Sempre fui assertivo sobre o prazer de meu trabalho. Ao contrário das críticas sociais mais rasteiras, ser um advogado criminal, "soltando bandidos", é um deleite. Muito menos pelos crápulas milionários, soltos nas ruas ao passar por meus critérios interpretativos; muito mais pelo prazer retórico das reuniões, dos diálogos, dos acordos, das leituras, enfim, dos tribunais.
Entretanto, hoje, sentia-me inquieto. Este interlocutor, meu mais novo cliente, pago pela Polícia Federal, investigador criminal de alto escalão, encarava o silêncio com maestria. Sua atitude se completava com minha total inexperiência em casos passionais. Ainda mais uma tentativa de homicídio como esta, dois tiros no peito, à queima roupa, vítima em coma.
Encontramo-nos já por duas vezes. Sempre com procedimentos idênticos: cumprimento-o, apresento meus argumentos em favor de sua defesa, ouço seus impropérios (sempre educados, todavia impropérios) exigindo auto-representação no tribunal, passamos por momentos de silêncio, retiro-me da instituição prisional. Foram já semanas desde o ocorrido, e não consegui montar um caso coerente, que pudesse ser apresentado na corte. Juntei provas forênsicas, questionei-as todas, montei um dossiê com amigos e familiares do casal, interpretei-as todas (ao meu modo, claro, como o faz qualquer bom advogado), porém, sem a versão do autor do ato criminoso, marido de Anna, fico no escuro, como quem quer sair.
Hoje faço a ele minha terceira visita como advogado de defesa. Não repetirei os procedimentos anteriores, não se usa o mesmo método inócuo três vezes. Não me adianta mais apresentá-lo às evidências físicas de seu crime, ele estava lá. Não me adianta mais demonstrar o risco da auto-representação em casos passionais, ele sabe muito bem que não tem condições de se defender. Muito menos me adianta descrever a situação de todo o sistema prisional brasileiro, ele é parte dele, conhece-o por demais. Vou apelar à sua vaidade, como humano, federal, homem. Vou apresentá-lo à sua própria depressão. Vou simular, como se faz em um tribunal, o espetáculo de sua própria miséria. Descrever e exagerar seus sentimentos mais íntimos. Destruí-lo com supostas evidências que o descrevem como um maníaco depressivo medroso, covarde, assassino. Vou retirar de sua cabeça qualquer possibilidade de alegação de insanidade temporária. Por fim, vou desnorteá-lo, aturdi-lo, esmagá-lo, empurrá-lo contra uma parede intransponível dos maiores terrores e dos mais baixos sentimentos de humilhação e desprezo. E, assim que ele começar sua auto-comiseração, entra em cena minha defesa. Encarnarei, em apenas alguns minutos, ao mesmo tempo, todo o clichê do bom policial versus mau policial. Ataco, defendo. E, assim, no seio de sua própria linguagem, terei-o em minhas mãos.
Leia como uma Metáfora: O halotano é uma droga bastante utilizada para induzir anestesia geral. Trata-se de um poderoso anestésico de inalação, não inflamável e não explosivo, com um odor relativamente agradável. Após a inalação, a substância chega aos pulmões tornando possível a passagem para o estado anestésico muito rapidamente. Porém, os efeitos colaterais incluem a depressão do sistema respiratório e cardiovascular, sensibilização a arritmias produzidas por adrenalina e lesão hepática.
segunda-feira, 22 de março de 2010
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
O dia seguinte ao de ontem foi ambíguo. Sentia-me tranquilo por saber que o resgate conseguiu chegar até Ana. Todavia não conseguia tirar da minha cabeça o som dos disparos, a sensação de descontrole e os olhares dela. Mesmo em meio àquela situação toda, Ana não fora capaz de se assustar ou de me temer. Apenas olhava fundo, como se analisasse um de seus casos psiquiátricos. Em plena crise nervosa, não recebi seu abraço, tampouco seu carinho, apenas aqueles olhos penetrantes de quem se importa sem se envolver, clínicos. Quando tirei a arma do bolso, ela nem mesmo se afastou de mim, não mudou um milímetro de sua análise psicanalítica, como quem narrava o que acontecia a um gravador, daqueles que os filmes mostram, usados pelos detetives de polícia. Por que ela era assim? Seria uma capa de proteção dos amores mundanos? Ou ela simplesmente tinha aprendido a ser assim, calma, após anos de trabalho com "assassinos de uniforme", no departamento de psiquiatria da polícia? Ontem, na hora dos disparos, comemorava-mos três anos juntos. E não sentia nenhuma vibração dela, como que se aquele dia fosse um outro qualquer, uma data no calendário e nada mais. Parecia não se importar com a minha presença ou ausência ali. Um fantasma, uma aparição fantástica sem platéia, era como me sentia em nossos encontros. Quando saquei o revólver, meu revólver de trabalho, queria sentir, de alguma maneira, sua reação, seu susto, seu medo, seus sentimentos mais primitivos. Mas ela nem piscou em sinal de dúvida ou estranhamento, apenas permaneceu de olhos fixos em mim, desvendando-me os mistérios cerebrais. Até que sentiu dois disparos, cambaleou o corpo pálido sobre a poltrona, não conseguiu mais penetrar-me as janelas da alma, e fui embora.
