terça-feira, 28 de abril de 2009




Quando muito novo eu era, assisti pela primeira vez ao O Poderoso Chefão, The Godfather.

Desde então, sonho com armas, vinhos caríssimos, porões, prostitutas, extorsão, paisagens sicilianas, reuniões secretas, FBI, famílias, homens gordos, cenas em banheiros de restaurantes, Nova Iorque, strippers, Omertá.

A Máfia é, em meu imaginário, assim, ao mesmo tempo, metáfora da brutalidade e da sutileza; da maldade e da fidelidade.

A Máfia encarna para mim, dentro de meus sentimentos italianos mais honestos e impacientes, tudo o que deveria ser eliminado de nossa sociedade, já por si só corrupta. Todavia, simultaneamente, encerra um cenário incrivelmente atraente e sedutor.

Afinal, quando cenas do poderoso chefão, ou da família Soprano, dançam em minha memória, conheço uma espécie de sensação de pertencimento, uma identidade, um conforto. E, por oposição, os mesmos quadros me causam repulsa e nojo. É uma relação ambígua esta minha, com o crime organizado de características italianas, tal e qual pintado nas telas. Ambiguidade própria da identidade por si mesma, eu sei...

Postado por Diário Halotano.

segunda-feira, 27 de abril de 2009




Se até o cactus do meu irmão Marcelo consegue gerar uma flor tão linda, por que não germinamos o amor em nosso coração?

Eu amo vocês!

Postado por Diário Halotano.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Taken...

O carro andava sozinho, guiado pela claridade do vislumbre. Um evento fantástico ocorrera ali, jamais narrado antes.

Os seres humanos, colhidos por máquinas vindas do futuro apocalíptico, escondiam-se em clareiras sombreadas em meio aos escombros e pó.

Tomados pela intensidade de suas atividades cotidianas, tais seres jamais imaginavam estar servindo a uma realidade mais poderosa do que eles mesmos! E seguiam no falso controle autônomo de suas vidas.

Desde então, tudo parecia o mesmo.

terça-feira, 14 de abril de 2009

From the Future...

Sou um aficcionado pela chamada "ficção científica". Desde o clássico e pioneiro Blade Runner, até o eterno Terminator (e seus desdobramentos posteriores).

Todos esses filmes, de certa forma, rendem-se às inquietações de um futuro apocalítico, próximo do fim da história. Como que postados sobre um presente carente de sentido filosófico.

Presente e futuro se mesclam, amálgama temporal impossibilitado de dissociação. Assisto aos filmes de ficção científica como metáforas de uma sociedade sedenta por identidade. O presente não basta para explicar o caos social, humanitário, moral e crítico que vivemos em nosso cotidiano.

Assim, recorremos ao futuro trágico, como que almejando reconstruir o presente em si mesmo... Reconstruir nosso próprio papel no mundo!



"Leia como uma Metáfora: O halotano é uma droga bastante utilizada para induzir anestesia geral. Trata-se de um poderoso anestésico de inalação, não inflamável e não explosivo, com um odor relativamente agradável. Após a inalação, a substância chega aos pulmões tornando possível a passagem para o estado anestésico muito rapidamente. Porém, os efeitos colaterais incluem a depressão do sistema respiratório e cardiovascular, sensibilização a arritmias produzidas por adrenalina e lesão hepática."

O que efetivamente sentimos quando dopados? Sentimos ou imaginamos que sentimos? É a mesma coisa? Quais as diferentes sensações dentro deste sistema cartesiano em que vivemos nossa realidade dita palpável?

Imagino que deveria recaptular minhas leituras da filosofia Iluminista, os Esclarecida, ou Ensolarada, não sei, estou confuso. Minha mente gira, e só penso em como seria o mundo se todos fossem dopados.

Aí, em palavras bem simples, como se percebe, considero a possibilidade de já estarmos em estado contínuo de torpor intelectual, ausentando-se de nós mesmos nosso espírito crítico: abandonados em nossa própria miséria midiática...

Estamos como que anestesiados, com crises hepáticas diárias (leia-se bebedeiras, metafóricas ou não) e ataques do coração (não concreto à razão ou sim? Leiamos David Hume).

Postado por Diário Halotano.

segunda-feira, 13 de abril de 2009




Um monstro! Não como hipérbole da engenharia moderna, sim como metáfora de sonhos infantis. Esta ponte, à noite, no trânsito da Marginal Pinheiros, assemelha-se a um minotauro, com chifres, olhos brilhantes e enormidade descomunal.

