. Escancarou-se, mais uma vez, o preconceito regional como algo a ser debatido exaustivamente em um país que se quer democrático. Como educador, percebi com assombro outros ditos educadores proferirem frases do tipo: "Claro que no Nordeste ela ganha, e lá nordestino sabe escolher, é só ver as vitórias do Lula"; ou: "É claro que existem cidadãos menores e maiores. Gente esclarecida devia pesar mais na hora de votar"; ou ainda: "É... A quantidade de votos da Dilma entre os de nível superior aumentou. Também, com esse monte de gente vindo do Nordeste pra cá e se formando em qualquer universidadezinha particular...". Assim, a vitória da Dilma foi mais do que o resultado da exposição de ideias para o futuro do país, foi um desabafo dos cidadãos menores, contra o domínio de uma elite preconceituosa por definição.

Se partirmos para a análise dos preconceitos de gênero, a lista de insultos se tornam infinitas. O machismo basilar da cultura brasileira (em extinção, desejo) se manifestou das mais variadas formas, escancaradas e veladas, bem ao sabor nacional. Desde os famosos chamamentos homossexuais, até a última vergonha serrista, ao convocar a beleza feminina para convencer seus companheiros de cama a votarem no PSDB (o partido arauto da família e dos bons costumes). Muitas vezes me perguntei há quanto tempo a democracia brasileira permitia o voto feminino e sua respectiva participação política, pois me sentia envolto em uma atmosfera oitocentista. E um oitocentismo tão anacrônico, que me parecia até mais limitado em suas possibilidades políticas. Até o século XIX parecia permitir mais conquistas do que o nosso XXI.

Enfim, nunca se viu, aos quatro cantos do Brasil, tamanho ódio envolvido em uma campanha eleitoral. Da bolinha de papel aos balões d'água, a corrida presidencial substituiu (no 2º turno mais do que no primeiro) a discussão de projetos pelos ataques pessoais. E, mesmo assim, até neste sentido foi uma disputa desigual. Alguém aí pode pontuar com destreza os ataques feitos diretamente a José Serra como indivíduo? Algo se disse sobra sua hombridade? Devassou-se sua vida política na época da ditadura? Questionou-se sua vida de homem casado, mesmo após os infindáveis flertes com jornalistas femininas? Não Lembro... Entretanto, o que se diz sobre a outra candidata? Desde sua visita ao neto recém nascido no Sul, até sua luta contra uma ditadura suja e inclemente, Dilma não foi poupada. Chamada de Lula de saias, sapatão, terrorista, ditadora, Stalin e outros tantos adjetivos de alto nível (típico de "cidadãos esclarecidos", não?), foi perseguida em todos os momentos não por seu projeto de futuro para o país, sim por ser a mulher que representava interesses maiores do que o das elites (elite esta que, ao longo dos governos Lula também enriqueceu, vale lembrar; tornando a sua oposição ainda mais irracional e odiosa).

É neste sentido que a "esperança venceu o ódio", como havia vencido o medo em 2002. Venceu o ódio de classe. Venceu o preconceito de gênero. Venceu a cidadania maior. Venceu a mídia nativa e conservadora. Venceu o próprio conservadorismo.

Assim, que todos esses setores sociais, vencidos na corrida presidencial de 2010, possam repensar não suas estratégias eleitorais (esse marketing político fora de moda), todavia justamente sua visão do que é o Brasil, e de quem efetivamente decide as campanhas eleitorais. Inexistem cidadãos menores, exatamente porque o Brasil é grande demais para que uns "poucos" continuem a governar a opinião de tantos "muitos".

Adrian Theodor, para o Diário Halotano.

domingo, 17 de outubro de 2010

ah, não me enche o saco, tô contando uma história...



(...)
uma vez eu vi um jacaré. era gigantesco, o maior que eu já vi, muito mau, com cara de bravo. ele estava comendo um outro bicho, acho que era um cavalo, mas eu não lembro. o bicho foi tomar água no rio, e o jacaré estava escondido, ninguém conseguia ver o jacaré na água, nem o cavalo. aí, foi muito rápido, aí o jacaré mordeu a cara do cavalo. e um monte de jacaré, tudo ao mesmo tempo, nossa era rápido demais, começou a nadar, apareceram do nada, você precisava ter visto, eles nadaram e foram ajudar o outro jacaré a pegar o cavalo. e os jacarés começaram a mastigar o cavalo. o rio ficou vermelho de sangue e os jacarés comeram o cavalo. não sobrou nada, comeram tudo, muito rápido, nem deu pra ver direito.

(...)
um dia eu sonhei com um avião. era bem grande, daqueles que voavam em cima do oceano. tinha um monte de gente dentro do avião, que estava voando muito baixo, em cima da cidade. acho que era são paulo mesmo, eu conhecia aquele prédio de algum lugar, mas eu não lembro direito. aí o avião estava voando, em cima dos prédios, muito baixo. e de repente ele começou a descer. dava pra perceber, mas eu não sei como, era um sonho, sabe? daqueles que você sabe o que vai acontecer mas não sabe como você sabe. então, dava pra perceber que ela ia cair naquele campo. e começou a cair e bateu no campo. e bateu de novo e de novo. sabe? igual uma bola de futebol, ficou batendo no chão e rolando e explodindo e um monte de gente saiu correndo, de medo, gritando olha o avião, corre, fogoooo. aí eu acordei todo suado.