Eu podia ver que ele carregava pensamentos de morte. Seus olhos abertos, pupilas dilatadas, olheiras negras, mãos trêmulas, suor e a garganta seca, puxando o que ainda restava da saliva grossa.
Falava-me de sua vida, de como tudo poderia ter sido, dos planos, dos malogros, das desistências, dos medos, uma lista sem fim de tristezas encobertas de agruras e decepções.
Contou-me, agitado, de como aprendera a esconder de todos sua depressão crônica, de como matara seus desejos de beleza e amor, de como seria dali em diante. Não haveria mais planos ou futuro, companhia ou solidão. Somente o absoluto do tempo, mestre inexorável das dores eternas.
E, confuso, resumiu de novo suas angústias. Desesperado, como quem precisa confessar os crimes ao padre do confessionário, tirou a arma do bolso do paletó. Repetiu-se sobre o tempo, as horas, o exagero do mundo, o absoluto. Disse-me finalmente saber a solução de tudo, o fim da história.
Empunhava aquele revólver aos solavancos, descuidado, para todos os lados, como que representando seu próprio estado de espírito, inquieto, aleatório e convulsivo. Tenso, fazia trabalhar todos os músculos, ora caminhava pela sala, aos trancos, ora se aninhava no sofá, como em um divã.
Finalmente, parou. Suspirou. Como quem chega a alguma conclusão que, de tão particular, não pode ser comunicada. Debruçou o revólver sobre o braço do sofá. Tomou uma caneta e escreveu uma nota na contracapa de um livro. Discou um número curto no telefone, esperou... O aparelho deitou-se ao chão. Bruscamente, pegou a arma, engatilhou, dois disparos, e foi embora.
Falava-me de sua vida, de como tudo poderia ter sido, dos planos, dos malogros, das desistências, dos medos, uma lista sem fim de tristezas encobertas de agruras e decepções.
Contou-me, agitado, de como aprendera a esconder de todos sua depressão crônica, de como matara seus desejos de beleza e amor, de como seria dali em diante. Não haveria mais planos ou futuro, companhia ou solidão. Somente o absoluto do tempo, mestre inexorável das dores eternas.
E, confuso, resumiu de novo suas angústias. Desesperado, como quem precisa confessar os crimes ao padre do confessionário, tirou a arma do bolso do paletó. Repetiu-se sobre o tempo, as horas, o exagero do mundo, o absoluto. Disse-me finalmente saber a solução de tudo, o fim da história.
Empunhava aquele revólver aos solavancos, descuidado, para todos os lados, como que representando seu próprio estado de espírito, inquieto, aleatório e convulsivo. Tenso, fazia trabalhar todos os músculos, ora caminhava pela sala, aos trancos, ora se aninhava no sofá, como em um divã.
Finalmente, parou. Suspirou. Como quem chega a alguma conclusão que, de tão particular, não pode ser comunicada. Debruçou o revólver sobre o braço do sofá. Tomou uma caneta e escreveu uma nota na contracapa de um livro. Discou um número curto no telefone, esperou... O aparelho deitou-se ao chão. Bruscamente, pegou a arma, engatilhou, dois disparos, e foi embora.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

nãofiquesão
A burocracia, sempre, toma formas vivas, como aquela figura obscura de Kafka, ao portão dos desejos, aquele altivo, este impenetrável.
Postado por Diário Halotano, traduzindo Anna Bernnabar.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

escrevendo com sangue
O sentimento de podridão, intuído do contato com a humanidade, em quaisquer de suas manifestações, somente se compara a uma viagem fantástica ao centro da putrefação cadavérica de sua carcaça.
Sua poesia é vã. Sua política é hipócrita. Sua afeição é falsa. Suas realizações são estéreis, suas obras são dissoluções, suas arquiteturas são vis.
A cada passo da humanidade - tecnológica, acelerada, moderna - meu nojo por ela apenas aumenta. Quanto maiores são minhas leituras sobre o absurdo, menores são minhas esperanças. Nem o Teatro do Absurdo, explica o "Teatro do Mundo Real", este deserto a que chamamos "nosso lugar".