Como que se fosse engolir os motoristas, transeuntes, ou o rio sujo de pau d'água. Exigindo de Atenas um primogênito e diversas virgens, como tributo a um deus de mentira, de aparências, personificado.

Fera curvada à direita, esquerda, em volúpias e mortais de costas. Parado, braços erguidos, pesadelo pós-moderno do autoritarismo cimentado.

Que o tráfego passe adiante. Não quero estar aqui quando tudo ruir em cinzas, escombros, pó e destroços submersos. Que a besta não me engula em noite de lua cheia, supersticiosa. Vai, trânsito, vai...

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segunda-feira, 6 de abril de 2009


Foto: Fabrício Remigio.


"Se, como assinala Frade, o ‘espanto’ em relação ao detalhe, ao minúsculo, apareceu para a fotografia logo nos seus primórdios, um outro espanto só pôde revelar-se com o advento da tecnologia do instantâneo: o “espanto” diante do “muito rápido”. Nas primeiras décadas de sua história, a fotografia era incapaz de registrar corpos móveis, mas, a partir da década de 1870, o acesso à velocidade tornou-se possível. A intensidade com que fotógrafos como Muybridge e Jules-Marey dedicaram-se às suas cronofotografias (que, de fato, deveriam chamar-se ‘dromofotografias’), constituindo seqüências de movimentos humanos e animais - e a curiosidade que despertavam estas imagens - marcam a época. Libertos da duração, os fotógrafos acreditaram finalmente ter dominado o tempo que antes os atormentava. Mas aquilo que então apreendem é apenas movimento - a forma “cinemática” do tempo, diria Bergson -, sua miragem. Quando surge o cinema, esta miragem se desfaz." - Mauricio Lissovsky.
O Tempo e a Originalidade da Fotografia Moderna

Recipiente vítreo, conteúdo líquido e rubro, prateleira marmórea, fundo amadeirado em papel de parede, rachaduras e estilhaços, o instante fotográfico que se choca e causa espanto! Espanta-nos, pois não conseguimos compreender a possibilidade da apreensão desta ação rápida. "Como é possível captar em fotografia um instante tão rápido no tempo, com essa precisão milimétrica?", perguntamo-nos. E, ao olhar, com palidez, para a imagem destroçada, não percebemos que a captura é apenas miragem do real, uma apreensão cinemática de um tempo que, rápido ou vagaroso, ao ser dominado, não existe mais!

"No prefácio à segunda edição (1843) de A essência do cristianismo, Feuerbach observa a respeito da 'nossa era' que ela 'prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser' - ao mesmo tempo que tem perfeita consciência disso. E seu lamento premonitório transformou-se, no século XX, num diagnóstico amplamente aceito: uma sociedade se torna 'moderna' quando uma de suas atividades principais consiste em produzir e consumir imagens, quando imagens que têm poderes excepcionais para determinar nossas necessidades em relação à realidade e são, elas mesmas, cobiçados substitutos da experiência em primeira mão se tornam indispensáveis..." - Sontag, Susan. Sobre Fotografia.

E o nosso espanto se torna fetiche! Desejamos com ardor a observação do recipiente vítreo se espatifando, mais do que poderíamos ser capazes de almejar a experiência em primeira mão de atirarmos uma jarra de vidro na prateleira no quarto escuro. Somos modernos, construímos nossa identidade sobre imagens do real, sombras do que não existe para nós mesmos e que somente vislumbramos. E nossa cultura, nossa sociedade (também ela moderna, na essência), nossos indivíduos, consomem imagens, instantâneas ou não, fantasias de um real que não existe, ou simplesmente cansa de ser insatisfatório.

Iludimo-nos, portanto, constantemente. Fantasiamos "o que poderia existir se...". E, assim, nunca o vidro se torna metáfora de nós mesmos! Afinal, nunca enfrentamos o conceito que temos de nossa própria representação. Somos, mais uma vez, modernos, e consumimos a imagem destorcida daquilo que pensamos ser, a nossa própria imagem no espelho.

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quinta-feira, 26 de março de 2009





Imagine significados para a palavra "explorar". Demore-se em imaginar, eu espero.

Pronto? Imaginou? Eu também...

