quinta-feira, 29 de outubro de 2009




Enquanto vocês me leem aqui, devo estar em um encontro social importantíssimo. Não sei se chove, ou se a noite é, de uma outra maneira, linda e estrelada. Mas e daí, textos sobre a chuva são belos, mesmo sob os astros do universo!

A chuva se prepara, como quem executará um solo operístico! Gargarejos, arpejos, garganteios e lampejos. Assusta os espectadores.

O concerto da Chuva começa! Em um mezzo forte, movimento Allegro Moderato. Logo em fortíssimo e Presto, para o devaneio dos ouvintes.

Como em um solo interrompido de um Requiem, a chuva termina seu concerto vespertino. Sem aplausos, sem vaias; somente o suspiro...

Boa semana para você. Um desejo atemporal, nos dois sentidos!

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segunda-feira, 26 de outubro de 2009




Já é parte integrante da sabedoria popular a eficiência do sabão em pó OMO, para a limpeza têxtil doméstica. Frases de propaganda famosas, como "Porque se sujar faz bem", ficarão ainda na memória coletiva por um tempo. Todavia, mais do que promover a marca saponácea da famigerada Unilever, quero compartilhar hoje uma história...

Era uma vez uma cidade, grande e populosa. Uma cidade na qual os acasos eram todos determinados. Seus munícipes caminhavam sem muita esperança de algo novo e melhor.

Mas, em um ano qualquer, dizem que 2099, eis que quatro desses sujeitos paulistas, como frutos da coincidência, encontram-se em uma mesma empresa educacional, como professores da existência, como inquietos propagadores dos saberes!

Algum tempo se passou, foram-se conhecendo, aos poucos, não timidamente. Entre um aprendiz e outro; entre uma letra, um número; aprendiam que a melhor das filosofias estava no contato, forjado ali mesmo, entre eles, no dia-a-dia, nas conversas, nos intervalos e nas anedotas.

O vínculo aumentou, os interesses comuns fortaleceram o quarteto, a vontade de expandir a amizade para além dos muros da escola foi inevitável. Aconteceu! Logo viam-se nos fast foods da região, sempre no mesmo dia da semana, como que em uma tradição velada, porém fiel.

Da refeição rápida, passaram aos encontros mais intimistas, na morada de um deles, ali perto, como quem deseja estender o tempo, que escoa, e acelera inevitavelmente as nossas vidas... Pães, frios, bolo, café, chá, groselha. Ali se reuniam, no mesmo dia da semana, ao fim de um corredor longo e molhado, limpo como que pronto para as brincadeiras pueris de escorregar e cair.

E como tudo o que é bom e redentor, o grupo cresceu. Claro, para isso, foi quase que necessária a inserção de placas e pinos de metal, mas isso é outra história. A sociedade aumentou, como que motivada pela alegria! Ficou, então, por um lado, mais alta; por outro, mais bela (belíssima eu diria).

Se o corredor era mesmo ensopado com o tal OMO, fica o suspense... Entretanto, a partir dali, os quatro, ao se comunicarem usando o nome da marca, criaram, sem perceber, uma metáfora! Metáfora do encontro! Do prazer! Da vontade de estar junto. Como no "Chocolate", ao sentirem os ventos da quarta-feira, todos eles se reúnem no dia seguinte, sem perguntas, sem confirmações, sem julgamentos... Apenas 6 amigos, imperfeitos sob a delícia dos sorrisos de quem se sente em casa!

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quarta-feira, 21 de outubro de 2009




É... Em alguns momentos apoiamos, em outros retiramos o ombro, bruscamente, como quem somente se importa com o outro quando o próprio calo está intacto.

Quando falamos por cifras, corremos o risco de desafinar... Nem todo idioleto é preciso como uma sinfonia! Para isso ensaiamos, exaustivamente. Mas a exaustão é uma pedra em nosso caminho, na modernidade. Não nos exaurimos com mais nada hoje, apenas simulamos o toque de um barco, em força total, sem olhar para trás. Mal percebemos que nem o barco é nosso, apesar de a vida o ser. A Modernidade não tem memória, aniquila nossa afetividade, torna-nos zumbis, carentes de necessidades básicas e fantasmagóricas.

