quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Steve Jobs, conectando os pontos ao final da estrada...




Hoje não quero escrever sobre as mudanças que você proporcionou ao mundo inteiro, são inúmeras, incontáveis, magníficas. Apenas deixo esse memorial, dizendo que todo o meu mundo foi transformado pelas tecnologias que criou. Desde 2009 meu mundo gira em torno dos ícones de um iPhone, depois outro, depois outro. Hoje, defino amores inteiros dentro deste contexto de redes sociais, mobilidades, mídias, tecnologia, consumo, gadgets e você.

Steve Jobs, muito obrigado, mesmo. O seu sucesso abalou meu mundo, minhas próprias conquistas pessoais e meu modo de pensar a sociedade contemporânea. Não sei nada sobre como sobreviverá o mundo após suas criações, afinal o novo, como você mesmo já disse, está dentro de nós, alguém tomará seu lugar como ícone, ídolo, símbolo. Todavia sei que, hoje, meu mundo, é, mais uma vez, transformado por você, ficando mais triste com sua partida.

Todavia, a inovação está aqui. E decido viver minha própria vida. Somente para dar lugar aos outros, também no momento de minha morte, a maior invenção da vida, que dá lugar à renovação, por entre meus dedos, seja ela real ou metafórica.

[...Nosso amor é muito de autoria do Jobs! E as fotos, vídeos, dms, instagram, bump dando certo ou não... Ai, dói ): ...]

sábado, 10 de setembro de 2011

A Rainha e o Capitão

Todo capitão navega sob uma bandeira. Eu, caveira branca em fundo preto. Corsário, encarno o motim dos amores e desejos inomináveis.

Relegado à pirata, não pela monarquia que me governa, mas por seus opositores, não navego à deriva, salvarei a rainha no seio de seu castelo.

Salva, não exercerá poder sobre aquele reino decrépito. Governará a nação de nós dois. E, sob seu cetro, nunca mais os bárbaros passarão!

Minha rainha nunca me transformará em rei. Serei sempre seu capitão em armadura de cetim, pronto para as batalhas de sua casa de bonecas.

Não há caminho de volta. Nada mais importa. Eu só preciso de você. Entre em meu navio, sou seu capitão amotinado. Você é o meu amor.

(...)

Elevem vossos grilhões, oh inimigos do reino! Elevem vossos grilhões e esperem pela força máxima de minha paixão! Eis que me levanto…

…e recrio da escuridão todas as coisas. Capitão dos desejos e das sombras é o meu nome! E você? Como se chama, oh escravo das masmorras?

A abundância de vosso rigor fortalece as chamas de meu peito líquido. Minha força é infinita, vosso poder inamovível. Preparai-vos!

Preparai-vos para a tempestade que trago à vossas águas! Preparai-vos para o fim de toda a doçura! Preparai-vos para as dores do combate!

Não há treinamento para a dor que agora sinto. Nem palavras que descrevam o ato final desta redenção. É chegada, é chegada a hora do juízo.

Estais prontos para perder tudo o que ama? Tens coragem de empreender a batalha secular que preparei só para vós? Eis que sereis derrotados…

…no interior de vossa casa das prisões eternas. Manifestai-vos, escravo das masmorras! Tão somente para capitular ante o fio de minha espada.

(...)

E seguiam, o Capitão e a Rainha, trocando mensagens proibidas através de pombos correio secretos. Letras de morte, amor, juras eternas.

A distância cruel do cativeiro os atormentava o ser. Confundia a percepção de seus sentimentos, mas nunca sua certeza! Era amor, era amor.

A sós, no segredo cativo, entoavam hinos em nome de sua adoração mútua, interminável, deles! Quais os deuses que contemplavam agora?

Eram aqueles de seus pais? Eram aqueles dos mitos do passado? Eram deuses engarrafados? Ou eram eles mesmos? Teocêntricos de si mesmos!

Encastelada e velejando, sonhavam com o dia do encontro, do pra sempre, do pra nunca mais, do pra mais ninguém. Olhavam-se, paredes e velas.

A distância apenas os encorajava a arriscar tudo. Paredes e velas. Alçapões e mastros. Cabelos e tapa olhos. Ela e ele, ninguém mais!

domingo, 4 de setembro de 2011

amor orgânico




Não sentei sobre este teclado até que minha vontade de ir ao banheiro fosse incontrolável. Posso dizer, com segurança, que minha bexiga vai explodir em alguns minutos; cuidei, nas últimas horas, para que ela estivesse exatamente assim, tensa e pronta para despejar seu conteúdo na primeira oportunidade. Penso não se fazer necessário explicar o meu sentido de urgência ao escrever este texto.

Agora, pesado, posso refletir sobre o que significa o amor orgânico. Sobre o que significa amar tanto um sujeito, que seu corpo clama por ele. Não é disso que tratam os filmes de Hollywood, sempre tão limpos e higiênicos, de amores que se consertam na tessitura própria do enredo. Os amores de cinema são plásticos, não orgânicos. São bonitos, mesmo quando feios. Reformados, recriados, amenos.

Talvez seja certo moralismo às avessas de minha parte, mas o amor orgânico, este que sinto hoje, é carnal e vivo. Vem aqui de dentro da bexiga, dói nos intestinos, sente-se nos rins. Claro, é sentimento, toca o ~coração~, este mito de sede das sensações, quartel general dos sentimentos todos, organizados e confusos. Entretanto, é governado pelas entranhas do corpo nu, da pele nua, da razão em carne viva, aberta e suja.