Postado por Diário Halotano, traduzindo Anna Bernnabar.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Palestina - 1967
Em uma de minhas viagens da infância para a Palestina, onde o turismo, tal como se conhece hoje, era impossível, ao viver toda a intensidade de seus conflitos religiosos e políticos, aprendi a conversar comigo mesmo. Na verdade, criei, como o faz toda criança, ainda mais aquelas no seio dos confrontos familiares, um amigo imaginário.
Mas, ao invés de estabelecer diálogo com um urso, um dinossauro, uma boneca russa (que se abre em mil pedaços, ao infinito) ou um ser espacial, criei uma personagem que era a minha imagem no espelho. Era como eu, mas invertido. Tudo em meu amigo imaginário era o inverso de mim. Suas ideias políticas (sim, eu as tinha quando criança, consequência da vida em conflito), seus sentimentos, seu gênero, seus defeitos e virtudes.
Assim, desde muito infante, a cada novo passo (ao primeiro dia na escola, ao conhecer um novo amigo, ao sentir o primeiro amor), a cada experiência, a cada leitura, conversava comigo mesmo, mas do avesso, ao contrário, do outro lado.
Qual o significado psicanalítico disso? Não sei, nem quero saber, ao menos não agora. Porém, sei, isso sim, que conversar com o inverso de mim mesmo, trouxe-me paz de espírito, neste "Mundo dos Conflitos".
Postado por Diário Halotano, traduzindo Anna Bernnabar.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Anna Bernnabar

Conta-se a história de uma menina que conseguia enxergar nossa realidade de um modo tão peculiar, que a chamavam de "menina do realismo fantástico".
Dentre as anedotas que dela se conta, hoje no mundo inteiro, está aquela do dia da chuva, foi mais ou menos assim:
Estava a menina em sua casa, enxergando elementos únicos e realidades fantásticas, quando chegou a chuva, forte como nunca se viu. E então, em meio ao torvelinho natural, viveu ela seu próprio furacão. Ela via, e não era meramente sua imaginação, as gotas de chuva levando embora suas maiores esperanças e sonhos. Via mesmo, com os olhos materiais, as gotas empacotando suas esperanças e sonhos, como pequeninas bexigas d'água. E foram todos, rua abaixo, rápidos como em toda grande correnteza. Brutais, como em toda tempestade.
E os relatos não param por aí, neste dia chuvoso e triste. Conta-se também, hoje no mundo intero, sobre seus banhos diários, em um chuveiro material, em uma realidade fantástica:
Estava a menina ao banho, quando, ao consultar suas memórias reprimidas, derreteu em sal, água e partículas minúsculas coloridas. Multiforme, podia ser esmagada, transformava-se em mil objetos, mil formas, mil possibilidades. A cada manhã, o fantástico se apresentava para ela, ao banho, caleidoscópio.
E, assim, de eventos mágicos em eventos mágicos, ao longo dos anos, sua fama foi percorrendo o mundo, hoje o mundo inteiro. Muitas são as histórias que dela se conta. Mas, em breve, finalmente, ela se revelará ao mundo em suas mais brilhantes idéias e mais sofisticadas experiências. Logo, bem logo, Anna Bernnabar, essa russa misturada com árabe, reunirá tudo em um livro, as Meditações Seculares. Prometo acompanhá-la de perto. Prometo informar vocês.
Postado por Diário Halotano.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Palavrorio.
tudo o que havia de poético em mim está morto.
esses sentimentos inomináveis da poesia, dos poemas, da sensibilidade das palavras, morto!
todo esse alfarrábio semântico que de nada mais serve há tanto tempo já.
morte em vida, trocadilhos infames e imbecis.
simples sinonímias do espírito, da carne vazia e oca, que não ecoa, que não ouve, que não vê.
sem retorno ou eco, repetições e mais repetições, redundâncias em redundâncias...
essas métricas bestiais e prisionais.
essas medidas, esses parâmetros, regras, grafismos, gramáticas, leis e leis e leis, mais nada!
estou cansado da ausência de cores, dos nomes que se dão às cores do peito alheio e do meu mesmo.
farto, enfastiado, cheio desses códigos de conduta que arregaçam os desejos mais belos, puros e putos.
palavrões são mais honestos do que essas meias palavras medidas e feias, simetricamente alinhadas em discursos do que não é, nao foi, não será.
onde estão as verdades, mortas na língua dos humanos prontos a ferir.
nada mais humano do que as mentiras, larvas podres e vivas, soltas nos lábios em carne viva, à mostra nos humanos vis mais comuns.
o que é a amizade, em uma selva louca, transitória e estática?
o que são as palavras, essas prostitutas que se prestam a qualquer uso, sempre igual, sempre o mesmo, sempre de novo, sem preço?
o que são os sentimentos, esses furacões imbecilizados pelo beijo, pelo vício, pela virtude, pelas letras?