E pensamos que pensamos, distraídos que somos da existência do alheio e da consciência de nosso próprio self.

Nossas próprias palavras são ocas, cascas sem sementes, agentes destruidores. Prometemos, no interior da inconsistência. Juramos, no seio da infidelidade. Descumprimos tudo, ao menor sinal de risco, ou simplesmente por interesses egoístas e mesquinhos. “Resignificamos” cada expressão ideológica, ou princípio formador do caráter, afinal o mundo pertence aos relativistas.

Apontamos nossa acidez ao comportamento de sujeitos indeterminados, desafiamos a honestidade da humanidade inteira; pretensiosos e tendenciosos. Mas a quem julgamos senão a nós mesmos, quando dos tantos “alguéns” mencionamos as distorções, em nossas críticas exacerbadas? No mais íntimo de nossa incongruência, não percebemos que é nas decepções e angústias que nos revelamos a nós mesmos. Por isso, vivemos toda uma existência conhecendo amigos virtuais, sem nunca cumprimentarmos o nosso próprio eu, enclausurado e nu, batendo à porta de nossa consciência latente e inerte!

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segunda-feira, 19 de outubro de 2009




Nunca fui atingido por tão longo bloqueio criativo; imaginei mil cenas fotografei mil paisagens e nenhuma delas falou-me mais forte do que as mil palavras que me libertariam deste calabouço; algum tempo se passou desde minha última letra em prosa e sigo em um gerúndio que não me solta; escrevo sem pausas e rupturas como o faria Raduan Nassar e mesmo assim encontro-me ofegante como se vivesse com ar demais em minhas narinas incapazes de respirar; sinto-me encarnando a metamorfose da metáfora daquilo que muda e não se cabe mais no mesmo mundo em que se nasceu ainda por esses dias; hoje foi um dia que mudou tudo e eu deveria sobre ele escrever mil poesias e mil contos e mil histórias fantásticas sobre o poder daquilo que nos transforma o ser em mil pedaços diferentes; mas a única palavra que sobrevoa minha cabeça é a fome que me mostra o longo caminho a seguir até que o jardim de minhas ideias ofereçam a mim e ao mundo outras palavras dessas que formam textos inteiros em nossas vidas...

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segunda-feira, 28 de setembro de 2009




Nunca escrevi sobre bloqueios criativos, pois eles são impassíveis de definição, apenas sujeitos à espera e muita paciência. Muitos o tentam explicar, porém todos os que sobre ele minutam têm o mesmo objetivo: ultrapassá-lo!

Enquanto como macarrão e penso sobre a continuação do capítulo do meu livro, ofereço-me para esta banalização da escrita automática, que é um blog. Permito-me esta auto-indulgência, afinal, todos deveriam ter o direito de um espaço escrito no qual errar e desfazer-se do peso que é tentar escrever com consistência.

E, enquanto passo do macarrão à canjica, não me desespero e me dedico, sem me apegar, à essa escrita prosaica e despretensiosa, tentando apenas cuidar do meu canteiro das ideias, até que ele volte a dar frutos.

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segunda-feira, 21 de setembro de 2009


Imagem: http://roballolereaprender.blogspot.com/


Ah, existe sim um submundo da educação. Entremeado de subornos, ofensas, mandonismos e prostituição intelectual. E estamos todos inseridos nele, ou como participantes ávidos, ou como vitimas, ou como críticos! É um modelo velado, mas tão presente quanto a luz do sol nas sombras.

E vivemos neste contexto como vivem os processados de Kafka, ou os cândidos de Voltaire. Ou como agentes, ou como vítimas silenciosas e deslocadas, em um mundo que não nos pertence (e a ele não pertencemos), definitivamente!

É, mas como já afirmou um texto anterior, seguimos seguindo, em um gerúndio que, apesar de vir a calhar, torna-se cada vez mais áspero!

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quarta-feira, 16 de setembro de 2009




Ossos vítreos, estáticos. Vozes estranhas, distantes. Amplitude arquitetônica em corredores perpendiculares, racionais. Não há fotos nas paredes, ausência da memória. Aqui não se celebra o passado, vive-se um presente pragmático e calculado; projeta-se o futuro, maquinalmente, sem angústias, sem perguntas, quase sem reflexão crítica.