Áspero, o amor orgânico não fica à deriva. Exige ação contínua. É exatamente o inverso de estar no meio do oceano, esperando os acontecimentos que se desdobram em sua volta, morno. É precisamente o que se sente ao experimentar o anseio de se encontrar um banheiro quando se está de bexiga cheia. É justamente o que se quer, na hora em que se quer, sem saber esperar ordens, julgamentos morais ou regras de etiqueta. Mais uma vez, urgente, ponto de exclamação, agora!

Liga-se diretamente às outras necessidade que costumamos chamar de vitais. O amor orgânico é beber, comer, cheirar, tocar, defecar, urinar, dormir, amar, adorar. Toma-nos em nossa essência, em nosso vigor, em nossa intimidade, em nossas vicissitudes mais primordiais e brutas. É como o puxar de cabelos do homem das cavernas, quando este encontrava sua parceria reprodutiva. Como querer consumir o corpo de quem se ama do mesmo modo que se mastiga cada fibra do salmão, no prato japonês. É querer salivar com a saliva do outro, morder com os dentes do outro, roer as unhas da ansiedade do outro, encher de ar os pulmões do outro, livrar as mãos do outro de todos os empecilhos que corroem sua felicidade, libertar-se a si mesmo através da libertação de quem se ama orgânicamente.

Ininteligível, o amor orgânico não pode ser decifrado por quem não o sente em sua plenitude. Se você não participa de uma companhia orgânica, jamais vai entender o que significa sentir dores agudas em um estômago que deseja dialogar com outro estômago, externo, amado, necessário. Nunca será capaz de comparar o tom de pele de seu amor com um queijo branco dentro de um pão de padaria. E, para além das metáforas e comparações estéticas, jamais vai querer mastigar a barriga de seu amor exatamente do mesmo modo que se mastiga o tal queijo minas, fresco e branco. Tampouco vai querer roubá-lo, em um beijo de língua, de dentro da boca do seu amor, somente para terminar de mastigá-lo, pleno de sabor orgânico.

Amálgama, o amor orgânico transforma dois corpos em um só. Todas as emoções, sensações, sensibilidade, raciocínios, necessidades, saudades, são parte de uma mesma identidade corporal. Os amantes orgânicos se lambem como gato ao leite, pois, na verdade, são parte da mesma entidade física. Lambem-se um ao outro, pois se lambem a si mesmos. Amam-se em todas as suas diferenças, justamente por encontrarem em si as maiores semelhanças que são possíveis em duas personalidades distintas. Não sentem falta da presença um do outro, mas necessitam orgânicamente da junção corporal, um no outro. Transformam-se em um só corpo, não mais se permitem viver separados, já não podem se dar ao luxo de voltar atrás. Pertencem-se, ou morrem. E eles querem viver!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

sobre a modernidade e os insetos






Viver num mundo cheio de oportunidade – cada uma mais apetitosa e atraente que a anterior, cada uma “compensando a anterior, e preparando o terreno para a mudança para a seguinte” – é uma experiência divertida. Nesse mundo, poucas coisas são predeterminadas, e menos ainda irrevogáveis. Poucas derrotas são definitivas, pouquíssimos contratempos, irreversíveis; mas nenhuma vitória é tampouco final. Para que as possibilidades continuem infinitas, nenhuma deve ser capaz de petrificar-se em realidade para sempre. Melhor que permaneçam líquidas e fluidas e tenham “data de validade”, caso contrário poderiam excluir as oportunidades remanescentes e abortar o embrião da próxima aventura. Como dizem Zbyszko Melosik e Tomasz Szkudlarek em seu interessante estudo de problemas da identidade, viver em meio a chances aparentemente infinitas (ou pelo menos em meio a maior número de chances do que seria razoável experimentar) tem o gosto doce da “liberdade de tornar-se qualquer um”. Porém, essa doçura tem uma cica amarga, porque enquanto o “tornar-se” sugere que nada está acabado e temos tudo pela frente, a condição de “ser alguém”, que o tornar-se deve assegurar, anuncia o apito final do árbitro, indicando o fim do jogo: “Você não está mais livre quando chega ao final; você não é você, mesmo que tenha se tronado alguém”. Estar inacabado, incompleto e subdeterminado é um estado cheio de riscos e ansiedade, mês seu contrário também não traz um prazer pleno, pois fecha antecipadamente o que a liberdade precisa manter aberto.

A consciência de que o jogo continua, de que muito vai ainda acontecer, e o inventário das maravilhas que a vida pode oferecer são muito agradáveis e satisfatórios. A suspeita de que nada do que já foi testado e apropriado é duradouro e garantido contra a decadência é, porém, a proverbial mosca na sopa. As perdas equivalem aos ganhos. A vida está fadada a navegar entra os dois, e nenhum marinheiro pode alardear ter encontrado um itinerário seguro e sem riscos.

O mundo cheio de possibilidades é como uma mesa de bufê com tantos pratos deliciosos que nem o mais dedicado comensal poderia esperar provar de todos. Os comensais são consumidores, e a mais custosa e irritante das tarefas que se pode pôr diante de um consumidor é a necessidade de estabelecer prioridades: a necessidade de dispensar algumas opções inexploradas e abandoná-las. A infelicidade dos consumidores deriva do excesso e não da falta de escolha. “Será que utilizei os meios à minha disposição da melhor maneira possível?” é a pergunta que mais assombra e causa insônia ao consumidor.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução de Plínio Dentzein, Rio de Janeiro: Zahar, 2001.