meros adjetivos, substantivos, sinônimos medíocres de seres medíocres, ralos, rasos, sopa nazista e pós moderna!
chega! basta! não quero mais palavras. quero explodir, sair, sentir, despojar-me dessas ênclises, próclises e mesóclises da raça humana falida, bastarda, fétida, falsa, mascarada, pequena, fértil, dominada, idiotizada, repetida.
basta! chega! não quero mais adjetivar meus verbos, em um discurso da vida que parece não viver, não narrar, apenas gestos mecânicos mortos e respirando!
e daí que as nossas experiências não podem ser comunicadas? e daí se não há um outro? o ser humano não presta mesmo!
afinal, há um eu mesmo? nessa esquizofrenia chamada existência?
o que há? o que não há? o que existe ou deixa de existir? importa mesmo esta merda?
nada além de palavras, repetidas, amargas, doces, podres, sujas, mortas, vãs, sempre as mesmas, desde ontem, até amanhã!
e depois, e depois e depois... sempre palavras.
sempre as mesmas palavras, ditas, não ditas, ditadas.
ah, que se fodam as palavras, eu mesmo, as mesmices, você!
esses sentimentos inomináveis da poesia, dos poemas, da sensibilidade das palavras, morto!
todo esse alfarrábio semântico que de nada mais serve há tanto tempo já.
morte em vida, trocadilhos infames e imbecis.
simples sinonímias do espírito, da carne vazia e oca, que não ecoa, que não ouve, que não vê.
sem retorno ou eco, repetições e mais repetições, redundâncias em redundâncias...
essas métricas bestiais e prisionais.
essas medidas, esses parâmetros, regras, grafismos, gramáticas, leis e leis e leis, mais nada!
estou cansado da ausência de cores, dos nomes que se dão às cores do peito alheio e do meu mesmo.
farto, enfastiado, cheio desses códigos de conduta que arregaçam os desejos mais belos, puros e putos.
palavrões são mais honestos do que essas meias palavras medidas e feias, simetricamente alinhadas em discursos do que não é, nao foi, não será.
onde estão as verdades, mortas na língua dos humanos prontos a ferir.
nada mais humano do que as mentiras, larvas podres e vivas, soltas nos lábios em carne viva, à mostra nos humanos vis mais comuns.
o que é a amizade, em uma selva louca, transitória e estática?
o que são as palavras, essas prostitutas que se prestam a qualquer uso, sempre igual, sempre o mesmo, sempre de novo, sem preço?
o que são os sentimentos, esses furacões imbecilizados pelo beijo, pelo vício, pela virtude, pelas letras?
meros adjetivos, substantivos, sinônimos medíocres de seres medíocres, ralos, rasos, sopa nazista e pós moderna!
chega! basta! não quero mais palavras. quero explodir, sair, sentir, despojar-me dessas ênclises, próclises e mesóclises da raça humana falida, bastarda, fétida, falsa, mascarada, pequena, fértil, dominada, idiotizada, repetida.
basta! chega! não quero mais adjetivar meus verbos, em um discurso da vida que parece não viver, não narrar, apenas gestos mecânicos mortos e respirando!
e daí que as nossas experiências não podem ser comunicadas? e daí se não há um outro? o ser humano não presta mesmo!
afinal, há um eu mesmo? nessa esquizofrenia chamada existência?
o que há? o que não há? o que existe ou deixa de existir? importa mesmo esta merda?
nada além de palavras, repetidas, amargas, doces, podres, sujas, mortas, vãs, sempre as mesmas, desde ontem, até amanhã!
e depois, e depois e depois... sempre palavras.
sempre as mesmas palavras, ditas, não ditas, ditadas.
ah, que se fodam as palavras, eu mesmo, as mesmices, você!
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Um dia desses um amigo me disse que era a representação do espelho côncavo (ou era convexo? Sei lá, confundo-me em meio ao labirinto tipológico dos espelhos). Isso me fez pensar. Por que esse nosso vício em espelhos e reflexos? Somos, assim mesmo, tão incompletos? Lembrei-me, inevitavelmente, de Manuel de Barros. Transcrevo-o, mais uma vez, a seguir:
XI
Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos
ouvem de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando 3
fios de teias de aranha.
A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
incompletude?)
Manoel de Barros, mágico pantaneiro e cavalo de Bernardo - Livro das Ignorãças, 1993
Postado por Diário Halotano.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Tenho uma tradição de ano novo. Vejo o dia clarear no 1º de janeiro. Não durmo, vejo o nascer do primeiro dia do ano novo. Esta experiência me faz novo, todos os anos. Enquanto observo o raiar do dia, sinto a invasão da luz matinal, ouço o canto dos pássaros e os primeiros movimentos humanos na rua. Gosto de pensar na redundância de tudo isso. É um dia único, mas os fatos são tão corriqueiros, como um feriado qualquer, um domingo qualquer, um dia de descanso qualquer.