Ossos, moribundos nos corredores, sob a luz da rua, são mais livres do que emparedados, em suas saletas quadradas, presos em sua realidade auto-gerida de investigadores da vida, ausente.

Ossos, esqueletos de uma montagem auto-suficiente sem relevância aos de fora. Quem se importa com o que se passa nessas arcadas, amplas e retas? Quem se beneficia senão somente aqueles que delas bebem os químicos mortíferos da ausência completa de criatividade? Pó, escombro, carcaça, palha, formol. Modorrentos simulacros da morte após a vida.

Ossos vítreos, estáticos. Vozes estranhas, distantes, desconhecidas. Solidão. Amplitude arquitetônica em conexões alinhadas. Pavor. Tudo está claro e sombrio. Vejo vultos por todos os lados. A cada janela, a luz. A cada porta, espectros do que não existe, aracnídeos gigantes e ilusões ópticas monstruosas.

Ossos, em um estalar de ossos, sou um inseto. Grande, articulado e horrendo. Misturo-me a outros restos, mas não pertenço a este lugar.

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domingo, 13 de setembro de 2009

Manifesto.




Observo as luzes da cidade, da janela, como de costume. Hoje foi um dia solitário, caminhei no parque. A solitude troxe à tona novos pensamentos sobre velhas dúvidas.

Tomei decisões importantes hoje. Sobre minha vida a dois com a Elise, meu trabalho, minhas perspectivas criativas, minha abordagem metafísica da realidade, minha saúde (mental, física, espiritual), sobre como usar os pronomes possessivos com mais qualidade.

Decidi correr riscos e amadurecer. A ambiguidade criativa, que tanto me marcou nos últimos anos, será um pouco deixada de lado. Adoto, a partir de hoje, uma posura mais prática e mais direta. Meus textos, assim espero, tomam novos rumos. Deixo as reticências e tomo pontos finais, dúvidas se transformam em decisões. Textos efêmeros, como este, nesta plataforma virtual, deverão reformular-se em capítulos de um livro. A fase de transição e dependência intelectual chega ao fim. É um marco!

As metáforas, em suas várias facetas, transformam-se em comédia, a verdadeira arte de dizer a verdade. A impovisação, em preparação, a verdadeira técnica da honestidade. A adoração do passado, em perspectivas de futuro, o verdadeiro caminho da busca pela felicidade.

Sejam bem vindos. Hoje este espaço virtual se reinaugura. Reaberto para o público. Renovado para mim mesmo.

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segunda-feira, 7 de setembro de 2009




Já escrevi sobre o infinito... Assim como já o fizeram diversos literatos, filósofos, músicos, angustiados de plantão. O infinito nos atrai, porque nos sentimos seres incompletos, sempre. A ausência de nós mesmos clama por um infinito que acaba a cada dia, e se renova. Mais uma vez, tecemos poesias como máquinas de lavar louças, quase sem perceber que construímos o infinito a cada nova manhã.

Dia após dia, portanto, enchemo-nos de nós mesmos, como que restaurando o que há de vir, e que ainda não é, mas já está lá. Viajamos, trabalhamos, concorremos pela melhor costela ao molho! Somos nós mesmos, com medo, esperança, fidelidade, estranheza, fisionomia, reflexos no espelho... E compartilhamos isso tudo com quem quiser nos acompanhar, afinal, provar o que somos é cansativo e monótono. Esse jogo do vai-e-vem é sempre tão previsível, competitivo...

Somos o que somos. Somos o que seremos. Somos o que bem entendemos, nessa nossa concha que chamamos vida. Viver é bom sim! E ninguém tem lá muito a ver com o que escolhemos para preencher esse verbo chamado centelha de vida!

[Texto escrito em homenagem ao aniversário de Luis Miguel Zanin. Feliz Aniversário! Eu estava lá...]

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domingo, 6 de setembro de 2009


Como um menino saído de um livro do Kafka, contemplo a rua pela janela do quarto. Não há aqui nenhum senhor que me condene o ato, dizendo-o preguiçoso ou pouco produtivo. E, da janela, vejo muitos passarinhos. Há ainda alguns, persistentes, heróis da sobrevivência, sobrevoando a copa de pequeninas árvores citadinas.