Certa manhã, depois de despertar de sonhos conturbados, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado de costas sobre a própria couraça, e ao erguer um pouco a cabeça enxergou seu ventre marrom, acentuadamente abaulado, com profundas saliências arqueadas, sobre o qual o cobertor, quase escorregando, estava prestes a cair. Suas muitas pernas, terrivelmente finas em comparação à largura do corpo, agitavam-se desamparadas diante de seus olhos.

(...)

“Ah! Deus Meu”, pensou, “que cansativa profissão fui escolher! Dia após dia viajando! A agitação é muito maior que dentro do escritório, e ainda por cima me obrigam a essa canseira de viajar, a ter de me preocupar com os horários dos trens, com a alimentação ruim e irregular, com relacionamentos provisórios que nunca perduram e nunca me trazem emoção. Para o inferno com isso tudo!”

KAFKA, Franz. A Metamorfose. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2002.

domingo, 24 de julho de 2011

olhos de vidro




Uma ação recente me estilhaçou o coração, a alma.

Aos pedaços, tento seguir a vida, sem a bússola de outrora. Escrevo, não sem paixão, todavia, sem entusiasmo.

Tentando reparar as brechas, as feridas, os abismos. Retratando os passos do caminho escuro.

Sei-me exatamente, entretanto, perdi-me dentro de mim mesmo. Narciso, oculto-me do espelho de vidro, de areia, do pó.

Vidrado, olho o vazio, onde antes havia teus olhos nus e brilhantes. De reticências em reticências, tento desvendar o amanhã, vislumbro, nada mais.

Como em um filme de roteiro adaptado, encaro a vida fora de mim mesmo, em um corredor infinito, decrépito, caduco de esperanças.

Estou sozinho, não há atrás de mim alguém que me siga os passos; ninguém à minha frente, que me guie os caminhos; ninguém ao meu lado, que me oriente os sentidos.

Procuro quem me compartilhe a companhia, a bebida, a carona. Acho-me a mim, e só.

E não é isso tudo? Achar-me a mim, e tão somente a mim? Seria este a trilha da felicidade, em seu máximo?

Não me pergunto, não quero achar respostas. Sei o que sei. Sei-me a mim. Só, o amanhã é pequeno demais.

Dê-me o hoje, o agora, o presente de presente. Amanhã penso no amanhã, e amanhã penso no amanhã, e amanhã...

Apresentando T. S. Campbell




Era uma noite quente, no verão de Nova Jersey. O céu estava limpo, podiam-se ver as estrelas, e a luz da lua iluminava as paredes de tijolos vermelhos da Delegacia. Era mais uma daquelas noites em que o clima contrastava com a roupa usada por T. S. Campbell, em uma de suas primeiras missões como detetive da polícia do Estado de Nova Jersey.

Recém-transferido do Escritório de Cyber-Bullying em Nevada, para a Homicídios de Nova Jersey, Campbell já era conhecido nas ruas por suas roupas inadequadas. Nunca usava terno e gravata (mesmo quando saía para fazer notificações de morte aos parentes de uma vítima), sempre vestia um chapéu Panamá, jaqueta de couro, calças grossas de brim, Converse All Star Chuck Taylor, cano alto, preto (também de couro, diga-se de passagem) e camisetas de manga longa, como se esperasse, a cada noite, ou o frio repentino do deserto, ou encontrar alguns de seus casos antigos, envolvendo centenas de adolescentes alucinados.

Fora sua inadequação indumentária, T. S. Campbell quase não era notado por entre os outros investigadores de polícia em Nova Jersey. Ainda muito novo, relativamente baixo, loiro, cabelos ondulados, misteriosamente transferido de Las Vegas, primeiro ano na Homicídios e companheiro do espetacular Andy McBulge, um irlandês ruivo, 1,88m, 13 anos na Homicídios e com um recorde marcante de prisões e casos fechados, Campbell não era um indivíduo que causasse impressão.

Todavia, pragmático, Campbell não se importava com deslumbramentos e opiniões alheias. Como diriam em Nevada, era apenas um garoto que executava as ordens, realizava seu trabalho, não fazia perguntas. E nunca, nunca olhava para trás. Não se permitia qualquer reflexão que tirasse sua atenção do trabalho. Enquanto não fechasse um caso, não pensava em outra coisa.

Entretanto, esta era uma noite diferente para T. S. Campbell. O assassinato brutal de uma jovem de 17 anos, no pátio da Escola Elementar de Ocean Gate, no Condado de Ocean, Distrito de Ocean Gate, muito perto de sua nova casa (um galpão abandonado, perto do cais, adaptado como moradia, para este solteiro que o usava não como um lar, na definição mais romântica da palavra, porém como dormitório), fazia-o lembrar incessantemente de sua terra natal, de seus casos ainda abertos, nunca resolvidos, na Divisão de Cyber-Bullying do Condado de Clark. Teria sido aquela jovem uma vítima de Bullying? O que diriam as evidências? Qual seria o desfecho dessa história? O que seria desta investigação, ao lado de McBulge, o grande paladino dos casos fechados (sejam lá quais fossem os métodos usados para isso, o irlandês não era exatamente conhecido pela limpeza de suas técnicas, mas pelo brilho de suas estatísticas)?

sexta-feira, 15 de julho de 2011




Esta nota inaugura Zygmunt Bauman como meu novo "guru" filosófico.
Por Adrian Theodor, sexta, 15 de julho de 2011 às 16:39

Tanto social quanto psiquicamente, a modernidade é irremediavelmente autocrítica: um exercício infindável e, no fim, sem perspectivas, de autocancelamento e auto-invalidação. Verdadeiramente moderna não é a presteza em retardar o contentamento, mas a impossibilidade de ficar contente. Toda realização é meramente uma pálida cópia do seu modelo. “Hoje” é meramente uma incipiente premonição de amanhã; ou, antes, seu reflexo inferior e desfigurado. O que é é cancelado de antemão por o que virá. Mas extrai o seu alcance e o seu sentido – seu único sentido – desse cancelamento.