Percebi sozinho (quem diria!) que a expressão é carregada de possíveis metáforas e duplos sentidos! Desde a mais simples denotação, até a mais complexa e rebuscada conotação, a palavra saltou em minha mente diversas vezes, portanto, explorei-a.

O primeiro sentido da exploração que me ocorreu está no domínio da tecnologia da informação, dos filmes de ficção científica e dos cálculos complexos do tempo e espaço. Todavia, logo me furtei desta interpretação, não por sua complexidade, mas por sua chatice mesmo...

Então me veio à mente uma outra acepção, mais prazerosa, mais minha... Imaginei infinitamente uma caverna escura, sob a luz azul da lua cheia. Sou o explorador desta caverna, rica em histórias passadas, em vestígios presentes, em narrativas apagadas de mim mesmo e de quem me lê! Passeei pelo interior da caverna e vi o escuro, até que não se via mais nada. Senti-me preso, cheio, tonto, à beira da razão... Até que não senti mais nada, leve como a luz que envolvia a superfície do meu corpo.

Da caverna, circulei por diversas metáforas da exploração, mais uma vez, redundante. Cavernas, pistas, pessoas, cérebros, máquinas, a máfia, Espanha, colônias, sífilis, pele, ossos, desenhos, história, literatura, América, identidades, meninas, eu mesmo. Enfim, eu mesmo... Afinal, como disse um amigo meu, os blogs são essencialmente narcisistas.

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segunda-feira, 23 de março de 2009




Após mais uma de minhas pausas secretas e inexplicáveis, retorno à "seção anônima". Esta mensagem encerra minhas atividades neste tema, justamente por ser definitiva:

"Aquilo que ninguém viu ou teve chance de conhecer. Irrefutável, já que não é discutível, se for indivíduo. Se for objeto não é importante, pois só é interessante compartilhar com a matéria pensante. Acho que é isso, pois seria plausível ser, sem qualquer tipo de identificação? Talvez sim, sempre não, necessário quando se trata da polícia militar de São Paulo".

Quem assina este parágrafo anônimo e sarcástico é a minha Elise! Até mais ver...

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segunda-feira, 16 de março de 2009




Hoje descobri o blog de um velho amigo, Rodrigo de Oliveira Antonio, neto de Antonio Elias, um senhor distinto, que habita minha imaginação. Deste modo, em homenagem a Oliveira, deixo um texto de minha juventude para vocês (se desejar, compare o texto com a nossa definição metafórica do Halotano):

Estava eu andando em minha belicosa vizinhança quando deparei-me com cenas nada surpreendentes e de tudo chocantes...

Moro em um bairrozinho no subúrbio de São Paulo, na zona Sul, conhecido pelas agruras intrínsecas aos campos marginalizados pelo sistema capitalista de produção; lugar caracterizado pelo envio em massa de mão-de-obra aos centros produtores, mão-de-obra essa atarracada em pequenos compartimentos cúbicos de transporte.

...entretanto não é a descrição do nicho o centro de minha narrativa, voltemos às cenas que causaram minha surpresa, ou seria epifania...

Era uma tarde de sexta-feira, estava voltando de mais um dia exaustivo quando senti um aroma especial de café em uma das casas da ruazinha companheira de outros cheiros menos amigáveis; andei mais algumas quadras e vi crianças batendo uma bolinha no meio da mesma ruazinha, em frente a uma escola companheira de jogos menos inocentes; continuei... A luz do sol estava com um brilho diferente e não fervia estufante; as janelas pareciam estar fluorescentes; o cafetão da rua Z implorava por casamento aos pais da Patrícia; o gato perseguia aquele Boxer truculento; a luz nos olhos daquela menina da esquina não eram mais de lágrimas, estranhei.

Algo parecia estar ocorrendo, a ordem das coisas estava mudada, peças estavam fora do lugar, minhas sinapses não eram suficientes para captar o novo circuito. Foi então que o mais surpreendente aconteceu: os sons desapareceram! Nada mais podia ser ouvido. Os gritos, as balas, os fogos de artifício, as cigarras, o Rap, o Hip Hop, os avisos, os pneus... Nada mais vibrava em energia sonora... Fiquei estático, toda a energia cinética de meu corpo foi armazenada, o nível de adrenalina subiu, a sistêmica e a pulmonar aumentaram o fluxo, a pressão arterial atingiu níveis limítrofes.