Mas, a cada ano, esta simples experiência se traduz em diferentes sentidos. No dia 1º de janeiro do ano passado, minha vida passava por uma conturbada transição profissional, motivada pela dolorosa perda de um amigo que, metaforicamente, falecera. Hoje de manhã, contudo, as sensações eram diversas. Foi a primeira manhã de janeiro no apartamento novo; não passo por crises profissionais; tenho novos amigos. Se em 2008 passei por uma virada transitória, em 2009 cruzei o horizonte da confirmação! Sem medos, sem temores, sem pestanas, sem preguiça, sem dúvidas. Com firmeza, com amor, com auto estima, com coragem, com convicção.
Mais uma vez, feliz 2010 para você. Aliás, feliz 1º de janeiro de 2010, para ser mais afinado com o que sinto aqui dentro.
Postado por Diário Halotano.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Pouso de emergência em Nova Iorque! Todos aclamam o piloto, mais um dos novos heróis midiáticos que logo são esquecidos; 15 minutos metafóricos de fama, primeira página de jornal. Todavia, seria a queda do avião no rio Hudson em Nova Iorque um evento efetivamente "histórico"? Ou minha entrevista no Colégio Wellington, ocorrida neste mesmo dia, quase nesta mesma hora?
Lembro-me deste dia 15 de janeiro. Enquanto as retrospectivas giram na TV, empreendo a minha própria, aqui, no recôndito, discreto. Soube do acidente ali mesmo, no Colégio Wellington, quando ainda ali, na recepção, havia um grande televisor, hoje usado na sala de vídeo. Esperava a hora da minha entrevista. Tinha sido uma manhã de memórias aquela. Voltava eu para a Freguesia do Ó, em São Paulo, após anos da saída de meus avós daquele bairro-vilarejo. Visitara a rua onde moraram por anos. Lera uma revista filosófica, comprada na banca dos gibis da infância. Wolverine em Walter Benjamin.
Fui entrevistado. Encontrei um amigo, também à espera de um novo emprego. Apresentei-me. Performático. Convenci. Passei. Trabalhei duro ali. Foi naquele recinto, sob os umbrais daquelas salas, que ultrapassei o ano mais desafiador de minha carreira profissional. 2009 foi longo. Venci a gripe suína, os prazos, as escriturações, as apostilas, as histórias, a geografia, os alunos, as burocracias sem fim. Fiz novos amigos e ganhei novas dores de cabeça.
E agora, passado o ano, rememoro. Sinto-me como "Funes, o memorioso", de Borges. Precisaria de todo o ano de 2010 para absorver tudo o que me ocorreu em 2009. Como isso não é possível, simplesmente seleciono e esqueço. Afinal, esquecer não é o fio de ouro do lembrar? Sim, é.
E, ao esquecer, agradeço. Deixo um muito obrigado às novas amizades, que forjo também para os anos próximos. Para a Elise, que me suportou, sob a névoa de um 2009 que se recusava a acabar. Para Deus, infinito, onipotente, meu Salvador. Enfim, 2009 é findo. Sobrevivi. Feliz 2010.
Postado por Diário Halotano.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
[Imagem não disponível. Não parece haver imagens para o que dói no coração.]
Muitas vezes eu simplesmente gostaria de estar sozinho no mundo, nem que por algumas horas, dias. Outras, sinto as dores do mundo todo, dentro desta caixa que chamo de corpo. Ontem, percebi o valor que há na coexistência de indivíduos, não da humanidade. Hoje, a ambivalência de estar dentro de mim mesmo. Quero o que não posso ter, o intangível. Não alimento desejos pelo que já mantenho posse. O que poderia ser mais moderno do que este sentimento?
Seria este cálice amargo apenas o apego pelo novo, a "novolatria", tão característica da Modernidade? Estaria eu antevendo a ociosidade do período de férias, tão assustadora para alguém viciado em trabalho? Que rios correm em mim? Que limites e fronteiras se debatem tão freneticamente dentro do meu peito aberto e nu? Quais obrigações quero eu evitar? Quais prazeres quero fruir, na ilusão da felicidade infantil, que não sabe maturar o esforço, a dor, a decepção?
Quais as vésperas, enfim, do dia de hoje? Quais os batimentos cardíacos que me trouxeram para o que hoje sinto? Coração canhoto? Ainda e de novo? Há respostas para indagações existenciais, em um mundo materialista? Há materialismo de fato, em um self tão carente da experiência "benjaminiana"? Há um self, em si? Há Hegel, Kafka, Benjamin e Marx?
O mundo, fora de mim mesmo, existe? Como se apresenta, em uma situação histórica tão fragmentada e, ao mesmo tempo, massificada? Qual o lugar filosófico desta ambivalência fratura-homogeneidade? Ou tanto melhor, qual o meu lugar? Qual minha identidade cultural? Existe? Sou? Quem?