É quase um bálsamo olhar o que restou da vida natural, em uma cidade que cresce até em suas bordas periféricas. Não nos faz esquecer os problemas e dores, entretanto nos conecta com algo maior do que nós, livre e solto; alegre e bonito.

Foi mais fácil trabalhar hoje, com o canto dos passarinhos, felizes pelo fim da chuva, revigorante, mas doída nas asas e na pele.

Que outros domingos como este venham me abraçar, como me afagou a alma o dia de hoje. Que mais e mais pássaros voem na copa das pequeninas árvores. É uma delícia vê-los! A contemplação é tão rara nos dias corridos da semana toda, que me surpreendi ao saber que ainda possuo essa habilidade viva em meu ser. E, é verdade, a contemplação salva!

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domingo, 23 de agosto de 2009

O Jonalismo dos Patrões




Olá leitores. Depois de muitas conversas com um urso no quarto ao lado, reproduzo aqui o editorial de Mino Carta para a Carta Capital Nº 559, intitulado: "O jornalismo dos patrões - Até o mundo mineral sabe que quem acusa tem de provar. A mídia nativa não sabe". O editorial pode ser lido no
site da Carta Capital
, assim como em sua edição 559. Segue abaixo, na íntegra:


A mídia nativa tem, às vezes, o poder de me espantar. Ou, por outra, me obriga a meditar sobre a serventia do jornalismo e as responsabilidades que daí decorrem.

Leio o primeiro editorial da página 3 do Estadão de terça 11, intitulado “Mais um escorregão de Dilma” (quais foram os anteriores?), a ministra-chefe da Casa Civil que “o prestimoso presidente (...) ungiu como sucessora em potencial”. Miram os obuses em Dilma Rousseff, contra Lula, portanto. A ministra teria pedido, ainda em 2008, à então secretária da Receita Federal, Lina Maria Vieira, para agilizar a auditoria do Fisco nas empresas da família Sarney.

O editorial foi altamente representativo do comportamento de toda a mídia em relação ao caso e lhe concedo a primazia em nome da antiguidade e da importância das baterias. Decretam os senhores midiáticos que dona Lina era, e é, o rosto da verdade, e o Estadão, naquele texto simbólico, alinhavou à larga as razões do seu veredicto. Atendia às conclusões gerais dos demais integrantes da comunidade jornalística, a bem do pensamento dos frequentadores do privilégio e do ódio de classe.


“Mais um escândalo, enfim, que o lulismo tentará abafar.” Últimas palavras, famosas, do editorial do Estadão. A leitura forçou-me a perguntar aos meus insubstituíveis botões: serei eu um lulista ao tentar uma análise isenta do episódio, conforme o dever, creio, de todo jornalista? Por exemplo, uma análise que parta da avaliação honesta das atitudes de dona Lina e de dona Dilma. Era do conhecimento até dos paralelepípedos da antiga rua Augusta, célebre artéria paulistana hoje asfaltada, que quem acusa deve provar.

Ocorre que dona Dilma nega in totum a acusação de dona Lina, e não estamos a lidar com as alegres comadres de Windsor. Proclama o Estadão: ao demitir a secretária da Receita, seu superior, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, teria confessado cumprir ordem que “veio de cima”. Disse mesmo? Ou é dona Lina quem diz? E por que, de todo modo, em cima estaria dona Dilma?

A mídia, seus patrões e editorialistas, colunistas, perdigueiros da informação, não se permitiram e não se permitem exames de consciência em ocasiões múltiplas e diversas. Cabe, desde 2003, semear pedras no caminho de Lula e, desde 2007, de sua ungida a “sucessora em potencial”. Vale então outra pergunta: a favor de quem?

O governo Lula, na opinião de CartaCapital, não foi aquele que esperávamos, mesmo assim saiu-se melhor do que os demais na pós-ditadura, e bastariam a eleição e a reeleição do ex-metalúrgico para assinalar um divisor de águas na história do País. Não é por acaso que o presidente é o mais popular desde a fundação da República. Aos olhos da maioria pouco importa o que Lula faz, importa quem ele é.