Foi quando uma brisa passou leve. Minha cabeça virou-se na direção do muro de minha casa, um algo cilíndrico, pequenino e apastelado na cor encontrava-se lá aderido, era a única unidade que emanava algum ruído naquela região lacônica. Um som crackeado, foliado, iridescente (se é que som tem cor). Movimentos brutos e ininterruptos brotavam da unidade, até que uma aparente exaustão fez com que a luta cessasse. Meu corpo já voltava ao normal e eu podia tecer alguns movimentos, aproveitei-me da situação favorável e fui em direção da unidade cilíndrica. O processo estático de meu organismo voltou. O ruído voltou. Os movimentos contorcidos voltaram. O módulo pequenino então rompeu... Uma claridade césica traspassou minha carcaça corpórea, caí entorpecido; o ruído deu lugar a um som tufônico somente explicado por teorias típicas dos anos 60; a cápsula tombou vencida e uma série de cores lúdicas e oníricas vibravam sobre minha face anestesiada. Seria esse o motivo de todas aquelas transformações?

Por alguns segundos, durante o nascimento ou transformação ou metamorfose ou surgimento do imago daquele artrópode, o mundo parou. O fenômeno da “Explosão Borboletária” – como ficou conhecido – fez com que a roleta desse lugar ao futebol. A prostituição ao casamento. A erva ao grão. O choro ao orgasmo. Durante alguns minutos todas as ondas sonoras deixaram de ser emitidas; os sistemas simpáticos das massas humanas de todo o planisfério terrestre incrementaram níveis catastróficos de adrenalina para que a situação caótica fosse possível dentro de cálculos matemáticos predeterminados; naquele instante milhões exatos de borboletas sofriam metamorfose ao mesmo tempo, tornando inevitáveis os acontecimentos físicos, psicológicos e reveladores subseqüentes.

A “Borboletária” excitou cientistas de todo o mundo ao ser um indício determinístico do indeterminado, ou seja, uma prova quase que irrefutável da existência do que costumamos chamar nos meios de pesquisa de Teoria do Caos. Por outro lado, agitou o mundo filosófico ao modificar profundamente o meio ambiente das populações, afinal, durante o fato, costumes foram alterados definitivamente, ou seja, o café continua a ser coado todos os dias no mesmo horário, o boxer nunca mais foi o mesmo, Ronaldo e Zulmira casaram sua filha com o cafetão, a menina da esquina irrita a todos com seus gemidos diários e eu tenho espasmos musculares desde o ocorrido.

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quinta-feira, 12 de março de 2009

Nada de imagens metafóricas hoje!

Passei por aqui apenas para comemorar a aprovação de minha Elise em sua prova de Mestrado em Zoologia, pela Universidade de São Paulo!

Foi um início de ano conturbado, mas ela conseguiu mais essa! Parabéns, Elise! Seja feliz em mais essa caminhada. Eu te amo!

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quarta-feira, 11 de março de 2009




Para Luis "Quixote" Zanin, o anônimo pode ser definodo da seguinte maneira: “Tentativa de não identificação”.

Mais do que a definição em si mesma, objetiva e, por isso, não típica das preposições "Zaninianas", é digno de nota o uso da expressão verbal subjetivada: "tentativa".

Para o Quixote, o anônimo não é aquele que não pode ser identificado, ou que não deseja ser identificado, sim aquele que tenta se esconder.

Os motivos do tentame são infinitos. Todavia, o anônimo, como em filmes de perseguição policial nas ruas de Nova Iorque, esgueira-se por ruas, vielas, telhados, esquinas, casas, quartos, janelas, paredes... Tenta, tenta, esconde-se, esconde-se, perde-se, finalmente. De tanto se esconder, o anônimo se transforma, no limite da razão.

A metáfora quixotesca aqui é o inverso da racionalidade do herói espanhol. Ao invés de mostrar-se ao mundo em sua marcha, o anônimo oculta sua identidade de si mesmo. Olha-se no espelho e se vê! Olha de novo e não está mais lá. Não sabe o que quer, não sabe quem é, não sabe de nada. Quer, deseja, anseia... Porém sobra-lhe a amargura de esconder-se por detrás da cortina que o separa do presente, o palco das definições. Permanece eternamente em um pretérito do futuro, como que em estado de dúvida, postado diante do devir. Ao mesmo tempo, sauda o passado e inquieta-se sobre o futuro! É a metáfora da angústia, viva.