Em outras palavras, a modernidade é a impossibilidade de permanecer fixo. Ser moderno significa estar em movimento. Não se resolve necessariamente estar em movimento – como não se resolve ser moderno. É-se colocado em movimento ao ser lançado na espécie de mundo dilacerado entre a beleza da visão e a feiúra da realidade – realidade que se enfeitou pela beleza da visão. Nesse mundo, todos os habitantes são nômades, mas nômades que perambulam a fim de se fixar. Além da curva, existe, deve existir, tem de existir uma terra hospitaleira em que se fixar, mas depois de cada curva surgem novas curvas, com novas frustrações e novas esperanças ainda não destroçadas.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da Pós-Modernidade. Tradução de Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sobre a verdade das mentiras (mais uma vez).


Foto: Moon; 07/11; SP-BR.


Existe um problema fundamental na arte literária. Inúmeros leitores a confundem com cópia do real, mera reprodução de uma sequência de fatos. São leitores que, provavelmente, acreditam em tudo o que se lê em um jornal, por exemplo, que confiam fielmente nesta chamada imparcialidade. Se há "autoria" em um texto jornalístico, quanto mais em um literário! Literatura não tem nenhuma relação com a verdade, sim com a verossimilhança, com o que é, internamente, coerente, nada mais.

São muitos os países chamados de "leitores", por possuírem uma porcentagem elevada de indivíduos que consomem este filão especial da indústria cultural chamado de literatura. Não vou rotular nosso país, incluindo-o ou não neste critério comercial. Todavia me parece ainda haver uma necessidade de amadurecimento cultural no que diz respeito à arte de escrever.

Mais ávido do que o desejo pela leitura, em si, aparece o pela curiosidade acerca do que é verdadeiro, no seio daquelas páginas escritas. Como quem analisa documentos históricos de uma guerra, o leitor questiona o que é real, o que não é; o que é inventado, o que não é. O contexto da obra sobrepuja seu texto.

Age-se como um historiador das mentiras, que empreende uma análise rebuscada de toda a vida do autor, seus romances, seus fracassos, suas batalhas, sua vida familiar. E, no momento da leitura, o texto aparece como suporte da "vida e obra de fulano de tal", não como elemento de análise em si mesmo. Reelabora-se uma biografia do autor a cada novo texto, que é nela inserida apenas como mais um elemento componente de sua existência funcional.

Não há autor sem obra, não há obra sem autor, é verdade. É uma relação essencialmente dialética, ambos se transformam, a cada tessitura, em algo completamente diferente do seu estado inicial. E, talvez por isso mesmo, diminuir uma obra literária ao contexto de seu autor não faz sentido algum. Ela tem um valor intrínseco e, portanto, deve ser analisada no interior de sua própria linguagem, forma e conteúdo.

Toda essa questão se torna ainda mais evidente quando autor e obra mergulham no contexto das "Redes Sociais", espaço virtual próprio da exposição. Ao contrário do que parece, ali não há liberdades e o efêmero toma perspectivas de sedimentação. O alvedrio, apenas aparente, é vigiado, monitorado. E a noção de que tudo passa, grande argumento de quem relaciona a internet com a sensação de falta de lugar, tão própria da modernidade, é, na verdade, transformada em instrumento de rotulação. Quais os limites de uma liberdade compartilhada com tantos "seguidores"? São mesmo passageiras as informações inseridas em um espaço onde todos buscam a definição de quem escreve?

Neste sentido, como poderiam usar as redes sociais os autores literários? Existem aqueles que, na ânsia de compartilhar suas citações, mas com severo temor em serem pessoalmente associados aos seus textos, criam personagens, ou usuários fakes. Assim, toda e qualquer escritura ali executada não seria obra sua, sim de sua personagem. Outros, como eu, simplesmente despejam nas redes sociais o que vai dentro do peito de autor, sempre ativo, inseparável de sua "pessoalidade", todavia não íntimo dela.

Por conseguinte, claro, muitos de meus textos literários, de 140 caracteres ou não, são confundidos com fatos. Há quem me leia nas redes sociais e, automaticamente, julgue saber de tudo o que acontece comigo, dentro e fora desta máscara a quem nomeio corpo. Mais uma vez, chamo-os de historiadores das mentiras, analistas de ilusão, pobres leitores. Precipitados, perdem a profundidade do texto para ganhar o diagnóstico do contexto. Aquele, literário; este, indecifrável a olho nu.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

...




Sempre me pergunto se a epifania pode ser comunicada! E sempre me respondo que não... E, como uma imagem definitivamente não fala por mil palavras, que somente o laranja, o amarelo, o vermelho comuniquem algum sentimento hoje.

Tchau.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

sobre morangos e champagne...