Postado por Diário Halotano.
Muitas vezes eu simplesmente gostaria de estar sozinho no mundo, nem que por algumas horas, dias. Outras, sinto as dores do mundo todo, dentro desta caixa que chamo de corpo. Ontem, percebi o valor que há na coexistência de indivíduos, não da humanidade. Hoje, a ambivalência de estar dentro de mim mesmo. Quero o que não posso ter, o intangível. Não alimento desejos pelo que já mantenho posse. O que poderia ser mais moderno do que este sentimento?
Seria este cálice amargo apenas o apego pelo novo, a "novolatria", tão característica da Modernidade? Estaria eu antevendo a ociosidade do período de férias, tão assustadora para alguém viciado em trabalho? Que rios correm em mim? Que limites e fronteiras se debatem tão freneticamente dentro do meu peito aberto e nu? Quais obrigações quero eu evitar? Quais prazeres quero fruir, na ilusão da felicidade infantil, que não sabe maturar o esforço, a dor, a decepção?
Quais as vésperas, enfim, do dia de hoje? Quais os batimentos cardíacos que me trouxeram para o que hoje sinto? Coração canhoto? Ainda e de novo? Há respostas para indagações existenciais, em um mundo materialista? Há materialismo de fato, em um self tão carente da experiência "benjaminiana"? Há um self, em si? Há Hegel, Kafka, Benjamin e Marx?
O mundo, fora de mim mesmo, existe? Como se apresenta, em uma situação histórica tão fragmentada e, ao mesmo tempo, massificada? Qual o lugar filosófico desta ambivalência fratura-homogeneidade? Ou tanto melhor, qual o meu lugar? Qual minha identidade cultural? Existe? Sou? Quem?
Postado por Diário Halotano.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Foto: "O Estado do Tapajós Online"
O que é a Várzea senão "a campina plana às margens de um rio que em época de enchente é inundada com as águas deste último"; segundo a definição da Wikipédia, muito mais sabida do que todos nós?
Ah, mas eu digo a você que muitos outros significados possuem esta palavrinha na sabedoria popular, outra muito mais astuta do que nóis tudo junto!
Quem nunca ouviu a palavra sendo usada quando uma situação muito, mais muito inacreditavelmente precária acontece? Sabe, quando a "vaca vai pro brejo"? Quando o seu chefe pede uma coisa hoje, outra, oposta, amanhã? Quando seu aluno pede um ponto a mais na média, mas fala sério. Mesmo! Até argumenta contigo... (Pior! Quando sua própria liderança pede um ponto a mais... Ah, deixa pra lá...) Ou quando você encontra na empresa erros seriíssimos de estrutura, ou simplesmente a falta dela. E por aí vai...
Poderia eu ficar aqui por longos parágrafos descrevendo situações varzeanas. Horas a fio de leitura, descrição, análise, crítica, gracejo, memória, várzea. Porém, contudo, entretanto e todavia, prefiro ficar com o poeta...
"Vida Varzeana é a minha.
Chuva, cheia, charco, cheiro, Chica, chimarrão, cachaça, chispa!
Hoje, tudo molhado, amanhã e depois...
Sei lá, quando seca perde a graça. Quando alaga é o de sempre.
A novidade seria nunca mais ver tudo fora do lugar.
Vida Varzeana é a minha.
Resisto enquanto posso!
Búfalo de casco estreito, água de passo largo...
Hoje chove, amanhã e depois...
Sei lá, novidade seria eu parar de lutar!
Postado por Diário Halotano.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Foto: Venice Beach Rock Festival, 1968: sete&ismos.
Não, não quero contestar a ditadura, tanto menos travar debates sobre Maio de 68! Hoje, apenas compartilhar sensações...
Imagine-se, como acabo de fazer, estrelando um espetáculo de rock. Não nos modernos teatros e palcos super tecnológicos. Mas ao ar livre, debulhando uma guitarra ao som de gritos frenéticos de seus fãs. Sinta o vento no meio da cara; o suor no meio da testa; o barulho ensurdecedor no meio dos tímpanos! Suspire...
Não seria isso efetivamente viver uma vida só sua? Plena de sensações únicas? Encher os pulmões de ar? Expressar-se artisticamente para uma multidão em massa? Sair de casa, aquele útero?
Ah, não vou responder a essas indagações retóricas e com cara de teaser. Só vou dizer que a vida é meio assim, muitas vezes, impulsiva, revestida de intenções, raciocínios lógicos e ideias aparentemente muito firmes. Porém, no fundo, tudo o que desejamos é dedilhar a guitarra da nossa própria história!