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quarta-feira, 4 de março de 2009




"Anônimo", por Fabrício Remígio:

"Anônimos são todos aqueles indivíduos que saem de casa de manhã, voltam à noite, assistem televisão, sonham com um carro novo e traem suas mulheres e maridos".

Era de manhã. Era no carro novo. Era na ida, infelizmente pronto para voltar... Sem adultérios!

Um dia de verão, desejo de chuva, cheiro de asfalto molhado, pé na estrada.

Palavras soltas, como estas, vagueavam o córtex. Escrita mental, que se torna automática, como sempre. Quer-se poesia, mas se faz prosa morna, pétrea, como rochas praieiras.

Sentado no macio do banco, revela a si mesmo a ruptura que vive em todos os sabores. Sorve a protusão de estar na metrópole. Acha-se perdido, antonímia sem sentido, quase um trocadilho meramente infame.

Escreve, pensa, degusta, enjoa, quebra, rompe, arrebenta, junta, rejunta, acolhe, descobre, esquece, lembra, relembra, senta, aperta, angústia.

E permanece anônimo de si mesmo, ocultando desejos eternos do mundo inteiro na ponta de sua esferográfica transparente.

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terça-feira, 3 de março de 2009




Após longa pausa (nossa, como eu me conforto com esta palavra), sigo o caminho com minha série sobre o "anônimo". Hoje, quem nos oferece sua pitada de anonimato é a Paulinha Iglesias, amiga de longa data, heroína da resistência que prefere permanecer anônima.

Anônimo: “1. Pessoa que vive no anonimato; 2. Quem quer falar, mas não quer assumir a autoria”.

Apesar do raciocínio tautológico, inerente à nossa amiga em questão, Paulinha nos revela uma ação sem sujeito. Ou seja, uma atitude nevoenta, sem testemunho, ausente de autoria.

Como que em transe, seu pensamento nos guia à uma via sem fim. Nada de ruas de tijolinhos amarelos, nada de submarinos amarelos, nada em cores. Somente o fim, antes do começo; a conclusão, antes da premissa; a inação, antes do desejo.

E qual a relação disso tudo com o sorridente charuto de nossa imagem? Nenhuma. Ou todas.

"Minha música é água fria e gelada", diria nosso mestre músico, comparando-se aos ditos mestres dos coquetéis musicais dos séculos XIX e XX. E, assim como nossa definição anônima de hoje, Sibelius preferiu uma vida austera. Casou-se, fez-se pai, compôs a simplicidade, como que se fosse possível personificá-la em sons finlandeses.

Admiro-o pela audácia em afirmar-se cru ante sua mais do que formidável coleção de composições. Aprecio sua música justamente por tocar diretamente no estômago, levando a alma a um passeio frio pela verdade cristalina de estar vivo! Nada de piruetas dodecafônicas... Nem um pouco de preciosismo moderno... Apenas notas, melodias, sons, harmonia, pureza, liberdade e o real... Um tapa, um gole, a revelação!

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009


Foto: Fabrício Remigio.


Hoje dou cabo de minha série curta de elogio aos animais. Inicio uma outra sequência, relacionada à definição múltipla do "anônimo". Alguns de meus mais chegados ofereceram para mim (alguns aida estão oferecendo) sua idéia do anonimato. Vou compartilhar aqui em meu diário. Ao final, deixarei, a quem interessar possa, minha própria perspectiva.

Quem dá o pontapé inicial no anonimato confesso é a Fabiana Nista, ou, para mim, simplesmente fabinista:

"Anônimo é a vontade de estar só. É o não querer ser notado. Anônimo é a nulidade do ser... Anônimo é o não querer existir e ser anônimos por alguns minutos, por algumas horas por alguns dias, às vezes conforta. O anônimo tem mais força nas palavras pois o próprio ser se anula na "anonimidade" (essa palavra não existe). Ficam as palavras, as idéias jogadas no ar, para quem quiser ouvir e imaginar e acreditar que, mesmo em anônimo, ainda existe sensibilidade nas pessoas. Talvez por saber do poder das letras do anônimo, esse anônimo pode querer ter a audácia de ser Deus e causar sensações indescritíveis, incitar idéias, pensamentos e emoções sem ao menos ser visto... A palavra de um anônimo pode ser forte ao ponto de causar metamorfoses borboletárias nas pessoas e principalmente no próprio anônimo que busca no mais íntimo do seu ser a cura dessa vontade triste que o leva a ser anônimo, mas que culminam em resultados surpreendentes. É a transformação no anônimo em herói: herói de si mesmo e dos outros"

A Fabi sempre me agradou em sua escrita automática. Quando ela simplesmente esquece seu apego à matéria gramatical e às regras linguísticas sem sentido, escreve poemas em prosa. Aqui, em sua acepção do anônimo, deixa-nos o heroísmo sem nome do cotidiano.