Abro a geladeira, é madrugada, dia de semana, perto de um feriado qualquer, está frio, não consigo deitar os olhos. A noite toda perturbou meu sono com muitas imagens circulantes. Imagens que passavam muito rápido, cenas da memória, visões, como que em curto, em flashes, piscando, oscilando, sumindo e aparecendo. Insone, ansioso e cambaleando, abri a geladeira. Toda a sua brancura iluminada me ardeu a visão. A brisa gelada me paralisou o corpo inteiro, seminu. Alvas e estéreis, as prateleiras não ofereceram nada. Como em um sussurro, a própria fantasia se confessou: "O que você procura não está aqui dentro". Eu queria o amor, queria muito o amor, mas só achei cubos de gelo. E, como que em uma fração de milésimos de segundo, de repente, era uma delícia segurar o cubo de gelo em minhas mãos descalças. Sólido e líquido, desfazia-se por entre meus dedos quentes. E, a cada toque, beijava-os, como quem nunca mais teria aquela oportunidade de novo. E, a cada beijo, o cubo, em água, transformava-se. Tornava-se, não sem se debater, parte de mim, eu dele. Celebramos ali, na escuridão, de olhos bem fechados, completamente cegos, o prazer da vida em meio a um mundo morto, envidraçado e vil. Tateando no escuro, achei um pedacinho de renda preta, já partida pelas chamas de um passado distante, vivo. Senti, mais uma vez, aquele perfume inesquecível. Dormente, inebriado e cego, fechei a porta da geladeira. Cobri o gelo com aquele pedaço queimado de tecido, apertei-o contra meu corpo, dormi. Naquele instante, guardei todos os meus rótulos dentro do peito. Descobri quem eu era, quem eu realmente era. E, nunca mais, apresentaria a mim mesmo ao sabor dos outros. Que se sufocassem todos ao redor, já não me importava mais.

drag queen

Hoje (não exatamente hoje) senti vontade de ter aquela peruca laranja, só para que viesse comigo, para qualquer lugar que fosse. Não me importa mais o destino, o caminho, a saída. Estou à deriva, como nunca pensei que estaria de novo um dia. Não me importa mais o jogo, as frases, os desafios. De todas as minhas metáforas, escritas, imaginadas e vividas, só me sobrou a fuga. Estamos em pé, no aeroporto, com uma mala cheia de dinheiro. Pensa logo! O dinheiro não é nosso. Mas e o coração?

domingo, 5 de junho de 2011

um dia eu escrevi um texto sobre a relação entre as pessoas e a arquitetura. era um texto breve, desses que colocam no papel percepções elementares sobre as coisas e as pessoas. o texto dizia que muitas vezes enxergamos toda a nossa realidade como simples paisagem. deste modo, veríamos os transeuntes como objetos, simples partes de um todo, metonímias das edificações, peças de um quebra-cabeças mental, cores primárias de uma estrutura imagética da metrópole, caleidoscópio.

todavia, essa relação se dava de modo inconsciente, como se não fôssemos capazes de apreender o fato de que não víamos as pessoas como gente, sim como tijolo. então, o texto, em um salto como este de agora, tratava do próprio espectador que, como tal, era incapaz de, ele mesmo, interagir com a cidade, seja em sua arquitetura, seja em seu espectro social. sem se aperceber, mais uma vez, era, ele próprio, pedaço daquela paisagem observada, não era sujeito, era conteúdo.

movido por este raciocínio, me colocava à disposição da cidade. fotografava suas cenas e cenários, suas ações e interações, sua estética, sua estática, seu movimento, sua paralisação. olhava as formas e cores da cidade. observava a catedral da sé, o teatro municipal, aquelas ruazinhas do centro (perto do teatro) onde se vê o infinito, o viaduto do chá, a estação da luz... tentava traduzir meu sentimento, queria, de alguma forma, metafórica ou não, fazer parte daquelas construções, encher os pulmões, ter as mãos livres, porém, sinédoque, me via paisagem.

então, como que de súbito, fui tomado, hoje, por um outro caco de ideia. uma noção de que durante todo o último ano essa inquietação arquitetônica simplesmente não fazia nenhum sentido, não tinha sequer uma fagulha de importância. por que me incomodava tanto, então? se não fizera cócegas em meu cérebro no ano anterior, e talvez não o fizesse de novo ano que vem, porque me angustiava a perspectiva da ausência do sentimento?

aí pensei, como que tentando me confortar a mim mesmo, em torvelinho: sabe, quando sentimos as coisas, elas podem parecer indiferentes dentro de nós. mas não o são. um dia elas saltam aos nossos sentidos como elementos essenciais à sobrevivência do coração, da alma. daqui a um ano, toda essa relação entre arquitetura e o ser pode não ser a sensação essencial de nossas vidas, mas estará lá, latente, como que esperando solução, conclusão, destino. a vida, como uma grande mão, nos puxa de um lado para o outro. cabe a nós, senhores de nossas existências, tentar a sobrevivência do que nós é essencial, único, palpitante.

pensei, mais uma vez, como que para não perder o hábito, como que para não perder a mão, como que para não perder a chance, em uma de minhas personagens... e lembrei de como ela me tem sido essencial nessas divagações todas sobre a sinédoque entre corpo e peças arquitetônicas. minhas angústias têm sido minoradas ao encontrar eco nas suas. ao falarmos ou escrevermos sobre essas relações todas, eu e minha personagem, sentimos um sentimento comum, igual, o mesmo. e ficamos apagando e reescrevendo nossas frases, insuficientemente boas. e ficamos fotografando e destruindo fotografias, por serem elas apaixonantes demais para aparecerem aqui neste espaço, todo indireto e em segredo. somos, juntos, um sentimento que não conseguimos traduzir, simplesmente pulmões cheios e mãos livres.

domingo, 29 de maio de 2011

quem era ela...