Em contrapartida, dona Dilma não é ex-operária. Se for candidata, os demais concorrentes também não serão. Observem, contudo, como é apresentada a possível, ou mesmo provável, candidatura da ex-ministra e senadora Marina Silva. Ganha o transparente, simpático apoio da mídia, como a incentivá-la a tomar a decisão final. Por quê? Para significar um contraponto à candidatura Dilma e gerar uma profícua confusão na área.

Carta Capital sempre manifestou profundo respeito e apreço pela senadora Marina, e lamentou sem meias palavras sua saída do governo. Trata-se, na nossa opinião, de uma verdadeira dama em luta pelas melhores causas. Na Presidência, inalcançável, acreditamos, nas condições atuais, honraria o Brasil. Não se enganem, entretanto: sua candidatura será trombeteada por quem se empenha pelo retorno do tucanato.

Quanto à presença de um passado mais ou menos burguês (não é o caso da senadora) no currículo dos possíveis sucessores de Lula, este é, para todos eles, um ponderável motivo de preocupação.

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domingo, 16 de agosto de 2009




Este é o primeiro texto no apartamento novo. E, como não poderia deixar de ser, estou escrevendo da janela do escritório, olhando a noite, as nuvens no céu ainda em fim-de-tarde. Sou um observador, gosto de olhar o que se passa alheio à minha vontade, indiferente, aleatório. Pessoas, carros, vozes, aviões, sons, gols, jardim, crianças, ruídos indecifráveis, cheiros e sensações. Estas, porém, só minhas, únicas, "incompartilháveis".

Tem sido, o ano de 2009, muito bom. De tantos adjetivos possíveis em nossa língua, a locução "muito bom" parece caber como luva de veludo, confortável e bela. Novos empregos, novo carro, novo apartamento, vida nova com a Elise. Muito bom!

E sigo observando. Esperando. Motivando. Atuando. Simplesmente, hoje, mais do que nunca, sigo seguindo, em um gerúndio que vem a calhar. Eu mesmo, assim como minha escrita, sou uma arte do infinito, sempre um pedaço faltando, todavia sempre em movimento. Boa noite.

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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Escrever é Arte da Vida Inteira




A escrita é uma arte da vida inteira. Ouvimos histórias, lemos romances e contos, estudamos teoria literária e praticamos. Construímos cada palavra como quem constrói uma casa, como quem pinta um quadro, como quem esculpe em pedra sabão... Tijolo a tijolo, cores em cores, com ferramentas especiais, para não destruir uma peça inteira.

E a cada palavra nova, uma frase em oração. A cada linha, ponto, exclamação, aprendemos algo novo de nós mesmos. A escrita nos tira o que está ali, latente, porém interior. Imagino-a como um fotógrafo do inconsciente, revela nossas inquietações, todavia, o faz em palavras elaboradas, refinadas e polidas. Nem sempre escrevemos o que sentimos de verdade, mas sempre sentimos a verdade do que escrevemos, sempre!

A escrita é uma arte da formação, nunca se completa, mesmo quando chega ao leitor. É, acho, um círculo com um pedaço faltando. Ou um sinal de infinito, com um pedaço faltando. Inexiste uma obra completa, mesmo sob o ponto de vista do autor (afinal, as leituras alheias são infinitas mesmo). Uma obra é um marco, que, por ser histórico, é transitório, passageiro, verdadeiro por um período, que não pode ser contado.

É uma arte da continuidade, por assim dizer, aprendemos enquanto executamos. E aprender é humilde, aprendemos de nós mesmos, todavia, fundamentalmente, dos outros. A escrita é uma metáfora do círculo, do infinito; porém é, sob esta referência, também figura da louça na pia. Lavamos sempre, e ela estará ali, sempre também, até que morremos e paramos de escrever, nunca mais lavamos a louça. E, ambas, continuarão seus caminhos, a escrita e a louça, lidas e lavadas, por olhos e mãos alheias... Afinal, o infinito da escrita não acaba, não é mesmo? Terá sempre um pedacinho faltando...

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sexta-feira, 17 de julho de 2009


Imagem: http://pixs.media.mit.edu/pictures/show/12058


Sacode as nuvens

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.