E é justamente o dia-a-dia a filosofia metafórica que me agrada mais. Todos os dias, banais e triunfantes, são, em sua maneira, deliciosamente reflexivos. Desde uma tarde clichê de trânsito, até um domingo recorrente de sono, futebol e mais sono.

Esta ambiguidade entre o prosaico e o rebuscado, o diário e o pensamento profundo, a nulidade e o heroísmo do ser me fazem continuar vivo. Como que em transe, mas definitivamente pulsando.

Porque a vida, nela mesma, sem densidades teóricas, é um brilho tênue entre o que se deseja e o que deve ser feito. Entre o que se é para si mesmo, e o que se parece aos outros. Um desequilíbrio entre a essência e a aparência.

Fabinista amplia toda a noção de anonimato, elevando-a ao conceito de que somos anônimos mesmo que reconhecidos pelos "conhecidos". Somos anônimos mesmo quando causamos no outro sensações indescritíveis, segundo ela, divinas. Vemos o anônimo todos os dias, mas não o conhecemos em sua profundeza espiritual. Mesmo assim, o sublime nos abraça, como que cobertor de fogo ardente.

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P.S. Fabinista, em seu texto breve, menciona as "metamorfoses borboletárias". É uma citação alterada que ela faz de um de meus textos da "juventude". Um dia ele figurará neste diário!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009


Foto: Fabrício Remigio.


Este texto dá continuidade à minha série relacionada aos animais que chamam a atenção. Estes três me atraíram pelo simples fatos de serem simulacro. Não são animais propriamente ditos, mas fingem o ser.

O mesmo acontece com muitos de nós, embalagens de seres humanos. Em uma prosopopéia ao contrário, por exemplo, é comum chamarmos nossos queridos (ou aqueles odiosos) de "camarão", "elefante", "vaca", "girafa", "lesma", ad infinitum.

Entretanto, não é desta relação homem-animal que faço referência. Quando disse que aprecio os animais da foto por serem "simulacro" do real (contrariando Jean Baudrillard), significo que o real é (não em si mesmo, mas para quem o vive) a imitação própria.

A nossa realidade moderna (alguns insistiriam em chamá-la pós) é uma coleção de fetiches e, portanto, simulações do que deveria ser, nunca uma presença empírica do "em si". Deste modo, como em Michel Maffesoli, nossa sociedade não atinge, nunca, a essência dos objetos, dos sonhos, dos sentidos, do que se é; sim os simula todos, como que em um teatro cinematográfico de fotografias do inconsciente. E, como tal, jamais aflora da psiqué. Existimos como que em trânsito, pois não vivemos, não experimentamos, apenas sentimos.

A grande surpresa reflexiva que toda essa demonstatação me traz é a de que, mesmo em um mundo de sonhos, nossas "necessidades" (sejam físicas, sejam da fantasia, como proferiu Marx) estão eternamente insatisfeitas. Vivemos em estado constante de desassossego, insatisfação, ansiedade, desejo, falta, depressão.

Sinto que os habitantes do munto "estão", não "são". Insanos por sua própria natureza onírica. Como que sob o efeito de pílulas para uma esquizofrenia crítica, que não consegue determinar a própria denotação.

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009


Foto: Fabrício Remigio.


Hiato.

Gramaticalmente, vogais que, ao aparecerem próximas em uma mesma palavra, podem-se separar em sílabas. Ou seja, é um fenômeno vocálico, pois as vogais adjacentes soam unidas, todavia são apartadas em unidades distintas.

Metaforicamente, sugere um intervalo entre duas ou diversas ações de um mesmo emissor. Ou simplesmente a parada brusca de determinado ato, para seu posterior reinício, com ou sem aviso prévio. Ou seja, é um fenômeno temporal, pois é determinado pela noção cartesiana de início, meio e fim.