Postado por Diário Halotano.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Foto: Olhares - Fotografia online
Eu ainda circulava a capital dentro de um ônibus, quando o conheci. Logo puxou papo, como se não pudesse mais perder tempo, com pressa, afobado e urgente: "- Não posso mais perder um segundo", ele disse. E conversamos. Foram horas longas de um colóquio frenético, cálculos físicos, estrapolações metodológicas, tentativas de compreensão unilateral (afinal, eu não conseguia falar, não havia tempo).
Ele me contou o drama de sua vida. Segundo uma definição própria, era ele o "homem do milésimo de segundo". Longe de ser apenas mais um nerd com síndrome de super herói, Vandelay confidenciou-me que, para qualquer situação de emergência, tinha as melhores soluções possíveis no mundo! Entretanto, sempre que o momento decisivo se apresentava, ele travava, por míseros milésimos de segundo, não apresentando a saída em tempo, sendo ultrapassado por outros, nem sempre melhores do que ele, apenas mais rápidos.
Veloz, como quem não suporta mais a ideia de perder tempo, Vandelay foi descrevendo, uma a uma, as circunstâncias nas quais a sua síndrome se apresentava: nas disputas de bola do futebol; nas reuniões do trabalho; nas discussões com a namorada; naquelas galhofas infames, em que são necessárias respostas rápidas e precisas... Para tudo isso Vandelay tinha as melhores soluções, que, ah, apareciam em sua mente com certo atraso, de milésimos de segundo. E, desesperado, Vandelay ia acrescentando ao relato centenas de momentos que, para qualquer ser humano habitante da metrópole, pareceriam banais e corriqueiros, mas que, para ele, eram ocasiões de extrema angústia!
Metáfora da vida citadina na modernidade, Vandelay criava o novo como ninguém, mas com atraso. Driblava como ninguém, mas com atraso. Debatia cálculos físicos como ninguém, mas com atraso. Relacionava-se como ninguém, mas...
Até que, como um relâmpago, sugeri a Vandelay: "- Por que não decide refletir sobre seus milésimos de segundo? Deixe o futebol, as ações, esse trabalho exaustivo e sem significado. Vire filósofo, escritor, músico, sei lá..." Vandelay, em pausa, como quem espera, retrucou: "- Talvez tenha razão, só sei que, milésimos de segundo depois que eu descer do ônibus, terei uma resposta ótima para você!"
Postado por Diário Halotano.
terça-feira, 3 de novembro de 2009

Há algum tempo procurei uma escrita semelhante ao espírito de Hank Moody, personagem de David Duchovny em Californication. Algo forte, cativante, masculino e sedutor. Quase que uma voz lírica alternativa, um alter ego de minhas letras filosóficas e chatas.
Então me deparei com um blog vermelho, escrito por um chato como eu, todavia muito mais ousado e generoso.
Por ali circulam mulheres, saias, esmaltes, marcas de batom, camisas rasgadas e opiniões delirantes sobre o gênero masculino e seu objeto de desejo. Tudo isso com honestidade e fidelidade, bem ao estilo Hank Moody de ser.
Sou já leitor e seguidor. Recomendo: "O Blog Vermelho dos Pensamentos de um Chato". Boa leitura!
Postado por Diário Halotano.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Enquanto vocês me leem aqui, devo estar em um encontro social importantíssimo. Não sei se chove, ou se a noite é, de uma outra maneira, linda e estrelada. Mas e daí, textos sobre a chuva são belos, mesmo sob os astros do universo!
A chuva se prepara, como quem executará um solo operístico! Gargarejos, arpejos, garganteios e lampejos. Assusta os espectadores.
O concerto da Chuva começa! Em um mezzo forte, movimento Allegro Moderato. Logo em fortíssimo e Presto, para o devaneio dos ouvintes.
Como em um solo interrompido de um Requiem, a chuva termina seu concerto vespertino. Sem aplausos, sem vaias; somente o suspiro...
Boa semana para você. Um desejo atemporal, nos dois sentidos!
Postado por Diário Halotano.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Já é parte integrante da sabedoria popular a eficiência do sabão em pó OMO, para a limpeza têxtil doméstica. Frases de propaganda famosas, como "Porque se sujar faz bem", ficarão ainda na memória coletiva por um tempo. Todavia, mais do que promover a marca saponácea da famigerada Unilever, quero compartilhar hoje uma história...
Era uma vez uma cidade, grande e populosa. Uma cidade na qual os acasos eram todos determinados. Seus munícipes caminhavam sem muita esperança de algo novo e melhor.
Mas, em um ano qualquer, dizem que 2099, eis que quatro desses sujeitos paulistas, como frutos da coincidência, encontram-se em uma mesma empresa educacional, como professores da existência, como inquietos propagadores dos saberes!