Fonte: monk3y.tumblr.com


Magnífica!

É uma imagem que roda a cabeça! Faz girar os planos todos, as ações, o fingimento de interpretação. É impossível olhar para você e pensar nas técnicas de fotografia, na estética fotográfica, nos estados de revelação e exposição. Olho para você e simplesmente sei de meu desejo, de minha atração, de minhas pulsões, todas juntas, em chamas dentro de mim, corroendo meu intestino.

Em qual dos seus dias teria sido esta foto atirada? Estaria perdida, a donzela arqueada por sua dor? Por que seu estômago queimava assim, sempre e tão intenso, em brasa viva? Seria ainda donzela, viva entre tantas decepções e buscas intermináveis? Qual seria sua formação, seu nascimento? Qual seria sua busca, seus achados, sua inquietação noturna e notívaga?

Era mesmo dor o que sentia? Por que se dobrava assim, todas as noites, sobre seu próprio corpo nu? Seria o desejo de que lhe beijassem os pés? Seria a vontade de ser possuída, ali mesmo, concretizando tudo o que sempre sonhou? Ainda sonhava, aquela menina em forma de mulher? Ainda sentia qualquer anseio além da própria inquietação de existir no mundo?

A qual mundo ela pertencia, enfim? Era este mundo, prático e duro? Era um mundo de fantasias, como o das crianças? Ou era simplesmente personagem viva de algum autor abominável, que a esquecera de alimentar os passos todos, deixando-a perdida e só? Era mesmo viva? Qual seria o próximo passo? Controlaria ela mesma a própria história, ou seria ela mergulhada, afogada por suas personagens todas? Finalmente, quem era o vilão? Quem era ela?

sexta-feira, 27 de maio de 2011

já perdi as contas de quantas personagens já criei, para mim e para os outros. já perdi as contas de quantos pedaços já ofereci ao mundo, adaptado e ator. mas, sabe, um dia sempre aparece um alguém que nos arranca os pães todos de dentro de nós! alguém que nos suga toda a alma, que nos revela o quanto podemos ser grandes, o quanto pode ser vasto o mundo que nos cerca. e, quando achamos esse alguém, único no mundo, percebemos que só existem duas saídas... viver a vida ao máximo, ou escolher a mediocridade de uma vida sem significado, seja pelo medo, ou simplesmente pelo conforto de não querer dar o salto que muda tudo. já não sei mais qual a personagem que vivo, e já não sei se me importo! 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

em uma esquina do mundo...

Não é fato de todos os dias encontrar alguém com quem passar o tempo.

Tampouco é fato de todos os dias simplesmente encontrar quem se ama.

O que encontramos, todos os dias, então? Com quem dividimos o tempo, baú de mistérios e tesouros da vida toda? Contra quem competimos, todas as manhãs, antes mesmo de o sol nascer? Com quem jogamos, flertes infinitos, até que o sol se ponha?

O que é a vida, se não mera sucessão de fatos aleatórios? O que é a existência, se não consequência daquilo que nós mesmos escolhemos ser, personagens que somos de nós mesmos, figurantes de nossa própria narrativa em primeira pessoa?

Não é fato de todos os dias encontrar quem se deixe levar.

Tampouco é fato de todos os dias simplesmente encontrar quem te beije.

O que encontramos, todos os dias, então? Com quem dividimos a boca, invólucro de sonhos e verdades incomunicáveis, indizíveis, só nossos? Contra que corpo lutamos toda semana, até que o sol se ponha, em uma tarde qualquer de sexta feira? Quais os motivos de nosso nascer do sol?

O que é você, se não quem tudo mudou, para sempre? Quem é você, se não quem escolheu dizer sim, tão somente para dizer não? Quem somos nós, afinal? Pessoas ou personas? Vivos ou personagens? Autores ou modestos expectadores?

Não é fato de todos os dias encontrar quem se comunique.

Tampouco é fato de todos os dias simplesmente encontrar quem te saiba inteiro.

O que encontramos, todos os dias, então? Com quem dividimos o peito, bumbo que vibra, honesto e fora de tom? Contra qual coração lutamos por meses, de cadência em cadência, compasso em compasso, como maestro que não suporta mais o peso dos próprios joelhos em câimbra? O que nos move a continuar tocando, conduzindo?

O que somos nós, que não mais existimos? Quem somos nós, depois de tudo o que se disse, tudo o que se fez, tudo o que foi? Somos pó? Afogados em um verde-mar do esquecimento?

Onde está minha deriva? O que fez conosco? O que fez comigo? Um só por hoje em um nunca mais?

domingo, 15 de maio de 2011

Laura, a moto e o monte.






Laura, um passeio de moto e sua jaqueta de couro bege. Ricardo, cabelos ao vento e seu coração de carne rubra. Um abraço, uma subida.

Ninguém podia perceber que seus olhos mareavam em verde infinito. Ninguém podia ver que suas pernas flamejavam febris.

No topo daquele monte, tomaram-se pela cintura e se beijaram, em chamas. Carbonizados, não morreram, transformaram-se, mais uma vez.