Para mim, é a pausa reflexiva. É quando o camarada entra em estado de torpor e espera. É inalar sem reservas todo o Halotano disponível, em doses cavalares. Ou seja, é um fenômeno espiritual, pois o sujeito (indivíduo) encara seu predicado (reflexão, raciocínio, identidade) e o analisa, como que em microscópio, transformando-o e a si mesmo. O resultado é, pasmem, dialético! Ambos não serão mais os mesmos, negativos.

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009


Foto: Fabrício Remigio.


Definindo o Otário

Era uma vez (sim, ainda iniciam-se textos assim) um solitário. Não se sabia se era um homem ou apenas uma peça de roupa.

Importava-se com a maldita escrita automática, menos, cada vez menos com o intelecto polido, argüidor e possante dos tempos da “academia”.

Apenas mantinha textos suaves em sua versão eletrônica de livro, diário ou sei-lá-o-quê. Não mais empoeirava suas narinas em mofo áspero de biblioteca pública fetichizada.

Leu o “Como me Tornei Estúpido” e alcançou o que jamais Martin Page conseguiria colocar em sua algibeira oca e sem fundo. “Tinha poucos amigos, porque padecia dessa espécie de anti-sociabilidade que resulta da demasiada tolerância e compreensão. ... Em um mundo em que a opinião pública está confinada nas pesquisas às possibilidades sim, não e sem opinião, Antoine não queria preencher nenhum quadradinho”.

Era um apátrida no meio de uma sociedade que simplesmente suava soberba moderna sem face e sem poros. Sentia-se mole, como que mesclado em névoa lúgubre. Sentia-se sem identidade, sem “eu mesmo”, desassociado de possíveis grupos que o acolhiam sem saber como.

Espreguiçou sua mente em rede de lã. Sem novelos. Sem parágrafos. Sem vida. Sem história. Sem gosto. Sem compaixão. Sem solidez. Sem pó. Sem tudo o que se imagina existente em alguém que é.

Descansou seu cérebro em tamanha qualidade de colchão, que não era mais capaz de engolir a seco as pílulas da crítica social ou simplesmente qualquer pílula que promovesse raciocínio obscuro.

E saiu do extenso. E abandonou o complexo. E parou a dança com o violinista cego da tumba logo ao lado.

Inaugurou uma nova balada. Sons claros e límpidos. Água gelada em meio aos sons refinados das bebidas coloridas de seus antigos comparsas.

Foi-se. Caminhou-se. Debateu-se, pela última vez. Cambaleou como fera que foge do circo maravilhoso que mostra ao mundo a insensatez. Sua arena era estéril. Seus pensamentos, áridos. Sua filosofia, gelada e cristalina.

Tomou o último gole. Disse adeus. Mediu os caminhos. Mais uma vez, admirou-se de sua própria capacidade de metamorfose. Sonhou, em um suspiro, com a lagarta-borboleta, parou, como que em soluço, de pronunciar metáforas. Era o fim.

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009




Como já havia mencionado, o mês de janeiro foi de empreitadas. E foi longo...

Hoje inicio aqui uma série de postagens relacionadas aos animais. Somente voltarei aqui quando algum ser vivo em movimento me chamar a atenção.

Hoje a minha metáfora é sobre a pomba. Símbolo recorrente da paz, esta me sensibilizou pelo oposto! Encarnou, para mim, em uma sessão fotográfica precisa, o próprio conflito, a ruptura, as consequências do estar vivo...

Fraturada por um meio que a transformou, não o inverso, como se costuma afirmar sobre os seres e a urbanidade. Nós a modificamos, ela nos altera, somos metáforas vivas de onde vivemos. O nosso “lugar” é resultado de nossas ações, ao mesmo tempo em que é agente de quem somos ou nos tornamos.

Quem é a personagem? Qual é o set de filmagem? Quem são os protagonistas? Quais são os coadjuvantes? Quem somos, onde estamos, o que controlamos, quem nos domina todos os dias, sem mesmo percebermos os liames?

Se você julga controlar tudo em seu redor, pense novamente. Pense nos faróis vermelhos, na ética pública de andar na rua, do “lixo no lixo”, dos “bom dia”, “boa tarde”, dos olhares proibidos no decote da vizinha. O ambiente, a urbanidade, as leis, os códigos de comportamento, os prédios, a vilania, os vidros, as grades, os corredores, as proibições, as permissões...

São estes elementos estruturados para dominar você, ou para te proteger? Não seria a mesma coisa?

Postado por Diário Halotano.