(Sophia de Melo Bryner Andresen)



Quando pensamos sozinhos sobre integridade, ou quando aconselhamos a alguém: "seja honesto consigo mesmo", geralmente não associamos a esta ideia uma outra, a de "história de vida". Apesar de estarmos todos vinculados pelo contexto severo das relações em forma de mercadoria (cf. Marx) e pela lógica do espetáculo (cf. Marcuse), somos indivíduos com trajetórias diversas e, portanto, com maneiras suavemente distintas de manifestar ao outro nosso entendimento acerca da retidão moral que nos serve de base.

Todos nós, com exceção justa daqueles que sofrem com algum grau de amnésia, somos seres construídos por nossas memórias. Memórias recentes, esquecimentos intencionais, traumas de infância, felicidades, dores, angústias, prazeres, imagens inventadas nas nuvens... Nossa bagagem memorial, como um espelho quebrado, ao chão, é uma coleção de cacos, que juntamos e separamos, conforme a vida se apresenta por debaixo de nossos pés. E, é claro, cada um de nós tem sua própria mala de lembranças.

Assim, no momento exato em que precisamos ser honestos conosco mesmos, ou com o outro, utilizamos nossas "roupas da memória", colocando em xeque nossa integridade, ou nossa compreensão do que ela seja. Ao menos, é isso que fazem os reflexivos, afinal, aqueles movidos por impulsos não refletem, simplesmente atuam em um palco que sempre parece pequeno demais para o seu self.

Decisões, como já se cansou de repetir o clichê, são feitas todos os dias e, sem ao menos percebermos, são resultados de um mapeamento cerebral (quanto maior a área geográfica, mais preciso é o resultado, por incrível que pareça) muito eficaz de nosso conjunto memorial. Nosso cérebro, fora de nosso controle, executa uma varredura daquilo que aprendemos, do que já deu certo, ou errado, de nossas convicções religiosas, de acontecimentos alheios, etc. Ao final, tomamos uma decisão baseada em critérios essencialmente memoriais, mesmo quando uma situação completamente nova nos é apresentada pela realidade circundante.

Não e à toa que muitas de nossas descobertas (leia-se epifanias) nos vêm em situações críticas, nas quais somos confrontados com os maiores desafios de nossa integridade e honestidade. Em contextos desafiadores, nossas memórias dançam com nossos receptores cerebrais, causando ondas decisórias importantíssimas, que, por sua vez, marcarão nossa história de vida e, é claro, nossas decisões futuras.

Nesse sentido, somos nós mesmos o espelho quebrado ao chão. Divididos em memórias tão complexas quanto a quantidade de cacos a nossa disposição. Nunca conseguiremos juntar os pedaços de nós mesmos, pois nossas memórias sempre se apresentarão aos estilhaços, embaralhadas, esperando o momento certo para se manifestarem. Essa é a razão de nossa angústia essencial: o preço da complexidade do espírito humano.

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segunda-feira, 13 de julho de 2009




Eu estou em Férias. O Diário Halotano também.

Até Agosto.

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quarta-feira, 24 de junho de 2009




São numerosas as metáforas sobre as crianças. Ingenuidade, pureza, início, novidade, futuro, inocência, frescor, primavera, flores, atividade (hiperatividade), paz, sinceridade, formação, transformação. São palavras positivas, carregadas de um sentido de "por vir". O presente parece irrelevante, impreciso, alheio. O futuro é importante, como que se o que há ainda não é, vai ser.

Vivemos como infantes, muitas vezes. Esperamos o que virá, e não nos sabemos no que já existe. O presente se torna, assim, um tempo agônico em que não se é, no qual a identidade parece não se formar por completo e o desejo romântico do "colhe o dia" não se realiza. Vivemos encalacrados em atividades cotidianas, como se fossem elas os momentos mais importantes da vida. Todavia, ao voltarmos para casa, no caminho ainda do lar, percebemos que não realizamos. Simplesmente reproduzimos movimentos simples de um cotidiano viciado, como quem puxa um cigarro sem pensar no ato em si mesmo. Somos, sem perceber, ou sofrendo na percepção, autômatos.