Algum tempo se passou, foram-se conhecendo, aos poucos, não timidamente. Entre um aprendiz e outro; entre uma letra, um número; aprendiam que a melhor das filosofias estava no contato, forjado ali mesmo, entre eles, no dia-a-dia, nas conversas, nos intervalos e nas anedotas.
O vínculo aumentou, os interesses comuns fortaleceram o quarteto, a vontade de expandir a amizade para além dos muros da escola foi inevitável. Aconteceu! Logo viam-se nos fast foods da região, sempre no mesmo dia da semana, como que em uma tradição velada, porém fiel.
Da refeição rápida, passaram aos encontros mais intimistas, na morada de um deles, ali perto, como quem deseja estender o tempo, que escoa, e acelera inevitavelmente as nossas vidas... Pães, frios, bolo, café, chá, groselha. Ali se reuniam, no mesmo dia da semana, ao fim de um corredor longo e molhado, limpo como que pronto para as brincadeiras pueris de escorregar e cair.
E como tudo o que é bom e redentor, o grupo cresceu. Claro, para isso, foi quase que necessária a inserção de placas e pinos de metal, mas isso é outra história. A sociedade aumentou, como que motivada pela alegria! Ficou, então, por um lado, mais alta; por outro, mais bela (belíssima eu diria).
Se o corredor era mesmo ensopado com o tal OMO, fica o suspense... Entretanto, a partir dali, os quatro, ao se comunicarem usando o nome da marca, criaram, sem perceber, uma metáfora! Metáfora do encontro! Do prazer! Da vontade de estar junto. Como no "Chocolate", ao sentirem os ventos da quarta-feira, todos eles se reúnem no dia seguinte, sem perguntas, sem confirmações, sem julgamentos... Apenas 6 amigos, imperfeitos sob a delícia dos sorrisos de quem se sente em casa!
Postado por Diário Halotano.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009

É... Em alguns momentos apoiamos, em outros retiramos o ombro, bruscamente, como quem somente se importa com o outro quando o próprio calo está intacto.
Quando falamos por cifras, corremos o risco de desafinar... Nem todo idioleto é preciso como uma sinfonia! Para isso ensaiamos, exaustivamente. Mas a exaustão é uma pedra em nosso caminho, na modernidade. Não nos exaurimos com mais nada hoje, apenas simulamos o toque de um barco, em força total, sem olhar para trás. Mal percebemos que nem o barco é nosso, apesar de a vida o ser. A Modernidade não tem memória, aniquila nossa afetividade, torna-nos zumbis, carentes de necessidades básicas e fantasmagóricas.
E pensamos que pensamos, distraídos que somos da existência do alheio e da consciência de nosso próprio self.
Nossas próprias palavras são ocas, cascas sem sementes, agentes destruidores. Prometemos, no interior da inconsistência. Juramos, no seio da infidelidade. Descumprimos tudo, ao menor sinal de risco, ou simplesmente por interesses egoístas e mesquinhos. “Resignificamos” cada expressão ideológica, ou princípio formador do caráter, afinal o mundo pertence aos relativistas.
Apontamos nossa acidez ao comportamento de sujeitos indeterminados, desafiamos a honestidade da humanidade inteira; pretensiosos e tendenciosos. Mas a quem julgamos senão a nós mesmos, quando dos tantos “alguéns” mencionamos as distorções, em nossas críticas exacerbadas? No mais íntimo de nossa incongruência, não percebemos que é nas decepções e angústias que nos revelamos a nós mesmos. Por isso, vivemos toda uma existência conhecendo amigos virtuais, sem nunca cumprimentarmos o nosso próprio eu, enclausurado e nu, batendo à porta de nossa consciência latente e inerte!
Postado por Diário Halotano.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Nunca fui atingido por tão longo bloqueio criativo; imaginei mil cenas fotografei mil paisagens e nenhuma delas falou-me mais forte do que as mil palavras que me libertariam deste calabouço; algum tempo se passou desde minha última letra em prosa e sigo em um gerúndio que não me solta; escrevo sem pausas e rupturas como o faria Raduan Nassar e mesmo assim encontro-me ofegante como se vivesse com ar demais em minhas narinas incapazes de respirar; sinto-me encarnando a metamorfose da metáfora daquilo que muda e não se cabe mais no mesmo mundo em que se nasceu ainda por esses dias; hoje foi um dia que mudou tudo e eu deveria sobre ele escrever mil poesias e mil contos e mil histórias fantásticas sobre o poder daquilo que nos transforma o ser em mil pedaços diferentes; mas a única palavra que sobrevoa minha cabeça é a fome que me mostra o longo caminho a seguir até que o jardim de minhas ideias ofereçam a mim e ao mundo outras palavras dessas que formam textos inteiros em nossas vidas...
Postado por Diário Halotano.
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