(...)
tinha um portão azul, bem grande, que abria um quarto escuro que nunca acendia a luz. e vinha um tigre, daqueles brancos, e o homem do tigre pegava a espada e abria o portão azul. e era muito escuro, aí ele tinha que voltar e pegar uma luz. vinha um lobo, daqueles pretos, e a mulher do lobo era amiga do homem do tigre e ela tinha a luz. e eles tinham que passar pela floresta e conseguir levar a luz pra acender o quarto do portão azul, que ficava na cidade, era longe demais. e eles ficavam andando e o tigre e o lobo vinham atrás, protegendo eles. e a mulher caiu em um buraco, bem fundo. e o homem tinha que achar uma corda, para ajudar a mulher e não cair no buraco fundo. e ele voltava tudo de novo, e fazia uma corda de cipó e ajuda a mulher, que agradecia e dava um abraço. eles continuavam e o homem era atacado por uns inimigos da floresta, e eles lutavam e o tigre e o lobo se machucavam muito. e eles tinham que voltar tudo de novo pra encontrar um homem que cuidava dos animais e curava os machucados. só sei que sempre que eles estavam bem perto do portão azul acontecia alguma coisa e eles tinham que voltar tudo de novo, muitas vezes. aí... eu não sei o final da história.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Prostituindo a Pena!

hoje me olharam de viés e me chamaram de biscate.

então eu tentei revidar, olhar no olho e gritar que me olhasse de volta. que seus olhos tocassem meus olhos e tivessem coragem de repetir tudo aquilo. eu dizia: "bate na minha cara e me chama de putinha! ao menos olhe na minha cara, filho de uma puta!"

só o que me vinha de volta era um rosto carrancudo e inerte: "prostitua sua pena, maldito! dobre seu corpo até que não sobrem mais calças ou dignidade. você não é nada, não é ninguém. 20%. É tudo o que eu te dou!"

sorri. lúcido como nunca. algum dia tinha sido diferente? em algum momento tratou-me com o respeito que eu sempre mereci? algum dia havia recebido eu algum reconhecimento pelo árduo trabalho de dias e dias, noites e noites, madrugadas inteiras, incansáveis, insones, desvirtuadas e vãs?

nunca! só frigidez e desalento. a solidão daquele quarto escuro de estações repetidas. a mesma sineta de horários contínuos sem intervalo. sempre nu, desnudo e pelado. sempre transparente, oposto ao velado de seu rosto carrancudo e inerte.

"ajoelhe-se, seu pedaço de bosta! lamba minhas botas com sua saliva, sua risca de giz, sua esferográfica azul barata e grotesca. que se fodam suas belas ideias sobre o mundo e nossas crianças. não passa de uma poliana, ingênua, pobre, tola e submissa".

sempre sem olhar no meu olho, chutou-me o meio da boca. mordi minha língua e não consegui mais falar coisa alguma. resignei-me, recolhi-me em meus cacos, calei-me e apenas senti a dor, as dores, muitas. chorei.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sobre a Rotina...



Uma panela de pressão canta na janela ao lado.
O casal espera seu feijão dominical como quem quer amar para sempre.
Era três da madrugada e a tevê continuava a soar, diário de imagens e sons.
Quatro pedaços de pizza se debruçavam sobre o papelão reciclado, oposto à novidade dos recém casados.
Cinco meses os separavam daquela vida de solteiro, já tão estranha quanto distante.
Há seis dias esperavam para saber do câncer do marido, seria câncer?
Bem que no sétimo dia poderia o hospital ligar informando um alarme falso!
Passariam os próximos oito meses comemorando a notícia, que certeza.
O sono os arrebatou e às nove da manhã o alarme ruge.
A esposa entregaria hoje seu décimo projeto arquitetônico na nova empresa.
Eleven Forever era a multinacional em que trabalhava, no gigantesco edifício marginal.
Ao meio-dia o marido resolve se levantar, vantagens de se trabalhar em casa.
Do alto do 13º andar de seu apartamento, contemplava o tráfego preguiçoso da hora do almoço.
Contou quatorze carros vermelhos e preparou ovos com orégano e azeite.
Somente às quinze horas a esposa conseguiu fechar o contrato tão aguardado, tirou o dia de folga.
Comprou um lanche de R$16,00 e passeou pelo shopping center.
Dezessete lances de escada depois, encontrou o presente ideal para sua celebração, a coleção mais recente das series favoritas do marido.
Às dezoito horas ela chega em casa e o beija!
Ele, exausto, pinga dezenove gotas de seu remédio para dor nas costas, o motivo pelo qual não conseguia mais trabalhar fora de casa.
Onde estaríamos daqui a vinte anos? - perguntam-se, apaixonados.
O que teria o século XXI reservado para nós dois?
Vinte e dois minutos depois de se abraçarem no sofá, o marido foi chamado para seu compromisso noturno com os movimentos intestinais, sempre no mesmo horário.
A esposa checou suas vinte e três menções no twitter, sentia-se importante.
À meia-noite, sorrindo o mesmo sorriso, deitaram-se, ao som da chuva, sobre a rotina da vida inteira.