Envoltos em uma névoa densa, tentavam ver o que todos viam, as migalhas. Mas viam tudo, um amor maior do que a coragem, o pão!

Laura olhou fundo nos olhos de Ricardo. Vem! Não espero mais. Quero teu beijo racional, tua vida na minha. Vem morar dentro de mim. Agora!

Ricardo nem mesmo piscou os olhos. Abertos, lúcidos, tomaram o corpo de Laura. Brisa suave, não era mais sonho. Encarnado, sentiu-se vivo.

Laura ouvia cada palavra sussurrada por Ricardo em seu ouvido nu. Desejava-as todas, coração acelerado e estômago em brasa! Água no deserto.

domingo, 10 de abril de 2011

Um dia me disseram que ser escritor é mesmo fingir as ficções que se quer viver, ou ampliar as sensações daquilo que se viveu, ou ainda simplesmente interpretar os sentimentos que se poderia viver se a verdade das mentiras se efetivasse no tecido do real.

Não sei definir o ofício, que nem é meu, na verdade. Sei, simplesmente sei, que a dor é maior do que se pode suportar, quando se escreve, quando se vive "pela metade". É muito mais do que a duplicidade da vida, é a sua multiplicidade, fragmentada em cacos no infinito.

Nesta noite, tive a pior impressão do que se pode sentir quando se escreve sobre o que poderia ser a vida, se ela fosse alargada segundo suas emoções mais íntimas. Eu poderia dizer que a dor literária, por ser, ao mesmo tempo, tão próxima e tão distante da realidade vivida, é ainda maior do que as dores que sentimos em nosso dia a dia, caótico e inexato. (Des)fraturar a vida, impondo-lhe sua própria ordem, tem os seus custos, elevadíssimos.

Muito mais do que dores nas costas, reais e palpáveis; assaz além das enxaquecas cotidianas; em alto grau maior do que o excesso de trabalho, senti a dor de não ser o que exatamente se poderia ser se a vida estivesse no seio de uma página literária ainda em branco. O livro verde, o meu livro verde dos sentimentos, encerra toda a minha nudez, abre minha caixa torácica em retumbantes sons, nada guturais, de libertação do caos habitual.

Escrevem-se ali, quase que automaticamente, sem esforço do agente humano, sonoras vozes de perfeição, beleza, majestade, liberdade, prazer, contentamento. Claro, não se traçam apenas linhas do positivo da vida, mar cor de rosa. Todavia o negativo é ali ordenado, surge da necessidade do escritor, no momento prefigurado, planejado, sistemático.

Poder-se-ia dizer que, para acolá de tudo o que acabo de escrever, a dor maior é quando suas personagens escapam da dimensão escrita, e tomam vida própria. Contorcem-se, vibram, debatem-se e se tornam autônomas. Simplesmente insistem em não virarem personagens títeres. Ávidas por tomarem conta de suas próprias existências, as personagens se rebelam contra seu criador, transformando o teor de toda a obra, ferindo profundamente aquele que, agora passivo, quer apenas criar, transformar, reconstruir.

Com segurança, afirmo que, desde as penumbras de 93-94 (ainda insondáveis), não sentia tamanha dor, daquelas de chorar em voz alta no meio da madrugada, que insiste em amanhecer. Dor íntima, dor única, dor incomunicável – daquelas que não se pode narrar, seja pelo proibido, seja porque a narrativa é simplesmente impossível, incompreensível em si. Dor intransferível, do choque máximo entre o que se dissimula e o que se vive; o que se anseia e o que se tem. Genuinamente dor.

Hoje, após sono profundo, de sonhos conturbados com as personagens todas, acordo em desânimo, sem alma. O que haverá de vir? Inerte, aguardo o desdobrar das páginas opacas do livro verde. Vazio de grandes expectativas, apenas vivo, sem pensar em mais nada. O passo que muda tudo não acontecerá mais num piscar de olhos.

sábado, 9 de abril de 2011

o coelho ruivo de Raquel

Quando era ainda muito jovem, Ricardo foi levado pelos tios para uma curta temporada na Irlanda. Era Primavera, pensava Ricardo, que nunca conseguia muito bem contar o tempo, as horas, as passagens. E sabia-se na Primavera só porque as flores coloriam o chão frio daquele país nortenho, estranho.

Passava grande parte de seus dias observando a natureza, Ricardo. Nunca fora um menino cheio de impulsos por atividades, tampouco era contemplativo. Todavia, fora de sua casa, longe da companhia de seus pais, Ricardo não fazia nada além de olhar os campos, as flores, os coelhos.

Intrigava-se em especial com os coelhos. Percebera, já, ainda muito novinho, que a natureza seguia uma ordem, um padrão, uma norma. As flores nasciam na Primavera, os bebês demoravam nove meses dentro das mamães, os coelhos se reproduziam como coelhos.

Via os coelhos comendo, pulando, fazendo suas necessidades e até sendo caçados por outros animais dos campos, desconhecidos para Ricardo. Transformou-se, naqueles dias irlandeses, em um grande entusiasta da vida animal. Parecia até um daqueles homens do National Geographic, dizia tia Gertha. Não falava em outra coisa, coelhos para cá, coelhos para lá. Coelhos e coelhos...