O que parece dolorido de pensar - robôs humanos repetidores - piora, quando estendemos a metáfora para nossas intimidades, amores, paixões, desejos, sonhos e expectativas. Vivemos em suspensão... Como que sem presente. Esperando um futuro que, aparentemente, no seio de nossa imaginação, está formado, planejado, construído, pronto. Mas não se realiza, e não nos realizamos. Até conseguimos compreender intelectualmente os passos necessários para que sejamos aquilo que queremos ser, porém, estáticos, autômatos, robóticos, não agimos de acordo... Apenas seguimos o caminho costumeiro. Como que conectados em um banco de dados de ações imutáveis e comportamentos programados previamente.

É por isso que eu digo, a felicidade, em nossa sociedade moderna (ou pós, sabe-se lá), inexiste É um estado de euforias passageiras, que não se cumprem. Nossa estagnação ante o cotidiano organizado (quem dera fosse absurdo, mágico, fantástico) não permite a fruição do ser, o carpe diem, como se queira... Vivemos, mas não fruímos. Vivemos, mas não experimentamos. Lemos romances de papel, mas não narramos. Publicamos fotos na internet, mas não rememoramos...

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quinta-feira, 18 de junho de 2009




Já disse e repito: coleciono metáforas inúteis.

Certa vez, conversando com minha própria conciência disfarçada de interlocutor feminino virtual no MSN, elaborei um esboço do que seria uma nova filosofia: a metáfora do "si mesmo", a metáfora do self. A vida deveria ser encarada como, ela mesma, uma metáfora; tornando-se, assim, uma mímica dentro da realidade; uma ficção viva dos seres.

Todavia, como uma catapora (mais uma metáfora, a melhor maneira de não dizer nada), a vida coça. Todavia, ao coçar a vida, ou deixar que ela coce você, ela infecciona. E infecções são o início da morte. O vislumbre dela, sem esperança, contudo. Paradoxalmente (estou usando esta palavra fora do eixo), o ato mesmo de coçar é o único que poderia aliviar o peso de contrair a maldita catapora. Coçar-se alivia. Coçar-se infecciona. A vida já se virou em metáfora da escravidão.

E, assim, a poesia morre, no meio do botão da catapora que coça sem poder. A vida arde, pois ninguém sobrevive mais do que um dia com catapora sem se coçar inteiro, dos pés a cabeça, e infeccionar cada parte do corpo nu. Com ardor, a coceira se transforma em aflição, em angústia de estar vivo! Agônica, a vida se veste de catapora e nos atormenta como uma bolinha vermelha que não nos revela a verdade das origens, sim o leito do repouso eterno, que nunca vem... Esperamos a morte, que nos pararia de coçar com a vida, mas a noite não vem, não nos refresca, mantemo-nos vivos e além!

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segunda-feira, 15 de junho de 2009




Eu gosto de fotografias do céu. Meu pai, aprendiz de fotógrafo na juventude, também sempre gostou. Lembro-me de não compreender o sentido de algumas de suas fotografias, gentilmente debruçadas em sua mesa de escritório, na velha casa da aclimação. Hoje, mais experimentado, entendo o prazer que ele sentida em foliar aqueles papéis brilhantes revelados.

É uma sensação de infinito, incompreensível e universal. É bonito, confortante ver o céu. As luzes e sombras, projeções e fantasmagorias que o céu proporciona, faze-me descansar. É bom, é suave. Eu gosto, e suspiro...

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terça-feira, 9 de junho de 2009


iPhone.


Gostaria de postar a foto do meu próprio, mas deu preguiça de ostentação...

Estou sem assunto, muitas resoluções pendentes, carentes de poder decisivo de minha parte, posto que não dependem de mim... Em breve, espero, foto e comentário de nosso apartamento novo.

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segunda-feira, 1 de junho de 2009


Maxtor - Mande no meu endereço. Se você não sabe o meu endereço, também não deve saber que ele está prestes a mudar.


Meu HD externo parou de funcionar. Não sei qual o problema, mas todas as configurações, arquivos e rascunhos deste blog estavam lá, ou estão lá, dormentes, como eu. Deste modo, não sei o que serão de minhas postagens por aqui, mais um tempo de insônias e pausas...

Quem souber de um bom e confiável recuperador de dados de HDs, avise-me, aliás.

Por hora, é isso. Pausa, mais uma vez. Para voltar mais limpo e mais preciso. Até.

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