Até que, menino da cidade, certo dia começou a olhar para os coelhos com alguma ansiedade. Ainda gostava deles, que fique claro, porém não os admirava com o mesmo brilho inocente de duas semanas atrás. Reflexivo, Ricardo começou a imaginar os motivos pelos quais os coelhos simplesmente não se uniam contra aqueles bichos que os atacavam, todos os dias, um a um, um por um. Não fazia sentido continuar a vida, comendo e pulando, se amanhã, ou depois de amanhã, algum intruso peludo atacaria seu irmão, sua mãe, ou você mesmo! Por mais bobo que parecesse, e era mesmo bobo, Ricardo não largava esse pensamento. Tentou até convencer o tio William a treinar uns coelhos na arte da autodefesa, mas era tudo em vão. Tio William parecia um dos coelhos e jamais entraria nessa de ensinar os bichos a se defender.

(...)

Por toda a sua meninice Ricardo mantinha vivo esse raciocínio pueril. Coelhos, autodefesa, rotina, ausência de mudanças. Até que, depois de várias Primaveras, já de volta à sua terra natal, mais velho, responsável, não pensava mais nos coelhos. Claro, nunca esquecera de sua passagem pela Irlanda, na tenra juventude, entretanto simplesmente vivia a vida - atropelado por ela muitas vezes, como dizia sua mãe - sem grandes entusiasmos, sem grandes fixações, sem arroubos, vivia.

Casou-se com Olívia, em uma cerimônia discreta. Convidaram apenas os mais próximos, os mais queridos. Poucos amigos da adolescência, pouquíssimos amigos da faculdade, os bons amigos do trabalho, os melhores da família. Toda aquela discrição e intimidade faziam o evento lindo, aconchegante, sóbrio.

A cerimônia acabou. A recepção ia já avançada. E Ricardo, ébrio de alegria (desde que conhecera Olívia, tornara-se abstêmio), aproveitava cada segundo de todo aquele dia. Nenhuma de suas reflexões sobre o passado lhe invadia a mente. Simplesmente vivia a vida, a melhor parte dela, acreditava, sem atropelos.

A noite de núpcias foi maravilhosa, inesquecível. A lua de Mel, luxuosa, Paris, Londres, Amsterdã. Os presentes, espetaculares, finíssimos. Com exceção de um, simples e, aparentemente, ingênuo. Em um embrulho de cetim muito bem feito, dourado, adornado por fitas de veludo preto, assinado por Raquel, Ricardo encontrou um coelho ruivo.

(...)

Ao longo dos anos, jamais perguntou à Raquel o sentido daquele gesto. Era ela sempre tão ácida e, ao mesmo tempo, tão sensível. Não queria nem sofrer de suas chacotas, tampouco feri-la os sentimentos.

Todavia, recôndito e secreto, em uma noite muito fria de outono, ao lado do single malt de seu tio William, sabe-se lá quantos anos depois - Ricardo sofria dessa dificuldade em contar o tempo -, finalmente sacou a mensagem. Tudo ficara claro para Ricardo. Mas nunca, nunca Ricardo sequer mencionou para uma viva alma sobre as revelações daquela noite fria de outono, na memória do coelho ruivo de Raquel.

domingo, 3 de abril de 2011

sobre o pão e as migalhas

Ricardo: - O pão e as migalhas. Nunca mais vou contar sobre o que sei. Calabouço das ideias sou eu. Joguei as chaves fora. Dou-lhe dois tiros e só.
Laura: - Por que fala assim comigo, Ricardo? Não entendo uma palavra do que diz. Estou ficando preocupada, não me parece mais literatura, na verdade.
Ricardo: - O homem é lobo do homem, e só. Guardo todo o resto em rótulos no meu peito. Não sou mais nu, não mais. Dou-lhe um tiro, é só.
Laura: - Por favor, Ricardo. Fala comigo. Chega de metáforas. Fala claramente. O que está acontecendo? O que devo entender de tudo isso?
Ricardo: - Ordenar o caos é trabalho vão. O inverso do que se diz é o que se sente, todos os dias. Migalhas, migalhas e migalhas... Cadê o pão. A arma está oca, não te sobraram tiros.
Laura: - Ai, Ricardo... Acho que entendi. Finalmente entendi. Me dá essa arma. Eu carrego pra você. Deita, no meu colo.
Ricardo: - De todas as migalhas que ofereci ao mundo, você foi a única que conheceu todo o pão.
Laura: - Eu sei. Agora dorme. Eu amo você!

sábado, 2 de abril de 2011

Os bocados são sempre bons, desta fruta a que chamam vida. Sempre bons de comer, lambuzar e jogar fora, no meio do asfalto negro molhado pela chuva. Há quem pense me conhecer, porque me lê nas entrelinhas do que se faz público, blog, twitter, facebook. Há quem pense que é isso a vida inteira, bocados que se oferece ao morador de rua. Há quem pense já saber de tudo, de antemão, sem sequer contar os inúmeros vãos do que não se diz, não se proclama, só se sente. Ai, a dor que se camufla, a alegria que se finge, o sucesso que se pretende. Ai, o louvor que se clama, a chama que se arde, o mal que se inflige. Ai, a companhia que se namora, a solidão que se tateia, a arte de não ser. Palavras, palavras, palavras! Somente palavras, nada mais. Ficção de estar vivo, sem ser. Linhas que se escrevem automaticamente, com o pavor de não ser lido e nunca mais saber de você. Nem me venha mais, porque não estou aqui. Nem me venha mais, porque não sou. Nem me venha mais, porque te sugo o coração, só para ter de volta o meu.